Trigo hoje: preços sobem em Chicago com tensão no Mar Negro, mas mercado brasileiro segue travado por estoques e demanda fraca
Cotações internacionais avançam mais de 4% diante de riscos geopolíticos e menor oferta global, enquanto moinhos do Sul permanecem abastecidos e limitam novos negócios no mercado interno.
Publicado em: 23/07/2026 às 11:20hs
O mercado de trigo vive um cenário de contrastes. Enquanto as cotações internacionais registram forte valorização impulsionadas pelas tensões no Mar Negro e pela perspectiva de redução da oferta mundial, o mercado brasileiro segue com baixa liquidez. No Sul do país, moinhos abastecidos, vendas lentas de farinha e preços considerados elevados mantêm compradores cautelosos e restringem a realização de novos negócios.
O movimento evidencia um descolamento entre os mercados externo e interno. Na Bolsa de Chicago (CBOT), o trigo acumula ganhos expressivos diante das preocupações com as exportações globais. Já no Brasil, a comercialização permanece limitada pela combinação de estoques elevados e demanda enfraquecida.
Mercado brasileiro de trigo continua travado no Sul
Segundo análise da TF Agroeconômica, o ambiente comercial segue praticamente parado nos principais estados produtores.
Os moinhos continuam operando com estoques confortáveis, enquanto o consumo de farinha permanece abaixo do esperado. Como consequência, há redução no ritmo de moagem e menor necessidade de aquisição de matéria-prima.
Além disso, o aumento dos preços do trigo importado da Argentina também reduz a competitividade das compras externas.
Rio Grande do Sul mantém poucos negócios
No Rio Grande do Sul, a situação permanece praticamente inalterada.
Os moinhos seguem abastecidos, enquanto a lentidão nas vendas de farinha prolonga os estoques e reduz a necessidade de novas aquisições.
O trigo argentino ficou mais caro após a elevação do preço FOB do cereal com 11% de proteína para embarques de agosto, passando de US$ 230 para US$ 240 por tonelada. Com isso, a indicação chegou a aproximadamente US$ 286 por tonelada CIF Canoas.
Outro fator que preocupa o setor é a qualidade do trigo remanescente no estado. Há relatos de elevados índices de DON (Deoxinivalenol), micotoxina que compromete a qualidade industrial do cereal.
Em Panambi, o preço de balcão permanece em R$ 70,02 por saca.
Santa Catarina registra escassez de oferta
Em Santa Catarina, praticamente não há mais disponibilidade de trigo produzido no estado entre as regiões de Campos Novos e Xanxerê.
O último negócio envolvendo trigo catarinense foi realizado a R$ 1.350 por tonelada FOB, acrescido do frete. Já o cereal gaúcho vem sendo ofertado entre R$ 1.340 e R$ 1.400 por tonelada, além dos custos logísticos e ICMS.
Também houve comercialização de sobra de sementes a R$ 1.450 CIF moinho.
A retração nas vendas de farinha levou diversos moinhos a diminuir a moagem e alongar seus estoques.
No mercado de farelo houve melhora, com negócios ao redor de R$ 1,10 por quilo para o produto ensacado.
Os preços de balcão permaneceram estáveis em Chapecó, Rio do Sul e Xanxerê, avançaram em Canoinhas e Joaçaba e recuaram em São Miguel do Oeste.
Paraná acompanha mercado cauteloso
No Paraná, o mercado também segue lento.
Embora o trigo argentino possa ganhar competitividade em determinados segmentos, a alta recente de US$ 10 por tonelada elevou os custos de importação.
O trigo disponível foi negociado em torno de R$ 1.450 por tonelada CIF moinho em Curitiba, com indicações semelhantes nos Campos Gerais e entre R$ 1.530 e R$ 1.550 no Norte do estado.
Para a safra nova, as referências variam entre R$ 1.400 e R$ 1.420 por tonelada, porém vendedores continuam retraídos diante das incertezas climáticas associadas ao El Niño. Até o momento, praticamente não há registros de novos negócios.
Chicago dispara com ataques no Mar Negro
Enquanto o mercado brasileiro permanece travado, o cenário internacional mudou rapidamente.
Na quarta-feira (22), os contratos futuros do trigo encerraram o pregão com valorização superior a 4% na Bolsa de Chicago, refletindo novos ataques russos à infraestrutura portuária da região de Odessa.
As ofensivas reacenderam os receios quanto à continuidade das exportações pelo Mar Negro, uma das principais rotas mundiais para o comércio de trigo.
Os contratos para setembro fecharam cotados a US$ 7,05¾ por bushel, alta de 4,09%, enquanto dezembro encerrou a US$ 7,22¾ por bushel, avanço de 3,84%.
Já na abertura desta quinta-feira (23), o mercado manteve o viés positivo.
Por volta das 5h05 (horário de Chicago):
- Setembro/2026: US$ 7,07 por bushel
- Dezembro/2026: US$ 7,23 por bushel
- Março/2027: US$ 7,38 por bushel
As cotações continuam sustentadas pelas incertezas geopolíticas e pelas expectativas de menor oferta mundial.
Oferta global mais apertada reforça alta do trigo
Além das preocupações com o Mar Negro, o mercado acompanha revisões negativas para a produção em importantes países produtores.
Durante a tradicional expedição pelas lavouras de trigo de primavera em Dakota do Norte, nos Estados Unidos, os primeiros levantamentos apontaram produtividade média de 46 bushels por acre, cerca de 8% inferior à registrada na mesma região no ano passado.
Segundo a AgResource, a intensa onda de calor observada recentemente reduziu o potencial produtivo das lavouras norte-americanas.
Outro fator de sustentação veio da Rússia.
A consultoria SovEcon reduziu sua estimativa para a safra russa de trigo 2026/27 de 88,9 milhões para 88,3 milhões de toneladas, refletindo a deterioração das condições das lavouras no sul do país, especialmente na região de Krasnodar, além da revisão da área cultivada.
Perspectivas para o mercado de trigo
O mercado internacional continua monitorando simultaneamente os riscos geopolíticos envolvendo o Mar Negro e as condições climáticas nos principais países produtores.
Caso ocorram novas restrições às exportações ou novos cortes nas estimativas de produção global, o ambiente tende a permanecer favorável às cotações internacionais.
No Brasil, entretanto, o comportamento do mercado dependerá principalmente da evolução das vendas de farinha, da reposição dos estoques pelos moinhos e do desenvolvimento da nova safra. Enquanto esses fatores não mudarem, a tendência é de manutenção da baixa liquidez, mesmo diante da valorização do trigo no cenário internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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