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Aveia, Trigo e Cevada

Preço do trigo sobe no Brasil e em Chicago com oferta restrita e tensão no Mar Negro

Queda das importações, estoques reduzidos no Sul e riscos à qualidade da nova safra sustentam as cotações, enquanto ataques a portos russos e ucranianos aumentam a preocupação com o abastecimento mundial


Publicado em: 09/09/2026 às 11:40hs

Preço do trigo sobe no Brasil e em Chicago com oferta restrita e tensão no Mar Negro
Foto: Gilson Abreu

O mercado do trigo atravessa um período de forte sustentação dos preços no Brasil e no exterior. A combinação entre redução das importações brasileiras em agosto, baixa disponibilidade da safra velha, riscos à qualidade dos primeiros lotes nacionais e interrupções nas exportações pelo Mar Negro limita a oferta e amplia a cautela entre moinhos, produtores e compradores internacionais.

Mesmo com o avanço da colheita de trigo no Brasil, a disponibilidade de cereal de melhor qualidade permanece restrita. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as expectativas de menor produção nacional e mundial, a valorização das cotações externas e o reduzido volume disponível no mercado spot continuam sustentando os preços do trigo em grão e de seus derivados.

No Rio Grande do Sul, onde os estoques da temporada anterior estão próximos do fim, as negociações alcançam até R$ 1.500 por tonelada, dependendo da qualidade e da localização. Em Chicago, os contratos futuros avançaram mais de 1,7%, impulsionados pela falta de progresso nas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia.

Importações de trigo recuam com avanço da colheita brasileira

As compras externas de trigo pelo Brasil diminuíram em agosto, acompanhando a entrada gradual da produção nacional no mercado. A redução, entretanto, ainda não representa um alívio completo para as indústrias, uma vez que a oferta doméstica de lotes com melhor padrão industrial continua limitada.

O Cepea observa que a menor disponibilidade no mercado spot já sustentava os preços nacionais antes mesmo da chegada mais expressiva da nova safra. A expectativa é de que as negociações ganhem ritmo à medida que a colheita avance e maiores volumes sejam disponibilizados pelos produtores.

A menor área cultivada no País também aumenta a preocupação com o abastecimento ao longo do próximo ciclo. Estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indica que o Brasil poderá importar 7,5 milhões de toneladas entre outubro de 2026 e setembro de 2027, mantendo-se entre os maiores compradores mundiais do cereal.

Esse cenário reforça a importância do trigo argentino para o abastecimento nacional, especialmente para os moinhos instalados nas regiões Sul e Sudeste.

Oferta curta mantém preço do trigo em alta no Rio Grande do Sul

O mercado gaúcho apresenta um viés firme de alta, com poucos vendedores ativos e necessidade de recomposição dos estoques pela indústria. A estimativa é de que restem apenas entre 60 mil e 70 mil toneladas da safra velha disponíveis fora dos estoques dos moinhos.

Os negócios são indicados ao redor de R$ 1.450 por tonelada FOB, enquanto lotes com melhor qualidade ou posicionados em regiões estratégicas alcançam até R$ 1.500 por tonelada. Esse último valor já aparece com maior frequência nas compras realizadas pelas indústrias.

O indicador médio do trigo no Rio Grande do Sul calculado pelo Cepea estava em R$ 1.456,52 por tonelada no início de setembro, confirmando a firmeza das cotações no mercado disponível.

Em Panambi, o preço de balcão subiu para R$ 70,02 por saca. A valorização reflete tanto a escassez de produto quanto a necessidade dos moinhos de formar estoques de segurança antes da entrada mais consistente da nova safra.

Giberela ameaça produtividade e qualidade da nova safra

Além dos estoques reduzidos, o mercado acompanha a qualidade das lavouras gaúchas. As primeiras áreas que chegaram ao florescimento enfrentaram condições favoráveis à ocorrência de giberela, doença associada ao excesso de umidade.

A presença do fungo pode provocar perdas de produtividade, reduzir a qualidade industrial do trigo e aumentar o risco de contaminação por desoxinivalenol, micotoxina conhecida como DON.

Esse fator pode ampliar a diferença de preço entre lotes comuns e aqueles com maior peso hectolítrico, melhores índices de força de glúten e níveis de micotoxinas dentro dos limites exigidos pela indústria.

Caso os problemas de qualidade sejam confirmados em uma parcela relevante da produção, os moinhos poderão intensificar a procura por trigo de outros estados ou pelo cereal importado.

Preços seguem firmes em Santa Catarina e no Paraná

Em Santa Catarina, a baixa disponibilidade levou vendedores a elevar as ofertas para uma faixa entre R$ 1.500 e R$ 1.550 por tonelada FOB. Os valores dificultam o fechamento de negócios com os moinhos, que resistem às pedidas mais elevadas.

