Oferta global de cacau entra em alerta com envelhecimento das lavouras produtoras
Queda de produtividade em importantes países produtores aumenta a necessidade de renovar as lavouras; especialistas estimam demanda por até 2,2 milhões de hectares de cacau de alta performance
Publicado em: 10/09/2026 às 16:30hs
O envelhecimento das lavouras de cacau nas principais regiões produtoras está ampliando a preocupação com a oferta mundial da commodity. À medida que os cacaueiros perdem vigor e produtividade, cresce o risco de a produção não acompanhar a demanda, cenário que pode manter os preços do cacau pressionados nos próximos anos.
O alerta foi apresentado durante um episódio do podcast “Do Cacau ao Futuro”, produzido pela Nestlé durante a ExpoCacau 2026. O debate reuniu representantes da empresa, produtores e especialistas para discutir sustentabilidade, renovação dos cacauais e segurança de abastecimento da indústria de chocolate.
Produtividade do cacaueiro diminui com a idade
O cacaueiro apresenta um período economicamente viável de produção. De acordo com Roberto Lessa, empresário, consultor e produtor da Fazenda Vila Opa, esse ciclo gira em torno de 20 anos, embora possa alcançar de 25 a 30 anos em ambientes favoráveis.
Após esse período, as plantas tendem a perder capacidade produtiva. A idade avançada também pode aumentar a vulnerabilidade das lavouras a doenças, pragas e adversidades climáticas, reduzindo a rentabilidade das propriedades.
Sem um programa de renovação, o envelhecimento simultâneo de grandes áreas pode provocar quedas mais acentuadas na produção e comprometer a oferta de matéria-prima para a indústria.
Renovação gradual reduz impacto sobre a produção
Uma das estratégias defendidas pelos especialistas é a substituição progressiva das plantas antigas. A recomendação apresentada no debate considera a possibilidade de renovar aproximadamente 10% da área por ano.
O escalonamento permite substituir os cacaueiros menos produtivos sem interromper completamente a geração de renda da propriedade. Enquanto uma parte do cultivo é renovada, as demais áreas continuam em produção.
A medida também possibilita a introdução de materiais genéticos mais produtivos, resistentes e adaptados às condições de cada região. Para atingir melhores resultados, a renovação deve ser acompanhada por assistência técnica, manejo adequado do solo, nutrição equilibrada e controle fitossanitário.
Envelhecimento dos cacauais preocupa na Costa do Marfim
O problema ganha relevância mundial diante da situação das plantações em importantes países produtores. Na Costa do Marfim, maior fornecedora global de cacau, o indicador de senilidade das lavouras chegaria a 85%, conforme os dados apresentados durante o podcast.
A elevada proporção de plantas antigas pode limitar o potencial produtivo do país e aumentar a instabilidade da oferta internacional. Caso a renovação não avance no ritmo necessário, a disponibilidade de amêndoas poderá ficar abaixo das necessidades do mercado.
A análise indica que seria necessário incorporar entre 1,8 milhão e 2,2 milhões de hectares de cacau de alta performance para compensar parte da produção perdida com o envelhecimento das áreas existentes.
Lavouras renovadas podem produzir mais de 4 toneladas por hectare
A diferença de desempenho entre áreas degradadas e cultivos tecnificados demonstra o potencial da modernização dos cacauais.
Na experiência apresentada pela Fazenda Vila Opa, plantações antigas e degradadas produzem entre 150 e 200 quilos de cacau por hectare. Em áreas de alta performance, a produtividade chegou a 4.450 quilos por hectare.
O resultado mostra que a renovação, quando associada à genética adequada e às boas práticas agrícolas, pode multiplicar a produção sem exigir uma expansão proporcional da área cultivada.
O ganho de produtividade também permite diluir custos, melhorar a rentabilidade do produtor e reduzir a pressão pela abertura de novas áreas.
Brasil pode ampliar participação no mercado mundial de cacau
O risco de menor oferta global abre oportunidades para o fortalecimento da cacauicultura brasileira. O aproveitamento desse cenário, entretanto, depende de investimentos em genética, assistência técnica, recuperação de áreas degradadas e modernização dos sistemas produtivos.
Programas como o Nestlé Cocoa Plan atuam na disseminação de tecnologias e boas práticas agrícolas, além de apoiar medidas voltadas à produtividade e à sustentabilidade da cadeia.
A renovação das lavouras deixa, assim, de ser apenas uma decisão individual do produtor. O processo passa a ocupar uma posição estratégica na segurança do abastecimento mundial de cacau e na capacidade da indústria de chocolate de atender ao crescimento do consumo.
Segurança da oferta dependerá de planejamento
A idade avançada dos cacaueiros não significa uma redução imediata da produção mundial, mas representa um risco estrutural para os próximos anos. Sem planejamento, renovação escalonada e aumento da produtividade, o setor poderá enfrentar menor disponibilidade de amêndoas e maior volatilidade nos preços.
As discussões realizadas durante a ExpoCacau 2026 reforçam que a resposta passa pela combinação de tecnologia, conhecimento técnico, genética, sustentabilidade e gestão. Para o Brasil, esse movimento pode criar espaço para ampliar a produção e conquistar maior relevância no mercado internacional de cacau.
Fonte: Portal do Agronegócio
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