Trigo hoje: preços sobem em Chicago, produção brasileira deve cair 20% e mercado segue travado no Sul
Oferta global mais restrita, tensões geopolíticas e perspectiva de menor safra no Brasil impulsionam cotações internacionais, enquanto negociações permanecem lentas nos estados do Sul.
Publicado em: 15/07/2026 às 11:17hs
O mercado de trigo vive um momento de forte contraste entre os cenários internacional e doméstico. Enquanto os contratos futuros registram altas consecutivas na Bolsa de Chicago (CBOT), impulsionados pela redução da oferta global, pelas tensões no Mar de Azov e pela expectativa de uma safra menor no Brasil, as negociações no Sul do país continuam em ritmo lento, marcadas pela baixa liquidez, cautela dos compradores e resistência dos vendedores.
O movimento evidencia que, embora os fundamentos internacionais sustentem uma valorização do cereal, fatores locais como excesso de sementes, qualidade do produto e demanda enfraquecida continuam limitando os negócios no mercado físico brasileiro.
Chicago dispara com redução da oferta global e riscos às exportações russas
Os contratos futuros do trigo ampliaram os ganhos em Chicago nos últimos dias, refletindo um cenário internacional mais apertado para a oferta do cereal.
Na abertura desta quarta-feira (15), o contrato para setembro era negociado a US$ 6,65 por bushel, com valorização superior a 20 pontos. O vencimento dezembro avançava para US$ 6,79 por bushel, enquanto março de 2027 alcançava US$ 6,91 por bushel, mantendo o mercado em tendência positiva.
O principal suporte para os preços continua sendo o relatório de oferta e demanda (Wasde), divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que reduziu tanto a estimativa da produção norte-americana quanto os estoques globais de trigo.
A produção dos Estados Unidos foi revisada para 1,536 bilhão de bushels, enquanto os estoques finais mundiais passaram para 272,84 milhões de toneladas, reforçando a percepção de um mercado internacional menos abastecido.
Conflito entre Rússia e Ucrânia aumenta preocupação com exportações
Outro fator de sustentação dos preços é o agravamento das tensões no Mar de Azov.
A região responde por aproximadamente 25% das exportações russas de grãos, e recentes ataques envolvendo embarcações aumentaram as preocupações do mercado sobre possíveis interrupções no fluxo comercial.
Embora o governo russo tenha informado que poderá redirecionar os embarques para portos localizados no Mar Negro e no Mar Báltico, operadores seguem monitorando os impactos logísticos da guerra sobre o abastecimento global.
Na sessão anterior, os contratos de setembro encerraram cotados a US$ 6,45 por bushel, com alta de 1,53%, enquanto dezembro fechou a US$ 6,59¾ por bushel, avanço de 1,42%.
Colheita nos Estados Unidos limita parte das altas
Apesar do cenário internacional favorável às cotações, o avanço da colheita norte-americana impõe certa limitação aos ganhos.
Segundo o USDA, a colheita do trigo de inverno atingiu 67% da área cultivada até 12 de julho, acima dos 59% registrados na semana anterior.
Já as lavouras de trigo de primavera apresentaram melhora nas condições, com 58% classificadas entre boas e excelentes, superando os 57% da semana anterior e contrariando as expectativas de deterioração.
Esses números reduziram parte da pressão compradora, mas não foram suficientes para reverter a tendência positiva das cotações.
Brasil deve colher 20% menos trigo na safra 2025/26
No mercado interno, a atenção permanece voltada para a safra brasileira.
A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) projeta uma produção próxima de 6,3 milhões de toneladas, representando uma queda de aproximadamente 20% em relação ao ciclo anterior.
A redução deverá ampliar novamente a necessidade de importações, principalmente da Argentina, para abastecer a indústria moageira nacional.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), embora tenha elevado sua estimativa para a produção total de grãos do Brasil em 2025/26, mantém perspectivas menos favoráveis para o trigo, diante da redução da área cultivada e da expectativa de menor produtividade.
Mercado físico continua lento no Rio Grande do Sul
Enquanto o mercado internacional reage aos fundamentos de oferta, o comércio interno segue travado.
No Rio Grande do Sul, segundo levantamento da TF Agroeconômica, os moinhos operam com moagem reduzida e mantêm compras pontuais, diante de uma demanda considerada fraca.
A sobra de sementes comercializadas próxima de R$ 1.250 por tonelada continua pressionando as referências do trigo para uma faixa entre R$ 1.300 e R$ 1.320 por tonelada.
Negócios anteriormente fechados entre R$ 1.350 e R$ 1.380 por tonelada permanecem como parâmetro para o mercado, mas novos reajustes encontram resistência devido ao comportamento dos preços da farinha.
Outro fator de preocupação é a qualidade dos lotes gaúchos, com registros elevados de contaminação por DON (deoxinivalenol), micotoxina que compromete o aproveitamento industrial.
Além disso, o trigo argentino entregue em Canoas recuou para US$ 275 por tonelada, aumentando a competitividade do produto importado.
Santa Catarina registra vendedores retraídos
Em Santa Catarina, o mercado permanece praticamente parado.
Produtores seguem segurando as vendas à espera de preços mais elevados, enquanto compradores demonstram pouca disposição para fechar novos negócios.
As pedidas variam entre:
- R$ 1.300 e R$ 1.350 por tonelada para trigo-pão;
- R$ 1.360 e R$ 1.400 por tonelada para trigo branqueador.
Mesmo com essas referências, não foram registrados negócios relevantes.
No mercado de balcão, as cotações permaneceram estáveis em Chapecó, Rio do Sul, Joaçaba e Xanxerê, com pequenas altas observadas apenas em Canoinhas e São Miguel do Oeste.
Paraná mantém preços firmes e amplia espaço para trigo importado
No Paraná, a safra velha segue com preços praticamente inalterados, enquanto as indicações para a nova safra apresentam valorização.
Nos Campos Gerais, compradores oferecem cerca de R$ 1.450 por tonelada CIF, enquanto moinhos do Norte do estado negociam entre R$ 1.520 e R$ 1.530 por tonelada.
A escassez de trigo disponível no mercado interno, somada ao excedente de sementes e à busca por maior qualidade, vem favorecendo o avanço das importações de trigo paraguaio.
Para a safra nova, as indicações também giram em torno de R$ 1.450 por tonelada CIF moinho, com entregas previstas entre o final de agosto e setembro.
Mercado acompanha oferta global e disponibilidade interna
O mercado brasileiro entra na segunda metade do ano acompanhando dois fatores que deverão determinar a evolução dos preços nos próximos meses: a redução da produção nacional e o comportamento da oferta internacional.
Caso persistam as incertezas sobre as exportações russas e se confirmem as projeções de menor safra brasileira, a dependência das importações tende a aumentar, especialmente da Argentina.
Ao mesmo tempo, a liquidez no mercado físico continuará condicionada ao comportamento da indústria moageira, à qualidade do trigo disponível e à evolução dos preços internacionais, que seguem influenciados tanto pelos fundamentos globais quanto pelo cenário geopolítico.
Fonte: Portal do Agronegócio
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