No Paraná, o mercado também permanece firme e com poucos vendedores. As referências chegam a R$ 1.500 por tonelada FOB no Norte do estado e a R$ 1.450 nos Campos Gerais.

Para o trigo da nova safra, compradores indicam aproximadamente R$ 1.500 por tonelada para entrega em setembro, R$ 1.450 em outubro e R$ 1.400 em novembro, com pagamento previsto para o mês seguinte à entrega.

A redução progressiva das ofertas acompanha a expectativa de aumento da disponibilidade com o avanço da colheita. Esse movimento poderá pressionar as cotações durante o pico de entrada da safra, desde que a qualidade do cereal seja confirmada.

Exportação perde atratividade diante do mercado interno

As ofertas de exportação próximas de R$ 1.270 por tonelada para entrega em dezembro, com produto colocado no porto, continuam pouco atrativas aos produtores brasileiros.

Mesmo no melhor momento das cotações internacionais, a paridade calculada com base em Chicago chegou a indicar aproximadamente R$ 1.405,38 por tonelada no porto, abaixo dos R$ 1.519,50 observados em 2 de setembro.

Com o mercado interno pagando valores mais elevados, a tendência é de que parte dos produtores priorize as vendas domésticas. O trigo argentino, por sua vez, aparece ofertado próximo de R$ 1.586 por tonelada entregue em Canoas, mantendo a produção nacional competitiva para os moinhos gaúchos.

Trigo sobe em Chicago com tensão entre Rússia e Ucrânia

Na Bolsa de Mercadorias de Chicago, os contratos futuros do trigo encerraram a sessão de terça-feira (8) em alta. O vencimento de dezembro avançou 13 centavos, ou 1,77%, para US$ 7,47 por bushel. Março subiu 12,25 centavos, ou 1,63%, terminando a US$ 7,615 por bushel.

As cotações foram impulsionadas pela ausência de avanços concretos nas negociações para encerrar a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os recentes ataques contra portos, navios e instalações logísticas dos dois países reduziram drasticamente o fluxo de grãos pelo Mar Negro.

O Cepea já havia identificado forte valorização dos contratos futuros no fim de agosto, diante da paralisação do escoamento de grãos na região. O movimento internacional também contribuiu para elevar os preços no mercado brasileiro.

Com a redução dos embarques russos e ucranianos, compradores asiáticos passaram a buscar outras origens. Pelo menos 500 mil toneladas de trigo da Austrália e da Argentina foram adquiridas em negociações recentes, aumentando a disputa pelos volumes disponíveis nesses países.

Exportações dos Estados Unidos perdem ritmo

As inspeções norte-americanas para exportação somaram 342.733 toneladas na semana encerrada em 3 de setembro. O volume ficou abaixo das 431.977 toneladas da semana anterior e das 429.116 toneladas registradas no mesmo intervalo do ano passado.

Desde o início do ano-safra dos Estados Unidos, em 1º de junho, as inspeções totalizam 5,13 milhões de toneladas, ante 7,10 milhões de toneladas em igual período do ciclo anterior.

O mercado agora direciona as atenções ao próximo relatório de oferta e demanda do USDA, previsto para sexta-feira (11). O documento deverá atualizar as projeções de produção, produtividade, exportações e estoques dos Estados Unidos, considerando os efeitos do clima quente e seco observado em parte das áreas produtoras.

Ucrânia conclui colheita de quase 25 milhões de toneladas

Na Ucrânia, a colheita de trigo está praticamente finalizada. O país produziu 24,91 milhões de toneladas em 5,04 milhões de hectares, equivalentes a 98% da área prevista, com produtividade média de 4,94 toneladas por hectare.

Apesar do bom volume colhido, as dificuldades logísticas limitam a capacidade de exportação. A disponibilidade física, portanto, não se converte automaticamente em oferta no mercado internacional enquanto persistirem os riscos para portos e embarcações no Mar Negro.

Perspectiva para o preço do trigo

No curto prazo, o preço do trigo deve continuar sustentado pela oferta reduzida no Sul do Brasil, pela necessidade de compra dos moinhos e pelas incertezas geopolíticas no mercado internacional.

A entrada da nova safra brasileira poderá aumentar a disponibilidade e limitar novas altas, mas o efeito dependerá da produtividade e, principalmente, da qualidade dos grãos. Problemas com giberela, DON ou baixo padrão industrial podem manter elevados os preços pagos pelos melhores lotes.

No mercado externo, eventuais interrupções prolongadas nos embarques russos e ucranianos tendem a favorecer Chicago e aumentar a procura pelo trigo argentino, australiano, europeu e norte-americano. Para o Brasil, esse cenário representa maior risco de encarecimento das importações e manutenção dos preços domésticos em níveis firmes.

Fonte: Portal do Agronegócio

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