França pode perder excedente de trigo para exportação até 2036, alertam produtores
Queda das safras, redução da área cultivada, custos elevados e eventos climáticos ameaçam a presença do maior produtor de trigo da União Europeia no mercado mundial
Publicado em: 10/09/2026 às 17:00hs
A França poderá perder, dentro de dez anos, sua capacidade de exportar trigo ao mercado internacional caso não consiga reverter a trajetória de queda da produção. O alerta foi feito pela Associação Geral dos Produtores de Trigo e Outros Cereais da França (AGPB), que relaciona o cenário ao aumento dos custos, à redução da renda agrícola e às mudanças nas condições climáticas.
Maior produtora de trigo da União Europeia, a França deverá colher 31,9 milhões de toneladas de trigo soft em 2026, segundo estimativa do Ministério da Agricultura do país. O volume representa queda de 4% em relação à temporada de 2025.
O trigo soft, também conhecido como trigo comum, é a principal variedade cultivada pelos agricultores franceses e possui papel estratégico no abastecimento europeu e nas exportações do bloco.
Produção francesa de trigo recua desde o recorde de 2015
A retração prevista para 2026 amplia uma tendência observada desde 2015, quando a safra francesa de trigo atingiu o recorde de aproximadamente 41 milhões de toneladas.
Embora a cultura tenha sofrido menos que o milho com o calor extremo e a seca, os efeitos acumulados das adversidades climáticas continuam reduzindo o potencial produtivo das lavouras.
Se essa trajetória for mantida, a França poderá perder mais 6 milhões de toneladas de trigo soft até 2036, conforme projeção da AGPB.
O volume corresponde aproximadamente ao excedente destinado aos mercados de fora da União Europeia na safra atual. Na prática, a redução poderia eliminar a disponibilidade francesa para exportações a países terceiros.
Calor e seca pressionam produtividade das lavouras
As condições climáticas mais quentes e secas estão entre os principais fatores responsáveis pela redução do rendimento do trigo francês.
A irregularidade das chuvas, as temperaturas elevadas e os períodos prolongados de seca prejudicam o desenvolvimento das plantas e aumentam a instabilidade da produção entre as safras.
O avanço dessas condições também amplia a necessidade de investimentos em genética, manejo, irrigação e tecnologias capazes de elevar a resistência das lavouras aos eventos climáticos extremos.
Baixa rentabilidade reduz área destinada aos grãos
Além dos impactos climáticos, a perda de rentabilidade tem levado agricultores franceses a diminuir a área cultivada com grãos, principalmente em partes das regiões central e sul do país.
A AGPB estima que os produtores de cereais encerrarão 2026 com renda negativa pelo quarto ano consecutivo. A recuperação dos preços agrícolas não tem sido suficiente para compensar o aumento das despesas de produção.
Os fertilizantes aparecem entre os componentes que mais pressionam os custos. Esse desequilíbrio compromete a capacidade de investimento e pode levar produtores a substituir o trigo por culturas consideradas mais rentáveis ou menos expostas aos riscos econômicos e climáticos.
Produtores consideram pacote de ajuda insuficiente
O governo francês anunciou um pacote de € 1 bilhão, equivalente a aproximadamente US$ 1,16 bilhão, para compensar perdas relacionadas ao clima.
A AGPB, entretanto, considera o valor insuficiente diante da extensão dos prejuízos acumulados pelos produtores. A avaliação é compartilhada por outras organizações representativas do setor agrícola francês.
Para a entidade, medidas emergenciais podem aliviar parte das dificuldades, mas não resolvem os problemas estruturais que comprometem a competitividade da produção de trigo.
AGPB defende subsídios ajustados aos preços agrícolas
Como alternativa de longo prazo, a associação propõe que a União Europeia adote subsídios variáveis aos agricultores.
Pelo modelo defendido pela AGPB, o apoio financeiro aumentaria nos períodos de preços baixos e seria reduzido quando as condições de mercado fossem mais favoráveis. O objetivo seria oferecer uma proteção mais eficiente contra a volatilidade das commodities agrícolas.
A proposta busca preservar a renda dos produtores e evitar novas reduções de área, especialmente em momentos nos quais os preços recebidos não cobrem os custos de produção.
Trigo da Ucrânia amplia preocupação com preços na Europa
A possível ampliação da cota de importação de trigo ucraniano pela União Europeia também preocupa os agricultores franceses.
O presidente da AGPB, Eric Thirouin, afirmou que a entidade se opõe ao aumento do volume autorizado. Segundo ele, uma entrada maior do cereal da Ucrânia poderia pressionar os preços no mercado europeu, repetindo movimentos observados após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Os produtores argumentam que a concorrência com o trigo ucraniano, associada aos custos elevados e à queda da produtividade, pode agravar a perda de rentabilidade das propriedades francesas.
Redução das exportações pode alterar mercado mundial de trigo
Uma eventual saída da França do mercado exportador global teria reflexos sobre a oferta internacional de trigo. O país é um fornecedor tradicional para destinos da África, do Oriente Médio e de outras regiões dependentes das importações do cereal.
A diminuição do excedente francês poderia abrir espaço para outros exportadores, como Rússia, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina e países do Leste Europeu.
O alerta da AGPB mostra que o desafio da França ultrapassa o desempenho de uma única safra. Sem recuperação da produtividade, recomposição da renda e adaptação das lavouras às mudanças climáticas, o maior produtor de trigo da União Europeia poderá perder relevância no comércio mundial até 2036.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias