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Clima

El Niño pode derrubar safra de milho e levar PIB agropecuário a recuar 1,5% em 2027

Estudo do Itaú prevê fenômeno climático de forte intensidade, pressão adicional sobre a inflação e impactos na produção rural, nos preços dos alimentos e no setor de energia


Publicado em: 03/09/2026 às 11:12hs

El Niño pode derrubar safra de milho e levar PIB agropecuário a recuar 1,5% em 2027

O avanço do El Niño poderá interromper o crescimento da agropecuária brasileira e provocar uma retração de aproximadamente 1,5% no PIB do setor em 2027. A estimativa consta em estudo elaborado pelo Itaú Unibanco, que aponta a cultura do milho como uma das mais expostas às alterações no regime de chuvas.

Além de comprometer a produção agrícola, o fenômeno climático poderá elevar os preços dos alimentos, encarecer a alimentação animal e aumentar os riscos para as tarifas de energia elétrica. Em 2026, os primeiros efeitos já devem aparecer na inflação, especialmente entre frutas, verduras e legumes.

PIB agropecuário pode ficar negativo em 2027

A agropecuária brasileira ainda deverá registrar crescimento próximo de 3% em 2026, segundo as projeções do Itaú. Embora positivo, o resultado representa uma desaceleração significativa diante da expansão de cerca de 12% observada em 2025.

O cenário mais preocupante está concentrado em 2027. De acordo com Julia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco, os modelos meteorológicos indicam a possibilidade de um El Niño bastante intenso, com potencial para superar os eventos registrados em 2015 e 2023.

Caso as projeções se confirmem, as perdas nas lavouras poderão levar o PIB agropecuário ao campo negativo, com reflexos sobre diferentes segmentos ligados à produção, ao transporte e à comercialização de commodities.

Safra de milho pode sofrer quebra de 17%

O milho aparece como a cultura mais vulnerável no cenário analisado pelo banco. O estudo considera a possibilidade de uma redução de aproximadamente 17% na produção brasileira do cereal em 2027.

O risco está relacionado principalmente ao calendário agrícola. Mudanças na distribuição das chuvas podem atrasar a semeadura da soja e, consequentemente, encurtar a janela ideal para o plantio do milho segunda safra.

Com menos tempo disponível e maior exposição das lavouras a períodos de estiagem ou temperaturas desfavoráveis, a produtividade do milho safrinha poderá ser comprometida nas principais regiões produtoras.

O tamanho efetivo das perdas, entretanto, dependerá da intensidade do El Niño, da localização das anomalias climáticas e da capacidade de adaptação dos produtores ao longo do ciclo.

Quebra do milho pode atingir rações e proteínas animais

Uma redução expressiva na oferta de milho não afetaria apenas os agricultores. Como o cereal é um dos principais componentes das rações, a quebra da safra poderia aumentar os custos de produção nas cadeias de aves, suínos, bovinos confinados, ovos e leite.

Esse movimento tende a pressionar os preços das proteínas animais e ampliar os efeitos inflacionários do fenômeno climático. Também podem ser atingidos os setores de armazenagem, transporte, processamento e exportação.

Embora a agropecuária represente diretamente entre 6% e 7% do Produto Interno Bruto brasileiro, sua conexão com outras atividades econômicas amplia os possíveis impactos de uma safra menor.

El Niño pode acrescentar 0,3 ponto ao IPCA em 2026

No curto prazo, o principal efeito do El Niño sobre a inflação deverá ocorrer nos alimentos in natura. Frutas, legumes e verduras são mais sensíveis às mudanças de temperatura, ao excesso de precipitação e aos períodos de estiagem.

O estudo estima que essas alterações poderão acrescentar cerca de 0,3 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026.

Para 2027, o risco inflacionário poderá migrar para os grãos, as rações e as proteínas animais. O impacto final nos preços dependerá não apenas da produção brasileira, mas também do desempenho das safras em outros grandes países exportadores.

Uma colheita favorável na Argentina ou em outras regiões produtoras, por exemplo, poderia compensar parcialmente uma eventual queda da oferta no Brasil e limitar a valorização internacional das commodities.

Reservatórios e tarifas de energia entram no radar

As alterações provocadas pelo El Niño no regime de chuvas também representam um fator de atenção para o setor elétrico. A distribuição irregular das precipitações pode afetar o nível dos reservatórios das hidrelétricas e elevar a necessidade de geração por fontes mais caras.

O Itaú ainda considera a manutenção da bandeira tarifária verde até o encerramento de 2026, cenário que oferece algum alívio para a inflação no curto prazo. Para 2027, porém, o risco de mudanças nas bandeiras tarifárias torna-se mais relevante.

A evolução dos reservatórios deverá ser acompanhada especialmente durante o período úmido, quando ocorre a recuperação dos volumes armazenados nas principais bacias hidrográficas do país.

Juros elevados aumentam preocupação com endividamento rural

O possível El Niño forte chega em um momento de maior pressão financeira sobre parte dos produtores brasileiros. Além dos riscos climáticos, o setor enfrenta crédito mais caro, custos elevados e dificuldades na renegociação de compromissos.

Segundo a avaliação apresentada pelo Itaú, os produtores já vêm incorporando o fenômeno climático ao planejamento das lavouras. Mesmo assim, uma quebra severa de safra poderia reduzir receitas e agravar a inadimplência, principalmente entre agricultores com menor capacidade financeira ou baixa cobertura de seguro rural.

Calendário de plantio será decisivo para o milho

Nos próximos meses, o ritmo de semeadura da soja será um dos principais indicadores para avaliar os impactos do El Niño sobre a safra brasileira.

Eventuais atrasos poderão comprometer a implantação do milho safrinha dentro da janela recomendada, aumentando a exposição das lavouras aos riscos climáticos no final do ciclo.

Além do calendário de plantio, o mercado deverá monitorar a distribuição regional das chuvas, as condições das lavouras, os níveis dos reservatórios e as projeções de produção dos principais concorrentes internacionais.

Esses fatores serão fundamentais para determinar a intensidade da possível retração do PIB agropecuário e o tamanho da pressão sobre a inflação brasileira em 2027.

Fonte: Portal do Agronegócio

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