Publicidade
Aveia, Trigo e Cevada

Falta de chuva derruba potencial produtivo do trigo no Centro-Oeste e brusone amplia perdas

Restrição hídrica compromete lavouras de sequeiro em Goiás e Mato Grosso do Sul, enquanto doença fúngica pressiona a produção e exige maior atenção durante a colheita


Publicado em: 03/09/2026 às 20:00hs

Falta de chuva derruba potencial produtivo do trigo no Centro-Oeste e brusone amplia perdas

A escassez e a distribuição irregular das chuvas reduziram o potencial produtivo do trigo no Centro-Oeste na safra 2026. Goiás mantém no campo principalmente lavouras irrigadas, enquanto Mato Grosso do Sul acelerou a colheita após enfrentar perdas provocadas pela deficiência hídrica e pela incidência de brusone.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e simulações do Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (SISDAGRO), do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), mostram que a oferta insuficiente de água afetou diferentes etapas do desenvolvimento da cultura.

Nas áreas de sequeiro, o estresse hídrico prejudicou o perfilhamento, o alongamento do colmo, a diferenciação floral e o enchimento dos grãos. Além de limitar a produtividade, o cenário reduziu a viabilidade econômica da colheita em parte das propriedades.

Seca compromete trigo de sequeiro em Goiás

Em Goiás, o desempenho das lavouras variou de acordo com o sistema produtivo. As áreas conduzidas sem irrigação foram as mais prejudicadas pela falta de chuva ao longo do ciclo.

A baixa disponibilidade de água afetou processos fisiológicos essenciais para a formação da produtividade. Como consequência, os rendimentos ficaram abaixo do esperado e alguns produtores decidiram não colher os talhões mais comprometidos.

Nessas áreas, o trigo remanescente foi destinado à cobertura do solo. A prática ajuda a proteger a superfície contra a erosão, conservar a umidade residual e preparar as lavouras para o próximo ciclo agrícola.

Trigo irrigado apresenta melhor desempenho

Nas áreas irrigadas de Goiás, o cenário foi mais favorável. A colheita começou pontualmente em agosto, com produtividades consideradas satisfatórias.

Segundo a Conab, não foram identificadas ocorrências de brusone ou de outras doenças com relevância econômica no trigo irrigado. As temperaturas mais baixas registradas durante o inverno também ajudaram a diminuir a pressão de pragas.

A maior participação das lavouras irrigadas contribui para elevar a produtividade média estimada para o estado. Ainda assim, os dados meteorológicos evidenciam a forte dependência do fornecimento complementar de água.

Chuvas atenderam apenas 12% da demanda em Cristalina

Uma simulação do SISDAGRO para uma lavoura irrigada de trigo em Cristalina, no leste de Goiás, dimensionou o impacto da seca sobre a cultura.

O estudo considerou a emergência das plantas em 12 de maio e um ciclo de 120 dias. Durante esse período, a necessidade hídrica estimada chegou a 575,8 milímetros.

A precipitação acumulada, entretanto, foi de somente 69,2 milímetros, distribuídos por 13 dias. O volume correspondeu a aproximadamente 12% da demanda hídrica calculada para o trigo.

A escassez foi mais intensa em julho, quando não houve registro de chuva. Em agosto, o acumulado alcançou apenas 0,2 milímetro.

Déficit hídrico pode reduzir potencial produtivo em 39,9%

Diante da baixa contribuição das chuvas, a lavoura simulada dependeu fortemente da irrigação. Foram aplicados 303,8 milímetros de água, distribuídos em 12 lâminas de aproximadamente 25 milímetros.

Os intervalos entre as aplicações foram reduzidos à medida que aumentou a demanda evaporativa. Mesmo assim, o manejo utilizado na simulação não eliminou completamente os períodos de deficiência hídrica.

O déficit acumulado foi estimado em 277,4 milímetros, com perda de 39,9% do potencial produtivo até 7 de setembro.

O resultado está diretamente associado aos parâmetros adotados no estudo, como volume das lâminas e intervalo entre as irrigações. Dessa forma, o percentual não deve ser interpretado como uma estimativa automática das perdas em lavouras comerciais conduzidas com pivô central.

Trigo de Mato Grosso do Sul pode perder 54,6% do potencial

Em Ponta Porã, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, o trigo de sequeiro também sofreu com a irregularidade das precipitações. A simulação do INMET considerou uma lavoura com emergência em 19 de maio.

Ao longo do ciclo analisado, foram registrados 236 milímetros de chuva em 42 dias, diante de uma necessidade hídrica estimada em 393 milímetros.

Junho apresentou distribuição mais favorável das precipitações e menor déficit de água. A situação, porém, mudou de forma acentuada em julho.

No mês, o volume de chuva ficou em apenas 19,2 milímetros, enquanto a demanda estimada do trigo alcançou 148,7 milímetros. A partir de 21 de julho, o armazenamento de água no solo permaneceu abaixo de 10% da capacidade.

Nesse cenário, a simulação indicou uma perda de 54,6% do potencial produtivo em razão dos períodos prolongados de baixa disponibilidade hídrica durante fases de elevada demanda da cultura.

Estresse hídrico prejudica folhas, biomassa e grãos

A limitação de água pode reduzir a expansão das folhas e comprometer a capacidade da planta de interceptar a radiação solar. Com menor área foliar e menor atividade fotossintética, a formação de biomassa também fica prejudicada.

Quando o estresse hídrico ocorre nas fases reprodutivas, os impactos podem atingir diretamente a formação e o enchimento dos grãos, reduzindo produtividade, peso e qualidade do trigo.

Por isso, a distribuição das chuvas ao longo do ciclo pode ser tão importante quanto o volume total acumulado. Períodos secos prolongados em etapas decisivas tendem a provocar perdas expressivas, mesmo quando há precipitações em outros momentos.

Brusone amplia pressão sobre lavouras sul-mato-grossenses

Além da restrição hídrica, produtores de Mato Grosso do Sul enfrentaram aumento da incidência de doenças fúngicas. A combinação de temperaturas elevadas, umidade e nebulosidade favoreceu o desenvolvimento de patógenos.

A brusone, causada pelo fungo Pyricularia oryzae, ganhou destaque principalmente nas regiões produtoras do sudoeste do estado.

A doença exige monitoramento constante porque pode atingir estruturas responsáveis pela formação dos grãos e provocar perdas relevantes. Sua ocorrência contribuiu para revisões nas estimativas de produção à medida que a colheita avançou no fim de agosto.

Chuvas devem continuar irregulares no Centro-Oeste

Para o período entre 3 e 10 de setembro, o modelo COSMO aponta chuvas distribuídas de forma irregular pela Região Centro-Oeste.

Os maiores acumulados são esperados no sudoeste de Mato Grosso do Sul e no sul de Goiás, com volumes geralmente entre 20 e 50 milímetros. Pontualmente, as precipitações podem se aproximar de 100 milímetros, especialmente em áreas do norte sul-mato-grossense.

Nas demais regiões, a previsão indica acumulados inferiores a 10 milímetros ou ausência de chuva significativa.

Umidade pode dificultar colheita e favorecer doenças

Embora a chuva possa beneficiar áreas ainda em desenvolvimento, o aumento da nebulosidade e da umidade relativa do ar tende a reduzir as janelas disponíveis para a colheita.

Períodos mais prolongados de molhamento das plantas também podem criar condições favoráveis ao avanço de doenças, exigindo atenção redobrada nas lavouras que ainda permanecem no campo.

A orientação é aproveitar os períodos secos para avançar com as operações, intensificar o monitoramento fitossanitário e acompanhar as atualizações meteorológicas. O controle das condições de umidade e da evolução das doenças será decisivo para reduzir perdas e organizar a retirada do trigo nas áreas ainda não colhidas.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias