Publicidade
Aveia, Trigo e Cevada

Safra de trigo em São Paulo pode ter quebra superior a 80% após chuvas e preocupa produtores

Produção estadual, inicialmente estimada em 350 mil toneladas, pode ficar abaixo de 70 mil toneladas; apenas 10% a 15% do volume colhido deve alcançar a classificação Tipo 1, segundo representantes do setor.


Publicado em: 03/11/2026 às 10:30hs

Safra de trigo em São Paulo pode ter quebra superior a 80% após chuvas e preocupa produtores

A triticultura paulista enfrenta uma das safras mais difíceis dos últimos anos. As chuvas intensas registradas em setembro comprometeram a produção e a qualidade do trigo em São Paulo, levando a estimativa de colheita para menos de 20% das 350 mil toneladas inicialmente previstas. Com isso, o volume estadual poderá ficar abaixo de 70 mil toneladas.

O cenário foi discutido na terceira e última reunião de 2026 da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, realizada na quinta-feira (29), na Cooperativa Castrolanda, no Entreposto Itaberá (SP), em formato híbrido.

Além da quebra de produção, a preocupação envolve a qualidade industrial do cereal. A estimativa apresentada pelo setor é de que apenas 10% a 15% do trigo colhido seja classificado como Tipo 1, resultado das condições climáticas desfavoráveis durante a colheita.

Diante das perdas, representantes da cadeia produtiva reforçaram a necessidade de aproximar agricultores e indústria moageira para preservar o mercado do trigo paulista e criar condições para a recuperação da atividade nas próximas temporadas.

Chuvas de setembro agravam perdas na produção de trigo paulista

Segundo Ruy Zanardi, presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, o cenário se deteriorou em relação às previsões apresentadas no encontro anterior. Na ocasião, já havia expectativa de redução da produtividade, mas a qualidade do cereal ainda era considerada uma perspectiva positiva.

A intensificação das chuvas a partir do início de setembro alterou esse quadro. Em alguns municípios paulistas, os volumes de precipitação chegaram a 629 milímetros durante o mês, equivalente a 629 litros de água por metro quadrado.

Além de comprometer as áreas já colhidas, a continuidade das precipitações mantém o risco de novas perdas nas lavouras que ainda não concluíram a colheita.

Zanardi destacou que a produção esperada, de aproximadamente 350 mil toneladas, dificilmente será alcançada. Segundo os relatos apresentados na reunião, o resultado final poderá representar menos de um quinto do volume inicialmente projetado.

Indústria moageira mantém interesse no trigo produzido em São Paulo

Mesmo diante da quebra de safra e das dificuldades relacionadas à qualidade do cereal, o Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo) reforçou a importância de manter a integração entre produtores e moinhos.

A indústria moageira continua aberta à aquisição do trigo paulista, conforme ressaltado durante o encontro. A aproximação entre os elos da cadeia é considerada fundamental para preservar a comercialização e evitar que os prejuízos desta temporada comprometam a continuidade da produção estadual.

Também foi mencionada na reunião a expectativa de edição de uma medida provisória voltada ao apoio dos produtores atingidos pelas perdas. A efetivação e os detalhes dessa iniciativa serão importantes para avaliar o alcance do suporte ao setor.

Setor prevê desafios econômicos até 2028

O impacto da safra ruim não deve se limitar ao ciclo atual. Para Max Piermartiri, presidente do Sindustrigo, o setor ainda terá de enfrentar dificuldades econômicas durante a temporada 2026/2027, com possibilidade de um ambiente desfavorável também em 2027 e 2028.

O dirigente defendeu o fortalecimento da relação entre a produção agrícola e a indústria de moagem como caminho para preservar a cadeia produtiva.

José Reinaldo, vice-presidente da Câmara Setorial e anfitrião da reunião, também reconheceu a dimensão das perdas, mas destacou a necessidade de manter os esforços para recuperar a triticultura paulista.

A avaliação dos representantes é de que a organização do setor, a cooperação comercial e o planejamento das próximas temporadas serão determinantes para superar as dificuldades.

Compras de trigo paulista pela indústria cresceram 45,3%

Apesar dos problemas enfrentados na safra atual, os dados apresentados durante a reunião apontam evolução na participação do cereal paulista nas compras realizadas por associados do Sindustrigo.

De acordo com levantamento referente à safra 2025/2026, o volume adquirido pelos associados aumentou 45,3%, passando de 403.566 toneladas para 586.330 toneladas.

A pesquisa também identificou melhora na percepção de qualidade do trigo produzido no Estado. A nota média de satisfação dos associados subiu de 7,9, em 2025, para 8,9, em 2026.

Entre os atributos avaliados, os avanços foram:

  • Cor: de 6,6 para 7,9;
  • Homogeneidade: de 6,5 para 7,3;
  • Sanidade: de 8,0 para 8,6.

Segundo Ruy Zanardi, os resultados indicam evolução consistente na avaliação do cereal paulista, embora ainda existam pontos que precisam ser aprimorados.

Na comparação com o trigo argentino, o produto paulista apresentou melhor percepção de qualidade nos atributos avaliados, com exceção da homogeneidade. O resultado foi atribuído tanto à evolução da avaliação do cereal local quanto à piora na percepção sobre o produto argentino.

Trigo paulista atende principalmente à produção de pães

O levantamento também identificou os principais destinos industriais e comerciais do trigo paulista na última safra.

A fabricação de pães concentrou a maior participação, com 48,9% do volume utilizado. O uso doméstico respondeu por 33,8%, enquanto a produção de massas representou 11,5%.

Também foram mencionadas aplicações em pães industriais (7,6%), biscoitos (5,5%) e pães congelados (2,9%).

Os percentuais apresentados demonstram a diversidade de aplicações do cereal na cadeia de alimentos e reforçam a importância da qualidade industrial para atender às exigências dos diferentes segmentos consumidores.

Produção mundial de trigo deve alcançar 882 milhões de toneladas

A conjuntura internacional do mercado de trigo foi apresentada por Fabio Cruz, da StoneX. Segundo os dados expostos na reunião, a produção mundial está estimada em 882 milhões de toneladas, enquanto o consumo deve atingir 824 milhões de toneladas.

Entre os fatores de atenção estão as perspectivas de produção e exportação da Rússia e da Ucrânia, além do ritmo dos embarques norte-americanos.

A expectativa de recuperação das exportações russas e ucranianas influencia a formação das cotações internacionais. Por outro lado, o ritmo mais lento das vendas externas dos Estados Unidos exerce pressão sobre os preços.

Na Argentina, a projeção apresentada indica que as exportações poderão ficar abaixo de 19 milhões de toneladas. Apesar das chuvas, as condições da safra eram consideradas favoráveis no momento da análise, e o resultado argentino deverá ter influência sobre o equilíbrio da oferta mundial.

O cenário do Mar Negro também permanece relevante para o mercado, especialmente pela influência dos países da região no comércio internacional do cereal.

Brasil deve ampliar importações e exportações de trigo

Para o mercado brasileiro, a avaliação apresentada pela StoneX aponta possibilidade de crescimento tanto das importações quanto das exportações de trigo.

As oscilações cambiais elevaram os patamares de referência para as duas operações, reforçando a importância de acompanhar as cotações internacionais e as condições de abastecimento.

A quebra da safra paulista acrescenta um desafio regional a esse contexto. Com menor disponibilidade de trigo produzido no Estado, a integração entre moinhos, fornecedores e produtores ganha importância para garantir o abastecimento e preservar a competitividade da cadeia.

Câmaras setoriais devem ampliar planejamento e participação do setor

A reunião também discutiu mudanças no funcionamento das câmaras setoriais e temáticas da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo.

Felipe Camargo, coordenador das Câmaras Setoriais e Temáticas, apresentou um diagnóstico do modelo atual e propostas para institucionalizar a agenda de trabalho.

A iniciativa busca estruturar pautas anuais em conjunto com os representantes das cadeias produtivas, estabelecer metas, acompanhar resultados e ampliar a transparência das ações desenvolvidas.

A proposta pretende aproximar as demandas dos setores produtivos das prioridades da Secretaria de Agricultura, criando mecanismos de planejamento e acompanhamento das medidas definidas.

Para os representantes do trigo paulista, a reorganização pode contribuir para fortalecer a articulação entre produtores, indústria e poder público, especialmente em um momento de perdas expressivas e necessidade de recuperação da atividade.

Recuperação da triticultura paulista depende de articulação e planejamento

A safra marcada pelas chuvas de setembro expõe a vulnerabilidade da produção de trigo diante de eventos climáticos extremos. Com uma colheita potencialmente inferior a 20% da expectativa inicial e problemas na qualidade industrial, o setor terá de enfrentar desafios comerciais, econômicos e produtivos.

A manutenção do interesse da indústria pelo cereal paulista, o possível apoio aos produtores e o fortalecimento das câmaras setoriais aparecem como fatores importantes para a continuidade da atividade.

Mesmo diante das perdas, os representantes da cadeia defendem a construção de estratégias conjuntas para recuperar a produção e ampliar a competitividade do trigo paulista nas próximas temporadas.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias