Algodão ganha força no mercado global, mas expansão no Brasil dependerá da soja e do clima
Relatório Agro Mensal, do Itaú BBA, aponta queda da produção e dos estoques mundiais de algodão em 2026/27, enquanto o Brasil avalia ampliar a área cultivada diante de preços mais firmes
Publicado em: 16/09/2026 às 11:00hs
O mercado mundial de algodão entrou em uma fase mais favorável aos preços. A combinação entre menor produção global, redução dos estoques e expectativa de recuperação do consumo elevou a percepção de risco para a oferta e trouxe um viés mais construtivo para as cotações.
As perspectivas fazem parte da edição de setembro do Agro Mensal, relatório elaborado pela Consultoria Agro do Itaú BBA, que acompanha os principais fundamentos do mercado agrícola e destaca os fatores que podem influenciar o algodão na safra 2026/27.
Algodão registra forte valorização em Nova York
Em agosto, o algodão apresentou uma das altas mais expressivas entre as principais commodities agrícolas.
A média do primeiro vencimento na NYBOT chegou a US$ 0,85 por libra-peso, avanço de 9,7% em relação a julho.
Segundo o relatório, a valorização foi sustentada principalmente pela perspectiva de uma oferta mundial mais ajustada, pela piora das condições das lavouras nos Estados Unidos e pela expectativa de recuperação da demanda nos principais mercados consumidores.
A alta do petróleo e o desempenho positivo de outras commodities agrícolas também contribuíram para fortalecer as cotações internacionais.
Clima nos Estados Unidos aumenta preocupação com a oferta
O cenário climático ganhou importância para o mercado de algodão, principalmente nos Estados Unidos.
O Texas, principal estado produtor norte-americano, registrou condições de calor e seca que aumentaram as preocupações com a produtividade das lavouras e com os índices de abandono.
Esse quadro adicionou um prêmio climático aos contratos negociados em Nova York.
A preocupação não ficou restrita aos EUA. Na China, temperaturas elevadas em Xinjiang, principal região produtora de algodão do país, também aumentaram as incertezas sobre o rendimento da cultura.
Na Índia, apesar da melhora proporcionada pelo avanço das monções, os potenciais efeitos do El Niño continuam sendo monitorados pelo mercado.
Preços do algodão também avançam no Brasil
No mercado brasileiro, o movimento de alta foi mais moderado que em Nova York, mas ainda assim significativo.
Em Rondonópolis (MT), a média do algodão alcançou R$ 3,94 por libra-peso em agosto, alta de 3,9% na comparação mensal.
A valorização da pluma no mercado internacional, o comportamento do câmbio e a manutenção da demanda externa ajudaram a sustentar os preços brasileiros.
Por outro lado, a entrada da nova safra e o avanço do beneficiamento aumentaram a disponibilidade de algodão no mercado doméstico. Esse fator limitou uma valorização mais intensa da pluma no Brasil.
Produção mundial de algodão deve cair em 2026/27
Um dos principais fatores de sustentação para o mercado é a redução projetada da produção mundial.
De acordo com os números apresentados no relatório, a produção global de algodão deve passar de 26,5 milhões de toneladas em 2025/26 para 25,5 milhões de toneladas em 2026/27, queda de aproximadamente 4%.
Entre os principais produtores, os Estados Unidos devem produzir 2,9 milhões de toneladas, contra 3 milhões na temporada anterior.
A China também aparece com redução significativa: a produção projetada para 2026/27 é de 7,3 milhões de toneladas, ante 7,8 milhões de toneladas em 2025/26, queda de 6%.
No Brasil, a estimativa é de produção de aproximadamente 4 milhões de toneladas, ligeiramente abaixo das 4,1 milhões de toneladas previstas para a temporada anterior.
Estoques globais recuam e deixam mercado mais ajustado
Além da queda na produção, os estoques mundiais também devem diminuir.
O relatório do Itaú BBA aponta estoque final global de 15,2 milhões de toneladas em 2026/27, contra 16,4 milhões de toneladas na temporada anterior, uma redução de 7%.
A relação estoque/consumo também deve cair de 62% para 57%.
Esse movimento é importante porque indica uma redução da folga existente entre oferta e demanda. Com estoques menores, eventuais problemas climáticos ou produtivos podem provocar impactos mais relevantes sobre os preços.
O cenário, portanto, tende a deixar o mercado internacional de algodão mais sensível às condições climáticas e ao comportamento do consumo.
China reduz produção e pode ampliar necessidade de importações
A China permanece no centro das atenções do mercado mundial.
Embora as condições gerais das lavouras chinesas ainda estejam acima da média histórica, o desempenho é inferior ao registrado em 2025. Eventos climáticos localizados, como chuvas excessivas, granizo, ventos fortes, tempestades de poeira, temperaturas elevadas e períodos de seca, provocaram perdas de botões florais e maçãs em algumas regiões.
Com isso, a produção chinesa é estimada em 7,3 milhões de toneladas em 2026/27, contra 7,8 milhões de toneladas no ciclo anterior.
A redução da área plantada e a menor produtividade média também contribuem para diminuir o potencial de produção do país.
Brasil pode ampliar área de algodão na safra 2026/27
O cenário de preços mais atrativos aumenta a possibilidade de expansão da área cultivada com algodão no Brasil.
Com o avanço do beneficiamento da atual safra, os produtores começam a definir as sementes que serão utilizadas no próximo ciclo. A remuneração mais favorável da pluma cria incentivos para aumentar a área plantada.
Entretanto, a expansão ainda não está garantida.
Um dos principais fatores será o ritmo de plantio da soja. Como parte relevante do algodão brasileiro é cultivada em segunda safra, especialmente após a soja, a janela de semeadura da oleaginosa será determinante para definir quanto espaço estará disponível para o algodão.
Em outras palavras, quanto mais favoráveis forem as condições para o plantio e desenvolvimento da soja, maior será a influência sobre o calendário e o potencial de implantação do algodão de segunda safra.
Clima será decisivo para o algodão brasileiro
Além da soja, o comportamento do clima aparece como outro fator fundamental para a próxima temporada.
A expansão da área dependerá da combinação entre preços, disponibilidade de janela de plantio e condições climáticas adequadas.
O cenário global mais apertado cria uma oportunidade para os produtores brasileiros, mas também aumenta a importância da gestão de riscos. Eventuais problemas climáticos nos principais países produtores podem reduzir ainda mais a oferta mundial e ampliar a volatilidade dos preços.
Ao mesmo tempo, condições favoráveis no Brasil podem permitir aumento da produção e fortalecer a participação do país no comércio internacional de algodão.
Perspectiva para os preços é mais construtiva
Para o Itaú BBA, a combinação entre menor produção mundial e redução dos estoques reforça uma perspectiva mais positiva para as cotações do algodão.
O consumo global deve continuar crescendo, enquanto a produção projetada para 2026/27 recua.
Esse desequilíbrio reduz a margem de segurança do mercado e aumenta a importância do clima nos principais países produtores.
No Brasil, a possibilidade de aumento da área cultivada representa um potencial de resposta dos produtores ao cenário de preços mais favorável. No entanto, essa expansão dependerá principalmente do andamento da safra de soja e das condições climáticas ao longo da janela de plantio.
O que observar no mercado de algodão
Os principais fatores que devem movimentar o mercado nos próximos meses são:
- Clima nos Estados Unidos, especialmente no Texas;
- evolução das lavouras de algodão na China e na Índia;
- comportamento do consumo global;
- evolução dos estoques mundiais;
- ritmo do plantio da soja no Brasil;
- definição da área de algodão de segunda safra;
- comportamento do câmbio e das exportações brasileiras;
- evolução das cotações na NYBOT.
Conclusão
O mercado de algodão inicia a temporada 2026/27 com fundamentos mais favoráveis. A redução da produção mundial e dos estoques, combinada ao crescimento do consumo, cria um ambiente potencialmente positivo para os preços.
No Brasil, o cenário abre espaço para uma expansão da área cultivada, mas a decisão dos produtores estará diretamente ligada ao desempenho da soja e à regularidade das condições climáticas.
Assim, os próximos meses serão determinantes para definir o tamanho da próxima safra brasileira de algodão e o grau de participação do país em um mercado internacional que tende a permanecer mais sensível a choques de oferta.
Fonte: Portal do Agronegócio
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