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Clima

Super El Niño ameaça safra 2026/27 e amplia riscos para preços, crédito e contratos no agronegócio

Perspectiva de eventos climáticos extremos coloca produtores em alerta para perdas nas lavouras, aumento dos custos, problemas logísticos e dificuldades no cumprimento de contratos agrícolas


Publicado em: 03/09/2026 às 13:00hs

Super El Niño ameaça safra 2026/27 e amplia riscos para preços, crédito e contratos no agronegócio

A possibilidade de um El Niño de forte intensidade durante a safra 2026/27 amplia a preocupação do agronegócio brasileiro com a produtividade das lavouras, os custos de produção, a logística e o cumprimento dos contratos. O cenário climático também pode gerar reflexos sobre os preços dos alimentos, a inflação e a disponibilidade de crédito rural.

Analistas, advogados e especialistas em gestão alertam que os efeitos não devem ficar restritos ao campo. Excesso de chuvas, estiagens, ondas de calor e queimadas podem atingir diferentes regiões, pressionando lavouras, rebanhos, armazéns, estradas e unidades agroindustriais.

A dimensão dos impactos dependerá da intensidade do fenômeno, da distribuição regional das chuvas e do estágio de desenvolvimento de cada cultura.

El Niño aumenta cautela com a safra 2026/27

Segundo Ieda Queiroz, coordenadora da área de agronegócios do CSA Advogados, a perspectiva de um El Niño intenso acrescenta um novo fator de risco a uma temporada que já começa cercada de incertezas.

“A preocupação está na possibilidade de redução de produtividade, perda de qualidade, aumento dos custos de produção e comprometimento da segunda safra, especialmente do milho”, afirma.

Embora as primeiras projeções indiquem uma produção brasileira de soja elevada, a expectativa é de crescimento mais moderado. Nesse contexto, mesmo perdas concentradas em determinadas regiões podem produzir consequências econômicas significativas.

O risco é maior para produtores que trabalham com margens estreitas, enfrentam custos financeiros elevados ou acumulam dívidas de safras anteriores.

Quebra localizada pode pressionar preços e inflação

Uma eventual redução da produção de soja, milho e outras culturas pode diminuir a oferta regional de grãos e elevar os custos de ração, transporte e processamento.

Os reflexos podem chegar às cadeias de carnes, leite, ovos, biocombustíveis e alimentos industrializados. Dependendo da extensão das perdas, o movimento também pode pressionar os preços ao consumidor e os indicadores de inflação.

A deterioração da capacidade de pagamento dos produtores tende ainda a aumentar a cautela das instituições financeiras. Bancos e cooperativas de crédito podem reforçar a análise de risco, exigir mais garantias ou restringir a concessão de novos financiamentos.

Armazenagem e logística entram no mapa de riscos

Além das lavouras, o El Niño pode comprometer o transporte, a armazenagem e o funcionamento das agroindústrias.

Pedro Sobreira, diretor técnico-operacional da Eco Inventory, avalia que um ciclo climático mais severo poderá afetar lavouras, rebanhos, logística, silos, armazéns e operações industriais.

Chuvas intensas podem prejudicar estradas rurais, atrasar o escoamento da produção e elevar os custos com frete e manutenção. A umidade excessiva também aumenta os riscos de perda de qualidade dos grãos armazenados.

Sobreira afirma que perdas pós-colheita provocadas por falhas de armazenagem e controle podem chegar a 30% em determinadas situações. Por outro lado, propriedades com inventários estruturados conseguem reduzir entre 10% e 25% dos custos operacionais anuais, segundo o especialista.

“A empresa rural e a agroindústria precisam saber exatamente o que possuem, onde está cada ativo e qual é o nível real de estoque para reagir rapidamente a eventos climáticos extremos. O Super El Niño exige precisão, rastreabilidade e dados confiáveis”, destaca.

Controle de estoques ajuda a proteger patrimônio rural

A ausência de informações atualizadas sobre máquinas, equipamentos, insumos e estoques pode ampliar as perdas durante eventos extremos.

O produtor precisa identificar quais ativos estão localizados em áreas vulneráveis, acompanhar as condições dos armazéns e manter registros confiáveis sobre defensivos, fertilizantes, sementes, combustíveis e produtos colhidos.

“A resiliência climática começa com informação confiável. Uma ferramenta de controle da produção pode ajudar o produtor a proteger seu patrimônio e manter a operação funcionando mesmo em cenários extremos”, acrescenta Sobreira.

Evento climático não garante aplicação de força maior

Os contratos agrícolas também entram no centro das preocupações. A ocorrência de um evento climático severo não garante automaticamente o reconhecimento de caso fortuito ou força maior.

Frederico Favacho, sócio da área de agronegócios do Santos Neto Advogados, explica que os riscos climáticos podem ser interpretados como parte da própria atividade rural, especialmente quando existem mecanismos de prevenção e mitigação.

“O Super El Niño pode reduzir a produtividade e isso pode significar impacto no cumprimento dos contratos. O problema é que as questões climáticas já não são consideradas força maior automaticamente, por fazerem parte do risco da atividade do produtor e por existirem meios de mitigação, como o seguro rural”, afirma.

A análise depende das circunstâncias de cada contrato, das cláusulas negociadas, da previsibilidade do evento, das medidas preventivas adotadas e da relação entre o fenômeno climático e o descumprimento da obrigação.

Venda antecipada exige cautela do produtor

Produtores que comercializam antecipadamente parte da safra devem evitar assumir compromissos incompatíveis com sua capacidade de produção.

A estratégia de venda futura pode proteger preços e garantir receita, mas também aumenta o risco quando uma parcela elevada da colheita já está comprometida. Em caso de quebra, o produtor poderá precisar adquirir o produto no mercado para cumprir a entrega, muitas vezes por um preço superior ao previsto.

Também é importante revisar cláusulas relacionadas a prazos, volumes, qualidade, locais de entrega, renegociação e efeitos de eventos climáticos.

O registro de perdas, laudos agronômicos, dados meteorológicos, comunicações formais e comprovantes das medidas de mitigação pode ser relevante em uma eventual negociação ou disputa jurídica.

Endividamento aumenta vulnerabilidade financeira

Para Ieda Queiroz, o principal risco não está necessariamente em uma quebra generalizada da produção, mas na combinação de dificuldades produtivas, financeiras e operacionais.

“Um produtor capitalizado pode atravessar uma perda pontual de safra. Para aquele que já carrega dívidas de ciclos anteriores, enfrenta crédito mais caro e comprometeu parcela relevante da produção futura, a mesma perda pode representar um problema de liquidez e solvência”, explica.

A redução da produtividade pode comprometer simultaneamente a receita, o pagamento do custeio e a entrega dos contratos. O cenário exige acompanhamento do fluxo de caixa, revisão do endividamento e preservação de recursos para despesas essenciais.

Gestão integrada ganha importância no campo

Diante do risco de seca, excesso de chuvas, calor extremo e incêndios, produtores e empresas precisam avaliar de forma conjunta os riscos produtivos, financeiros, jurídicos e patrimoniais.

Entre as medidas recomendadas estão o planejamento regional da safra, a contratação de seguro rural, a manutenção da infraestrutura, o controle dos estoques, a revisão dos contratos e a adoção de tecnologias de monitoramento e rastreabilidade.

A preparação não elimina os impactos do El Niño, mas pode reduzir perdas, acelerar decisões e ampliar a capacidade de recuperação das propriedades diante de condições climáticas adversas.

Fonte: Portal do Agronegócio

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