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Algodão no semiárido: bioinsumos e drones ampliam estratégias contra seca e bicudo

Pesquisas apresentadas na ExpoCariri 2026 incluem bactérias associadas à tolerância ao estresse hídrico, fungos contra insetos e liberação de agentes de controle biológico por drones


Publicado em: 06/11/2026 às 08:00hs

Algodão no semiárido: bioinsumos e drones ampliam estratégias contra seca e bicudo

A integração de bioinsumos, controle biológico e monitoramento por drones está entre as estratégias estudadas para reduzir perdas e fortalecer a produção de algodão no semiárido brasileiro. As tecnologias foram apresentadas por pesquisadores da Embrapa durante a ExpoCariri 2026, realizada em 30 de outubro, no Ceará, com foco em soluções para propriedades de diferentes portes.

A programação abordou dois desafios centrais da cotonicultura regional: a irregularidade das chuvas, combinada às altas temperaturas, e a pressão de pragas, especialmente o bicudo-do-algodoeiro. As alternativas incluem pesquisas ainda em laboratório e casa de vegetação, além de ferramentas voltadas ao manejo das lavouras.

Bactérias da Caatinga são investigadas para enfrentar a seca

Uma das iniciativas apresentadas foi o projeto CaatÁgua, que busca identificar bactérias capazes de ajudar culturas agrícolas a tolerar a deficiência hídrica.

Financiado pela Finep, o trabalho reúne a Rede Borborema de Agroecologia e as unidades da Embrapa Algodão, Recursos Genéticos e Biotecnologia e Meio Ambiente.

Segundo o pesquisador Paulo Barroso, da Embrapa Algodão, a seleção envolve microrganismos associados a plantas da Caatinga, especialmente cactáceas e algodoeiros mocó e herbáceo. A investigação se concentra nas raízes e na rizosfera, região do solo diretamente influenciada por elas.

Das centenas de bactérias inicialmente isoladas, dezenas apresentaram resultados promissores em experimentos com tomateiro. Sob estresse hídrico moderado, plantas inoculadas mantiveram o turgor, enquanto as não inoculadas apresentaram murcha.

Os resultados ainda são experimentais. A seleção continua em casa de vegetação e deverá orientar novos testes em outras culturas e em condições de campo.

Fungos alcançam mais de 80% de mortalidade do bicudo em laboratório

Outra frente de pesquisa avalia fungos entomopatogênicos, organismos capazes de infectar e matar insetos, como alternativa para o controle do bicudo-do-algodoeiro.

Em testes laboratoriais, isolados de Metarhizium da coleção da Embrapa provocaram mortalidade superior a 80% dos insetos expostos. O próximo desafio é desenvolver formas de fazer o fungo entrar em contato com a praga nas condições de cultivo.

O resultado de laboratório não equivale à eficácia de um produto aplicado na lavoura. Barroso destacou que o desenvolvimento de bioinsumos exige avaliações de desempenho e segurança, além das etapas de registro.

A expectativa apresentada para novas soluções contra o bicudo, incluindo alternativas biológicas, é de três a seis anos, dependendo da evolução dos estudos e dos processos regulatórios.

Bioinsumos exploram funções de organismos benéficos

Barroso ressaltou que a biodiversidade do solo e das plantas oferece recursos para o manejo agrícola. Bactérias fixadoras de nitrogênio, fungos que atuam contra insetos e organismos que disponibilizam nutrientes estão entre os exemplos.

O objetivo é aproveitar essas funções para melhorar o desenvolvimento das culturas e contribuir para o controle de pragas e doenças, integrando os recursos biológicos às demais práticas agronômicas.

O pesquisador também chamou atenção para a produção de bioinsumos nas propriedades, conhecida como on-farm. Segundo ele, o processo requer conhecimento técnico, infraestrutura e controle de qualidade para evitar contaminações e assegurar a concentração dos organismos desejados.

Tecnologia com bactéria busca preservar desempenho sob estresse

A programação incluiu a apresentação do Auras, desenvolvido pela Embrapa em parceria com a NOOA. Conforme Lucas Carvalho, representante da empresa, a tecnologia utiliza a bactéria Priestia aryabhattai, anteriormente classificada como Bacillus aryabhattai.

