Importação de trigo pelo Brasil pode atingir maior nível desde 2006/07 na safra 2026/27
Conab estima compras externas de 7,1 milhões de toneladas, enquanto produção nacional recua para 5,8 milhões de toneladas; Argentina deve continuar como principal fornecedora, mas Rússia ganha espaço no mercado brasileiro.
Publicado em: 14/08/2026 às 10:35hs
Importação de trigo pelo Brasil deve crescer na safra 2026/27
A importação brasileira de trigo deverá aumentar significativamente na safra 2026/27, iniciada neste mês, diante da forte redução esperada na produção nacional. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil poderá importar 7,103 milhões de toneladas de trigo ao longo do ciclo.
Se confirmado, o volume será mais de 20% superior ao registrado na temporada anterior e representará o maior nível de importações em quase duas décadas. A projeção também supera em aproximadamente 4% a estimativa divulgada pela Conab em julho.
O volume previsto coloca a safra 2026/27 próxima do recorde histórico de importação brasileira de trigo. Em 2006/07, o país comprou 7,164 milhões de toneladas, maior volume registrado até então.
Produção brasileira de trigo perde força
O aumento da dependência do mercado externo ocorre em um cenário de retração da produção nacional. A Conab reduziu novamente sua estimativa para a safra brasileira de trigo de 2026, projetando agora uma colheita de 5,8 milhões de toneladas.
O número representa uma queda expressiva, associada principalmente à redução de 20,4% na área plantada.
Segundo a estatal, a menor intenção de investimento dos produtores e a perspectiva de condições climáticas menos favoráveis estão entre os principais fatores que explicam a redução da área e da produção.
Paraná e Rio Grande do Sul, principais estados produtores de trigo do Brasil, também consideraram os riscos climáticos no planejamento da safra. A possibilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade esteve entre as preocupações dos produtores, já que o fenômeno pode provocar aumento das chuvas na região Sul e afetar tanto a produtividade quanto a qualidade do cereal.
Argentina continua como principal fornecedora
A Argentina deverá permanecer como principal origem do trigo importado pelo Brasil, especialmente com a chegada da nova safra argentina ao mercado brasileiro a partir de dezembro.
O país vizinho é um dos principais exportadores mundiais do cereal e possui posição estratégica no abastecimento dos moinhos brasileiros devido à proximidade geográfica e às condições comerciais dentro do Mercosul.
Entretanto, a qualidade do trigo argentino da temporada anterior levou alguns moinhos brasileiros a reduzir as compras no primeiro semestre de 2026.
Segundo Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, a expectativa é de recuperação da qualidade do cereal argentino na nova safra.
Boa parte do ano-safra 2026/27 ocorrerá em 2027, período em que o mercado espera uma produção argentina mais favorável e o retorno do trigo a padrões de qualidade mais adequados para a panificação.
Rússia ganha espaço entre fornecedores de trigo
Com a necessidade de abastecimento durante o segundo semestre, a Rússia aparece como uma alternativa importante para o mercado brasileiro.
Maior exportadora mundial de trigo, a Rússia já embarcou aproximadamente 170 mil toneladas para o Brasil no primeiro semestre de 2026, volume que não havia sido registrado no mesmo período de 2025.
A participação russa pode crescer especialmente durante o período de transição até a chegada da nova safra argentina.
De acordo com Bento, os moinhos brasileiros enfrentam uma janela de preocupação no segundo semestre, uma vez que o trigo argentino da nova safra só deverá chegar ao Brasil no final do ano.
Nesse intervalo, os compradores poderão recorrer a misturas de trigo argentino de menor teor de proteína com cereais de maior qualidade ou buscar fornecedores alternativos.
Preços favorecem trigo argentino e russo
Apesar de apresentar preço superior ao trigo argentino, o cereal russo permanece competitivo diante de outras origens.
As cotações indicadas pelo analista apontam para valores médios, na base CIF Brasil, de aproximadamente:
- Argentina: R$ 1.463 por tonelada;
- Rússia: R$ 1.591 por tonelada;
- Estados Unidos – trigo soft: R$ 1.809 por tonelada;
- Estados Unidos – trigo hard: R$ 2.048 por tonelada.
A diferença de preços ajuda a explicar o avanço da Rússia como fornecedora, mesmo diante dos desafios logísticos enfrentados pelo país.
Logística do Mar Negro influencia exportações russas
A movimentação do trigo russo também está sendo afetada pelas dificuldades logísticas no Mar Negro, região estratégica para o comércio internacional de grãos.
Segundo Bento, parte do cereal precisa encontrar rotas alternativas de escoamento, incluindo o Mar Báltico, diante dos impactos provocados pelo conflito entre Rússia e Ucrânia.
Mesmo com esses obstáculos, o trigo russo permanece competitivo em determinados mercados brasileiros.
Nordeste pode ampliar compras de trigo russo
O Nordeste brasileiro aparece como uma das regiões com maior potencial para receber trigo russo.
Segundo o analista, o cereal possui maior competitividade nessa região, onde não existem as mesmas restrições fitossanitárias observadas em estados como São Paulo e em parte da Região Sul.
Esse cenário pode contribuir para diversificar as origens do trigo utilizado pela indústria brasileira e reduzir a dependência de um único fornecedor durante períodos de menor disponibilidade.
Brasil aumenta dependência do mercado internacional
A combinação de menor produção doméstica, redução da área cultivada e necessidade de abastecimento dos moinhos deverá manter as importações brasileiras de trigo em patamar elevado na safra 2026/27.
O cenário também reforça a importância da Argentina para o mercado brasileiro, ao mesmo tempo em que abre espaço para o crescimento de fornecedores como Rússia, Paraguai e Uruguai.
Caso a projeção da Conab seja confirmada, o Brasil ficará muito próximo de registrar novamente um volume histórico de importações de trigo, evidenciando a crescente dependência do mercado internacional para garantir o abastecimento interno.
Fonte: Portal do Agronegócio
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