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Clima

Super El Niño pode superar recordes e elevar riscos para safra, reservatórios e queimadas no Brasil

NOAA aponta mais de 90% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte, enquanto seca avança, rios recuam e incêndios crescem no país


Publicado em: 03/09/2026 às 11:45hs

Super El Niño pode superar recordes e elevar riscos para safra, reservatórios e queimadas no Brasil

O El Niño em desenvolvimento no Oceano Pacífico está próximo de alcançar uma categoria rara e pode se tornar o mais intenso desde o início dos registros modernos, em 1950. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima probabilidade superior a 90% de o fenômeno atingir a faixa considerada “muito forte” entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027.

As projeções indicam ainda 69% de chance de o índice RONI alcançar ou superar +2,5°C no trimestre entre outubro e dezembro. Caso o cenário se confirme, o evento poderá ultrapassar a intensidade dos principais El Niños registrados nas últimas décadas.

No Brasil, o avanço do fenômeno aumenta a preocupação com a irregularidade das chuvas, as temperaturas elevadas, o início do plantio da safra 2026/27, a redução dos reservatórios e o crescimento dos focos de incêndio.

El Niño fica a 0,2°C da categoria muito forte

O Pacífico Equatorial permaneceu por três semanas com anomalia de aproximadamente +1,8°C, interrompendo temporariamente a escalada observada desde maio. Faltam, portanto, 0,2°C para que o episódio alcance oficialmente a faixa de El Niño muito forte.

A NOAA considera que um El Niño está estabelecido quando a temperatura da superfície do Pacífico Equatorial permanece pelo menos 0,5°C acima da referência climática. O fenômeno é classificado em quatro níveis de intensidade:

  • Fraco, entre +0,5°C e +0,9°C;
  • Moderado, entre +1°C e +1,4°C;
  • Forte, entre +1,5°C e +1,9°C;
  • Muito forte, a partir de +2°C.

A categoria mais elevada começou a ser adotada com maior frequência pelos meteorologistas em 2015 e posteriormente passou a integrar as classificações utilizadas pela agência norte-americana.

Novo índice desconta efeitos do aquecimento global

Em fevereiro, a NOAA substituiu o Índice Oceânico Niño, conhecido como ONI, pelo Índice Oceânico Niño Relativo, o RONI, para avaliar com mais precisão a intensidade do fenômeno.

O indicador anterior comparava a temperatura do Pacífico Equatorial com a média observada nas três décadas anteriores. Entretanto, como os oceanos ficaram mais quentes devido às mudanças climáticas, parte desse aquecimento global acabava sendo incorporada ao cálculo do El Niño, potencialmente superestimando os eventos mais recentes.

O RONI procura corrigir essa distorção ao descontar o aquecimento médio da faixa tropical. Em julho, por exemplo, o novo índice indicava anomalia de +1,4°C, enquanto o ONI já superava +2°C.

O El Niño de 2023/24 evidencia essa diferença. Pelo índice anterior, o fenômeno alcançou o limite de +2°C e ficou próximo da categoria muito forte. Com a nova metodologia, atingiu aproximadamente +1,5°C, permanecendo na faixa de intensidade forte.

Apenas três Super El Niños foram registrados desde 1950

Desde 1950, somente três episódios atingiram a categoria muito forte, também chamada de Super El Niño: 1982/83, 1997/98 e 2015/16.

O evento de 1997/98 está entre os mais documentados no Brasil. A seca associada ao fenômeno criou condições para os grandes incêndios ocorridos em Roraima. Iniciadas por fontes humanas de ignição, as queimadas atingiram entre 38 mil e 40 mil quilômetros quadrados, incluindo até 13,9 mil quilômetros quadrados de floresta primária.

No Semiárido, a estiagem se prolongou entre fevereiro e maio de 1998. Somente na Bahia, 247 municípios foram atingidos e aproximadamente 200 mil pessoas sofreram impactos diretos.

Em 2015/16, a Amazônia enfrentou condições extremas de calor e seca, enquanto reservatórios do Nordeste chegaram a níveis críticos.

Atlântico também influencia os impactos no Brasil

A intensidade do aquecimento do Pacífico não determina isoladamente a dimensão dos impactos sobre o território brasileiro. Outros fatores atmosféricos e oceânicos interferem na distribuição das chuvas, especialmente as condições do Atlântico Tropical.

Segundo informações reunidas pelo Painel El Niño do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), as temperaturas do Atlântico podem reforçar ou reduzir os efeitos do El Niño, sobretudo no norte do Nordeste.

Um fenômeno mais intenso aumenta a probabilidade de ocorrência dos padrões normalmente relacionados ao El Niño, mas não permite definir, sozinho, quais regiões serão mais atingidas nem a magnitude dos danos.

Efeitos podem se intensificar depois do pico do El Niño

O momento de maior aquecimento do Pacífico não coincide necessariamente com o período de impactos mais severos no Brasil.

Em eventos anteriores, os prejuízos mais expressivos apareceram nos meses seguintes, quando a falta acumulada de chuva resultou em redução da vazão dos rios, esvaziamento de reservatórios, perdas agrícolas e agravamento dos incêndios florestais.

Esse intervalo reforça a necessidade de acompanhar semanalmente indicadores climáticos, hidrológicos e agrícolas. Mesmo que o El Niño atinja o pico entre outubro e dezembro, seus efeitos podem continuar durante os primeiros meses de 2027.

