Publicado em: 09/03/2026 às 11:30hs
O mercado brasileiro de trigo registrou maior movimentação na primeira semana de março, impulsionado por uma reação nos preços e pelo retorno de moinhos às compras. A mudança de postura dos compradores ocorre em meio à valorização internacional do cereal e à preocupação com possíveis impactos geopolíticos no abastecimento global.
De acordo com análises da TF Agroeconômica, a experiência recente com a volatilidade provocada pela guerra no Leste Europeu fez com que indústrias moageiras adotassem uma estratégia mais cautelosa, buscando recompor estoques para evitar exposição a novas altas.
Esse movimento elevou a demanda por trigo no Sul do país e contribuiu para um ambiente de recuperação gradual das cotações.
No Rio Grande do Sul, a intensificação das compras por parte dos moinhos resultou em aumento no volume de negociações e em preços mais firmes. Em algumas operações, o trigo pão foi negociado a cerca de R$ 1.250 por tonelada posto moinho, refletindo o interesse dos compradores em garantir abastecimento.
Também houve procura de cereal por parte de indústrias localizadas em outros estados, principalmente no Paraná e em Santa Catarina.
No interior gaúcho, o preço pago ao produtor apresentou leve avanço, chegando a aproximadamente R$ 55 por saca em Panambi. Já no mercado externo, o trigo com 12,5% de proteína foi cotado ao redor de US$ 232 por tonelada FOB no porto de Rio Grande.
Enquanto produtores com necessidade de liberar espaço nos armazéns aproveitaram o momento para negociar, aqueles com maior capacidade de estocagem demonstram preferência por manter o produto armazenado, apostando em novas valorizações.
Em Santa Catarina, o cenário foi de maior estabilidade ao longo da semana, com negócios pontuais e volumes relativamente reduzidos.
Alguns lotes de trigo melhorador foram comercializados a cerca de R$ 1.250 FOB, enquanto aproximadamente 150 toneladas de trigo tipo 2 foram negociadas na faixa de R$ 1.050.
Os moinhos catarinenses seguem priorizando compras de trigo proveniente do Rio Grande do Sul, considerado competitivo em qualidade e logística.
Nos principais municípios produtores, os preços de balcão permaneceram entre R$ 59 e R$ 64 por saca. Para a próxima temporada, produtores avaliam a possibilidade de reduzir a área destinada ao cereal, migrando parte das lavouras para o milho. No entanto, eventual valorização do trigo poderá alterar esse planejamento.
No Paraná, o mercado também demonstrou sinais de recuperação nas cotações, embora o ritmo de negócios ainda seja considerado moderado.
Na região Norte do estado, foram registradas negociações próximas de R$ 1.250 por tonelada FOB, com algumas ofertas chegando a R$ 1.300. Já na região de Curitiba, operações ocorreram entre R$ 1.280 e R$ 1.290 CIF.
No Oeste paranaense, o volume de negócios foi menor devido à maior competitividade do trigo importado do Paraguai. Mesmo assim, o trigo gaúcho chegou a ser negociado na região entre R$ 1.170 e R$ 1.180 CIF.
Apesar do viés de alta observado nas cotações, o mercado brasileiro ainda apresenta liquidez limitada em diversas regiões.
Segundo análise da consultoria Saras & Mercado, o cenário atual reflete uma disputa entre compradores e vendedores. Enquanto os moinhos reconhecem a tendência de valorização, demonstram resistência em antecipar reajustes mais significativos. Por outro lado, produtores e detentores de estoques mantêm uma postura firme nas pedidas.
Outro fator que contribuiu para a oferta mais restrita foi o foco dos agricultores na colheita e comercialização da soja, o que reduziu temporariamente a disponibilidade de trigo de melhor qualidade no mercado interno.
No cenário global, o mercado de trigo também apresentou expressiva valorização ao longo da semana. Os contratos negociados nas principais bolsas internacionais registraram ganhos relevantes, alcançando os níveis mais altos em quase um ano.
Na Chicago Board of Trade, o contrato de março do trigo brando SRW subiu 4,89%, encerrando a US$ 6,11 por bushel. Já o contrato para maio avançou 5,65%, chegando a US$ 6,16 por bushel.
Na bolsa de Kansas City, referência para o trigo duro HRW, o contrato de março registrou valorização de 4,49%, enquanto em Minneapolis, onde é negociado o trigo de primavera HRS, os preços subiram 3,87%, encerrando a sessão a US$ 6,31 por bushel.
Na Europa, o trigo para moagem negociado na Euronext, em Paris, também apresentou alta, fechando o pregão a 199,50 euros por tonelada.
A valorização do cereal foi impulsionada por fatores climáticos e geopolíticos. O aumento das tensões no Oriente Médio elevou as preocupações com possíveis impactos no comércio internacional de grãos, especialmente nas rotas do Mar Negro, uma das principais regiões exportadoras de trigo do mundo.
Além disso, o monitoramento climático nos Estados Unidos aponta expansão das áreas de trigo de inverno afetadas por algum grau de estiagem. A Índia também enfrenta condições de clima seco, o que reforça as incertezas sobre a produção global.
No cenário doméstico, o ambiente macroeconômico também influencia a formação de preços do trigo. A política monetária conduzida pelo Banco Central do Brasil continua sendo acompanhada de perto pelos agentes do mercado.
A taxa básica de juros, a Selic, permanece em patamar elevado dentro da estratégia de controle da inflação. Esse cenário impacta diretamente o custo do crédito para produtores, indústrias e tradings, além de influenciar o comportamento do câmbio.
A variação do dólar frente ao real é um fator relevante para o setor, pois altera a competitividade do trigo importado e pode interferir na dinâmica de preços do cereal no mercado interno.
Analistas avaliam que o mercado do trigo deve seguir atento a diversos fatores nas próximas semanas, entre eles:
Mesmo com liquidez ainda moderada em algumas regiões, a combinação de oferta interna ajustada e valorização internacional mantém um viés de sustentação para os preços do trigo no Brasil.
Fonte: Portal do Agronegócio
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