Trigo chega a R$ 1.700 no RS, mas queda internacional exige cautela nas vendas
Problemas de qualidade na safra do Sul valorizam lotes que atendem aos moinhos; consultoria recomenda negócios escalonados e atenção aos custos, ao câmbio e à oferta argentina
Publicado em: 26/10/2026 às 11:30hs
O mercado de trigo no Brasil apresenta diferenças expressivas de preços conforme a qualidade dos grãos, em um cenário de dificuldades na safra do Sul e pressão das cotações internacionais. No Rio Grande do Sul, negócios pontuais com trigo da safra anterior chegam a R$ 1.700 por tonelada, sustentados pela procura da indústria por matéria-prima adequada à moagem.
Segundo a TF Agroeconômica, a valorização de determinados lotes no mercado físico exige atenção dos vendedores. A consultoria recomenda aproveitar as oportunidades com vendas escalonadas, avaliar os custos de cada operação e proteger as margens, sem concentrar as decisões na expectativa de uma recuperação rápida dos preços externos.
Trigo da safra anterior ganha espaço no Rio Grande do Sul
A demanda por trigo da safra anterior permanece elevada no mercado gaúcho. Conforme a consultoria, foram registrados negócios de até R$ 1.650 por tonelada na modalidade FOB, com operações pontuais alcançando R$ 1.700.
O interesse pelo cereal armazenado está associado às dificuldades de qualidade do trigo novo. Entre os problemas relatados estão o baixo número de queda, conhecido pela sigla FN, e níveis elevados de DON, micotoxina que compromete a adequação dos lotes às exigências da indústria.
Apesar da procura por produto de melhor qualidade, o comportamento dos preços não é uniforme. Em Panambi, a cotação ao produtor caiu R$ 2, para R$ 73 por saca.
Esse descompasso reforça a importância de avaliar as características do cereal antes da comercialização. Classificação, peso hectolítrico, proteína, frete e despesas de armazenagem devem entrar na comparação entre propostas.
Paraná registra diferença de R$ 450 entre trigo tipo 1 e tipo 3
No Paraná, a disponibilidade de trigo com qualidade inferior pressiona as negociações. O cereal destinado à alimentação animal apresentou queda de R$ 100 por tonelada, enquanto os negócios permanecem concentrados nos tipos 2 e 3.
De acordo com a TF Agroeconômica, as referências são de R$ 1.650 por tonelada para o trigo tipo 1, R$ 1.450 para o tipo 2 e R$ 1.200 para o tipo 3. A diferença entre os extremos chega a R$ 450 por tonelada, evidenciando o peso da classificação na remuneração.
Embora haja relatos de germinação no campo, a ocorrência de DON é considerada rara no estado, segundo a análise.
Santa Catarina projeta redução da produção
Em Santa Catarina, a qualidade dos grãos também preocupa os moinhos, que enfrentam dificuldades para obter trigo importado.
Conforme os dados da Epagri citados no levantamento, a área cultivada na safra 2026/27 deve diminuir aproximadamente 35%, enquanto a produtividade pode recuar 2,5%. A produção está estimada em 243 mil toneladas, volume cerca de 37% inferior ao da temporada anterior.
A combinação de menor produção e restrições de qualidade amplia a atenção da indústria à disponibilidade de lotes que atendam às especificações de moagem.
Queda internacional limita expectativa de recuperação
No exterior, o trigo acumula oito semanas consecutivas de desvalorização nos Estados Unidos, na maior sequência negativa desde 1997, conforme a TF Agroeconômica.
A perspectiva de oferta expressiva na Argentina e as vendas externas norte-americanas abaixo do esperado contribuem para a pressão sobre as cotações. No mercado físico brasileiro, os preços apresentam acomodação após a valorização recente, embora lotes de melhor qualidade mantenham remuneração diferenciada.
O cenário, entretanto, continua sujeito a oscilações. Conflitos no Mar Negro e eventuais problemas de qualidade na safra argentina podem provocar altas pontuais.
Consultoria orienta vendas escalonadas e gestão dos estoques
Para os produtores, a recomendação é distribuir as vendas ao longo do tempo, considerando a necessidade de caixa e o custo de manter o cereal armazenado. A definição de preços-alvo e a avaliação de instrumentos de proteção também fazem parte da estratégia sugerida.
Às cooperativas, a orientação é separar os estoques por qualidade e direcionar cada lote ao comprador que melhor remunere suas características. Já os cerealistas devem priorizar aquisições com revenda definida e buscar alternativas comerciais para o trigo que não atende ao padrão dos moinhos.
Para a indústria, a consultoria indica compras graduais, análise rigorosa da qualidade e comparação com a paridade de importação, evitando estoques excessivos. Nas exportações, a avaliação deve incluir preços internos, custos portuários, frete, câmbio e riscos logísticos.
Importações ampliam alternativas para os moinhos
O trigo importado aparece como opção para complementar o abastecimento de matéria-prima com qualidade adequada à indústria.
No levantamento apresentado, o produto argentino foi cotado a US$ 320 por tonelada em Porto Alegre e a US$ 325 em Paranaguá. O trigo paraguaio, por sua vez, chegou a US$ 295 por tonelada no Oeste do Paraná.
Essas referências devem ser comparadas com os custos e as condições de entrega de cada operação. Diante das diferenças entre os lotes nacionais e da pressão internacional, qualidade, logística e margem permanecem no centro das decisões de comercialização.
Fonte: Portal do Agronegócio
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