Seca avança no Sudeste enquanto diminui no Sul

O mapa da seca evidencia uma divisão acentuada entre as regiões brasileiras. Em julho, quase 90% do território do Sudeste estava submetido a algum nível de seca.

A estiagem avançou em quatro regiões do país, enquanto o Sul apresentou comportamento oposto e praticamente eliminou, em apenas um mês, a extensão afetada.

O contraste entre excesso e escassez de água em diferentes partes do Brasil é uma das características mais conhecidas do El Niño. O fenômeno costuma favorecer chuvas acima da média no Sul e reduzir as precipitações em áreas do Norte e do Nordeste, embora os efeitos variem conforme outros componentes do sistema climático.

Nível do rio Branco continua crítico em Roraima

O monitoramento dos rios também demonstra a pressão provocada pelo período seco. Oito das 11 estações analisadas apresentaram queda no nível da água durante a semana.

As duas estações que registraram elevação estão entre as mais críticas. O rio Branco subiu 3 centímetros em Boa Vista e 7 centímetros em Caracaraí, mas continua muito abaixo das referências históricas para o período.

Em Boa Vista, a medição está 136 centímetros abaixo do nível registrado na mesma data de 2016, ano da menor marca histórica local. Em Caracaraí, a diferença chega a 156 centímetros em relação a 1998.

Em outras bacias amazônicas, o cenário é diferente. O rio Negro caiu 85 centímetros em Manaus, mas ainda permanece 576 centímetros acima do patamar observado durante a seca recorde de 2024.

Reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste caem para 58%

A redução do armazenamento de água também atingiu o sistema elétrico. Os reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste perderam 1,6 ponto percentual em uma semana, a maior queda registrada no acompanhamento, e chegaram a 58% da capacidade.

Foi a quinta redução semanal consecutiva no principal subsistema do país. A continuidade do esvaziamento pode aumentar a necessidade de acionamento das usinas termelétricas, cuja geração costuma apresentar custo mais elevado.

No Nordeste, os reservatórios monitorados para abastecimento humano ficaram, pela primeira vez no período analisado, abaixo de 50%. Os seis estados acompanhados registraram redução simultânea nos volumes armazenados.

Primavera aumenta pressão sobre soja e café

As projeções climáticas até outubro apontam possibilidade de chuvas abaixo da média em quatro regiões do Brasil. Apenas o Sul aparece com tendência de precipitações superiores aos níveis habituais.

Ao mesmo tempo, temperaturas acima da média são esperadas em todo o país. A maior anomalia térmica observada em julho ocorreu no Centro-Oeste.

A combinação entre calor e irregularidade das precipitações acontece em um período decisivo para o agronegócio brasileiro. A primavera coincide com o início do plantio da safra de verão, o auge da temporada de incêndios e a etapa final de esvaziamento dos reservatórios.

As lavouras de soja e café podem ficar particularmente expostas à falta ou à má distribuição das chuvas em São Paulo e Minas Gerais. A ausência de umidade adequada pode atrasar a semeadura da soja, comprometer a germinação e dificultar o estabelecimento inicial das plantas.

No café, temperaturas elevadas e precipitações irregulares podem afetar a florada e o pegamento dos frutos, aumentando a preocupação com o potencial produtivo da próxima safra.

Focos de incêndio crescem 9,6% em agosto

O Brasil contabilizou 20.222 focos de incêndio em agosto, avanço de 9,6% na comparação com o mesmo mês de 2025. Somente agosto concentrou 44% de todos os registros detectados no país em 2026.

A Amazônia ultrapassou o Cerrado e passou a liderar o número de ocorrências. Pará, Mato Grosso e Amazonas ficaram à frente entre os estados com mais focos.

Embora o total acumulado em 2026 ainda permaneça abaixo do registrado no ano anterior, a diferença diminuiu de 5,2% para 3,3% em apenas uma semana.

A última semana de agosto concentrou quase um terço dos incêndios do mês. O período terminou em 31 de agosto, data com o maior número diário de detecções.

Eventos extremos deslocam mais de 10 mil pessoas

Tempestades e outros eventos extremos deslocaram 10,3 mil pessoas em agosto. Os impactos foram registrados em 107 municípios de 11 estados, com maior concentração no Rio Grande do Sul.

O episódio mais grave ocorreu em Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais. Uma chuva intensa provocou oito mortes e deixou 1.109 feridos.

Enquanto tempestades atingiram parte do país, a seca avançou em outras áreas. Ao longo de agosto, 65 municípios de dez estados foram incluídos na lista federal de localidades afetadas pela estiagem.

No Acre, os 22 municípios passaram a ter a situação reconhecida individualmente, demonstrando a abrangência da crise hídrica no estado.

El Niño exige planejamento para safra, água e energia

A possibilidade de um Super El Niño entre o final de 2026 e o início de 2027 amplia a necessidade de preparação do setor agropecuário, das autoridades públicas e dos gestores dos sistemas hídrico e elétrico.

Produtores rurais devem acompanhar as previsões de curto e médio prazo, ajustar o calendário de plantio às condições locais e considerar estratégias de manejo capazes de preservar a umidade do solo. Também cresce a importância da prevenção de incêndios, da manutenção de aceiros e do uso racional da água.

Mesmo que o fenômeno ultrapasse +2°C ou alcance os +2,5°C projetados pela NOAA, os impactos não serão uniformes em todo o Brasil. A combinação entre Pacífico, Atlântico, circulação atmosférica e condições regionais será determinante para definir onde o excesso de chuva, a seca e o calor serão mais intensos.

Fonte: Portal do Agronegócio

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