O microrganismo foi isolado em pesquisas relacionadas à adaptação de plantas da Caatinga à seca. Segundo a apresentação, sua associação com as raízes pode favorecer o desenvolvimento radicular, a disponibilização de nutrientes e mecanismos de resposta ao estresse.

Na cultura do algodão, foi relatada proteção produtiva média de aproximadamente 18 arrobas por hectare em condições de estresse. O dado se refere aos resultados apresentados no evento e não constitui garantia de resposta em todas as situações de cultivo.

A proposta é complementar o melhoramento genético e o manejo agronômico, ampliando a capacidade de resposta das plantas às adversidades climáticas.

Vazio sanitário é parte central do manejo do bicudo

O pesquisador Fábio Aquino de Albuquerque, da Embrapa Algodão, destacou que o manejo integrado de pragas depende da combinação de medidas culturais, biológicas e químicas.

Entre as práticas preventivas, apontou a importância do vazio sanitário e da eliminação de rebrotas e plantas remanescentes de algodão. Essas estruturas podem manter alimento e locais de reprodução para o bicudo entre as safras.

Em experimento que simulou a ausência do vazio sanitário, com rebrota de plantas podadas, a infestação inicial chegou a aproximadamente 40% na primeira amostragem.

Albuquerque também ressaltou a preservação de predadores e parasitoides. O controle químico, segundo ele, deve ser orientado pelo monitoramento e pelo nível de controle da praga, evitando aplicações preventivas sucessivas que prejudiquem organismos benéficos.

Refúgio e monitoramento ajudam a preservar tecnologias de controle

A resistência de insetos foi outro ponto de atenção. Conforme Albuquerque, o uso intensivo de cultivares Bt sem refúgio adequado aumenta a pressão de seleção sobre populações de lagartas.

Em algumas regiões, o pesquisador relatou a necessidade de cinco a oito aplicações de inseticidas para o manejo dessas pragas, especialmente de Spodoptera.

A avaliação reforça a necessidade de integrar as tecnologias, acompanhar as populações no campo e preservar os mecanismos de controle disponíveis.

Drones permitem liberar inimigos naturais nas lavouras

O pesquisador Tardelly de Andrade Lima, doutorando da Embrapa, apresentou um sistema de drones para distribuir organismos utilizados no controle biológico.

A tecnologia emprega pequenos tubetes para acondicionar e liberar insetos benéficos durante o voo. Segundo Lima, o equipamento pode cobrir um hectare em aproximadamente oito minutos, reduzindo o deslocamento manual das equipes pela área.

Entre os agentes citados estão parasitoides utilizados contra o bicudo e espécies de Trichogramma, empregadas no controle de lagartas. O planejamento das liberações precisa acompanhar o desenvolvimento da cultura e a ocorrência das pragas.

Imagens aéreas direcionam a avaliação de problemas no campo

Além da distribuição de organismos, drones multiespectrais podem apoiar o monitoramento por meio de índices de vegetação, como NDVI e NDRE.

Os mapas permitem identificar diferenças de vigor e localizar pontos com desenvolvimento irregular. Entretanto, as imagens não determinam, por si só, a causa do problema: a confirmação depende de avaliação no campo.

A ferramenta ajuda a direcionar as equipes e pode favorecer intervenções localizadas, conforme o diagnóstico.

Agricultura familiar está entre os focos das pesquisas

A redução dos custos e a adaptação das soluções às pequenas propriedades também foram discutidas na ExpoCariri.

Lima apresentou pesquisas sobre a substituição de materiais importados utilizados na criação de parasitoides por alternativas mais acessíveis e reutilizáveis. Em um dos experimentos, uma equipe de duas pessoas produziu cerca de 2.500 parasitoides por semana.

Barroso acrescentou que o Campo Experimental da Embrapa em Barbalha deverá atuar como polo de testes e validação para a agricultura familiar, incluindo soluções voltadas à seca e ao bicudo.

A aproximação entre pesquisa e produtores busca ampliar o acesso às tecnologias e combinar eficiência produtiva com menor dependência de aplicações sucessivas de inseticidas na cotonicultura do semiárido.

Fonte: Portal do Agronegócio

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