Preço do trigo sobe com conflito no Mar Negro, dólar e oferta restrita no Sul do Brasil
Interrupções nos embarques de Rússia e Ucrânia levaram Chicago a acumular alta de 17,71% em agosto; no mercado brasileiro, baixa disponibilidade e riscos climáticos sustentam as cotações
Publicado em: 01/09/2026 às 11:40hs
O mercado de trigo iniciou setembro sob forte influência das tensões geopolíticas, da restrição de oferta no Sul do Brasil e das incertezas sobre a próxima safra. A paralisação de portos estratégicos no Mar Negro e no Mar de Azov reduziu a disponibilidade global do cereal, impulsionou os contratos futuros e aumentou a atenção dos compradores brasileiros.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as cotações do trigo avançaram por cinco pregões consecutivos na Bolsa de Chicago (CBOT) e por quatro sessões seguidas na Bolsa de Kansas no fim de agosto. No mercado interno, a valorização internacional foi reforçada pelo avanço do dólar e pela menor disponibilidade do produto.
Apesar desse cenário, Chicago encerrou a primeira sessão de setembro em queda, pressionada pela realização de lucros após os contratos atingirem o maior nível em três anos. O recuo foi interpretado como um ajuste técnico depois da forte valorização acumulada no mês anterior.
Trigo acumula alta de 17,71% em Chicago durante agosto
O contrato do trigo com vencimento em dezembro de 2026 acumulou valorização de 17,71% em agosto. O movimento refletiu principalmente os temores de interrupção prolongada dos embarques realizados pela Rússia e pela Ucrânia, dois dos principais fornecedores mundiais do cereal.
Os portos utilizados para o escoamento de grãos pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov permanecem praticamente paralisados. Com a logística comprometida, a presença do trigo russo no mercado internacional diminuiu, levando importadores a buscar alternativas em países da União Europeia.
Romênia, França e Polônia aparecem entre os fornecedores procurados para substituir parte dos volumes russos e ucranianos. Exportadores da Rússia também tentam redirecionar cargas para terminais localizados no Mar Báltico, mas essa mudança envolve custos adicionais e limitações operacionais.
As preocupações foram ampliadas por relatos de que o presidente russo, Vladimir Putin, teria rejeitado uma proposta para a criação de corredores seguros destinados ao transporte de trigo. A possibilidade de novos ataques na região mantém elevados os riscos para os embarques e para o abastecimento mundial.
Realização de lucros provoca queda após máxima de três anos
Depois da forte alta registrada em agosto, os contratos futuros recuaram em Chicago na segunda-feira. O movimento foi provocado pela realização de lucros, pelo ajuste de posições antes do fechamento mensal e pela proximidade do vencimento dos contratos de setembro.
O trigo para dezembro de 2026 encerrou cotado a US$ 7,74 por bushel, com queda de 10 centavos de dólar, equivalente a 1,27%. O contrato para março de 2027 fechou a US$ 7,8825 por bushel, recuo de 9,5 centavos, ou 1,19%.
Mesmo com a correção pontual, o cenário internacional continua sustentado pelas dificuldades logísticas na região do Mar Negro. A evolução do conflito e a capacidade dos exportadores de encontrar novas rotas deverão permanecer entre os principais fatores de volatilidade para os preços do trigo.
Preço do trigo avança no mercado brasileiro
No Brasil, as cotações também subiram nos últimos dias. De acordo com o Cepea, o mercado doméstico acompanhou a valorização externa, ao mesmo tempo que o dólar mais elevado aumentou a paridade de importação e reforçou a sustentação dos preços nacionais.
A oferta restrita no Sul do país acrescenta pressão ao mercado. Compradores buscam volumes para reposição e formação de estoques de segurança, enquanto produtores e demais vendedores resistem às propostas apresentadas pelos moinhos.
A proximidade da entrada da safra 2026/27 limita negócios mais expressivos. Além disso, os riscos climáticos associados ao El Niño levam parte dos produtores a adiar as vendas até que haja maior clareza sobre a produtividade e a qualidade do cereal.
Trigo no Rio Grande do Sul tem diferença entre compradores e vendedores
No Rio Grande do Sul, os compradores oferecem entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada FOB, dependendo da qualidade. Os vendedores, por outro lado, pedem de R$ 1.400 a R$ 1.500 por tonelada, segundo levantamento da TF Agroeconômica.
Os moinhos possuem estoques para atravessar setembro e parte de outubro, aproximando-se da entrada da nova safra. Ainda assim, algumas indústrias procuram volumes adicionais para garantir uma margem de segurança no abastecimento.
As exportações permanecem praticamente paralisadas. As indicações para dezembro giram em torno de R$ 1.270 por tonelada no porto, valor considerado pouco atrativo pelos vendedores.
O trigo argentino, por sua vez, é ofertado a US$ 305 por tonelada entregue em Canoas, o equivalente a aproximadamente R$ 1.586 por tonelada. O preço elevado do produto importado ajuda a limitar a pressão sobre as cotações domésticas.
Negociações da nova safra gaúcha continuam limitadas
A comercialização antecipada da nova safra do Rio Grande do Sul avança lentamente. Cerca de 60 mil toneladas foram negociadas entre moinhos e exportadores, enquanto a maior parte dos produtores permanece afastada do mercado em razão dos riscos climáticos.
No mercado de balcão, Panambi registrou elevação do preço para R$ 70 por saca. A tendência é de cautela até que o desenvolvimento das lavouras ofereça maior segurança sobre o volume e a qualidade que serão colhidos.
Mercado de trigo segue lento em Santa Catarina
Em Santa Catarina, as negociações permanecem em ritmo reduzido, com os moinhos relativamente abastecidos. O trigo pão é indicado entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada.
Houve registro de negociação de trigo branqueador a R$ 1.500 por tonelada FOB. No interior catarinense, algumas praças apresentaram aumentos de R$ 2 a R$ 3 por saca, com os preços alcançando R$ 77 em Xanxerê.
A combinação entre oferta limitada, estoques industriais e proximidade da nova colheita mantém o mercado regional com poucos negócios e diferenças relevantes entre as propostas de compra e venda.
Demanda por trigo e farinha reage no Paraná
No Paraná, a procura por trigo e farinha ganhou força no fim de agosto. A safra velha é negociada próxima de R$ 1.500 por tonelada CIF moinho, mas a disponibilidade permanece reduzida.
Para a nova safra, colheitas pontuais começaram no Norte do estado, com indicações a partir de R$ 1.450 por tonelada FOB. Parte dos vendedores, entretanto, prefere aguardar a definição dos efeitos do El Niño sobre as lavouras antes de ampliar a comercialização.
Conflito e clima devem manter volatilidade do trigo
O mercado de trigo deverá continuar atento a três fatores principais: a situação dos embarques no Mar Negro, o comportamento do dólar e as condições climáticas no Sul do Brasil.
Uma eventual retomada dos corredores de exportação poderia aliviar as cotações internacionais. Em sentido contrário, novas interrupções logísticas ou ataques a portos podem restringir ainda mais a oferta global e provocar novos avanços em Chicago.
No mercado brasileiro, a entrada da safra tende a ampliar gradualmente a disponibilidade. Contudo, os riscos climáticos, a baixa oferta remanescente e o custo elevado do trigo importado podem limitar quedas mais expressivas nos preços durante as próximas semanas.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias