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Análise de Mercado

Brasil concentra 78% das agtechs da América Latina, mas gestão de cooperativas ainda enfrenta déficit tecnológico

País reúne 2.075 startups do agronegócio, enquanto cooperativas buscam sistemas adaptados às exigências jurídicas, contábeis e tributárias do setor e às mudanças previstas pela reforma tributária


Publicado em: 10/09/2026 às 15:30hs

Brasil concentra 78% das agtechs da América Latina, mas gestão de cooperativas ainda enfrenta déficit tecnológico

O Brasil consolidou-se como o principal polo de inovação tecnológica aplicada ao agronegócio na América Latina e no Caribe. Das 2.656 agtechs identificadas em 23 países da região, 2.075 estão instaladas no território brasileiro, o equivalente a 78% do total.

Os dados integram a primeira edição do Radar AgTech LAC, levantamento coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

As startups mapeadas desenvolvem soluções para agricultura de precisão, inteligência artificial, automação, rastreabilidade e monitoramento remoto. Apesar do avanço, uma área estratégica ainda apresenta baixa oferta de tecnologias especializadas: a gestão das cooperativas agropecuárias.

Cooperativas exigem sistemas adaptados ao modelo de negócio

As cooperativas participam de diferentes etapas da cadeia produtiva, desde o relacionamento com o produtor e a originação da produção até o armazenamento, processamento, comercialização e exportação.

Parte dessas organizações, entretanto, ainda utiliza sistemas originalmente desenvolvidos para empresas convencionais. Essas plataformas nem sempre conseguem atender integralmente às particularidades jurídicas, contábeis, fiscais e operacionais do cooperativismo.

Na avaliação de Luis Carlos Crema, CEO da SOLTERRA Soluções Inteligentes, a carência de ferramentas específicas representa um dos principais desafios para o avanço da transformação digital no setor.

“Apesar do avanço das tecnologias voltadas à produção agrícola, a gestão das cooperativas ainda dispõe de poucas soluções desenvolvidas especificamente para as particularidades do modelo cooperativista”, afirma.

São Paulo evidencia peso econômico e complexidade do agro

O agronegócio paulista respondeu por 24% do PIB do setor no Brasil e representou 18,9% de toda a economia do estado em 2024, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP (Cepea).

São Paulo também ocupa posição de destaque nas exportações brasileiras do agronegócio, impulsionado principalmente pelo complexo sucroalcooleiro, pelas carnes, pela soja e pelos sucos.

O tamanho e a diversidade dessas cadeias ampliam a demanda por ferramentas capazes de integrar informações produtivas, fiscais, financeiras, comerciais e logísticas. Essa necessidade torna-se ainda mais relevante para cooperativas, que administram operações próprias e, simultaneamente, o relacionamento econômico com seus associados.

Reforma tributária aumenta pressão por modernização

A implementação da reforma tributária acrescenta uma nova camada de complexidade à gestão do agronegócio. A partir de 2027, está prevista a substituição do PIS e da Cofins pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), alterando processos de apuração, emissão de documentos e aproveitamento de créditos.

Produtores rurais com faturamento anual superior a R$ 3,6 milhões por CPF deverão observar o enquadramento obrigatório previsto no novo sistema. Com isso, a geração e a utilização de créditos tributários poderão influenciar as negociações entre produtores, cooperativas, cerealistas e agroindústrias.

As mudanças exigirão maior integração de dados ao longo da cadeia, desde a gestão financeira da propriedade até os sistemas utilizados pelas cooperativas para receber, processar e comercializar a produção.

Ano de 2026 será decisivo para ajustar processos

O período de transição abre espaço para que empresas rurais e cooperativas revisem cadastros, procedimentos internos, documentos fiscais e sistemas de gestão antes da aplicação integral das novas regras.

Para Crema, a preparação antecipada pode reduzir impactos sobre o caixa e evitar que inconsistências sejam identificadas somente após a realização das operações.

“O produtor rural passará a integrar um novo modelo tributário sem experiência anterior nesse ambiente. Se não houver integração entre a gestão da fazenda e da cooperativa, muitos só perceberão o impacto financeiro depois que ele ocorrer. Quanto antes essa organização for feita, menor tende a ser o efeito no caixa da safra”, avalia.

Integração de dados será essencial para as cooperativas

A adaptação não dependerá apenas da aquisição de novas plataformas. Será necessário organizar os dados, capacitar as equipes e conectar as informações geradas nas propriedades aos sistemas administrativos das cooperativas.

Soluções desenvolvidas especificamente para o cooperativismo podem ajudar a automatizar processos, reduzir retrabalho, aumentar a rastreabilidade e melhorar o controle tributário, financeiro e operacional.

O protagonismo brasileiro no mercado latino-americano de agtechs demonstra que existe capacidade tecnológica para atender a essas demandas. O próximo desafio será direcionar parte dessa inovação para áreas ainda pouco exploradas, especialmente a gestão das cooperativas agropecuárias.

Com a reforma tributária se aproximando, modernizar os sistemas deixa de ser apenas uma oportunidade de eficiência e passa a representar uma medida estratégica para proteger o caixa, garantir conformidade e fortalecer a competitividade do cooperativismo brasileiro.

Fonte: Portal do Agronegócio

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