USP desenvolve tecnologia para rastrear origem de carne, soja e madeira nos biomas brasileiros
Pesquisa combina assinaturas químicas, técnicas nucleares e inteligência artificial para identificar a procedência de commodities, combater fraudes e ampliar a transparência das cadeias produtivas
Publicado em: 10/09/2026 às 11:45hs
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão desenvolvendo uma metodologia capaz de rastrear a origem geográfica de carne bovina, soja e madeira produzidas no Brasil. O estudo analisa características químicas específicas dos produtos para identificar em qual região ou bioma eles foram produzidos.
A pesquisa é conduzida pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena/USP), em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o trabalho reúne amostras provenientes das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste. As informações obtidas em laboratório serão organizadas em uma base de dados e processadas por ferramentas de inteligência artificial e modelos estatísticos.
Rastreabilidade ganha importância no comércio internacional
O desenvolvimento da tecnologia ocorre em um momento de aumento das exigências internacionais relacionadas à procedência dos alimentos, ao controle sanitário e à sustentabilidade das cadeias agropecuárias.
A União Europeia exige que alimentos e produtos de origem animal importados cumpram critérios sanitários, controles de resíduos, certificações e requisitos de rastreabilidade. As normas europeias também condicionam a entrada desses produtos à aprovação dos países e dos estabelecimentos exportadores.
Nesse cenário, ferramentas científicas capazes de comprovar a origem de carne, soja e madeira podem reforçar a confiabilidade dos produtos brasileiros, reduzir riscos comerciais e oferecer informações complementares aos sistemas convencionais de rastreamento.
Assinaturas químicas podem revelar origem dos produtos
A metodologia parte do princípio de que cada região possui uma combinação própria de características ambientais. Clima, solo, relevo, vegetação e disponibilidade de água influenciam a composição química e isotópica dos organismos que se desenvolvem naquele território.
Esses elementos formam uma espécie de “assinatura química”, que pode permanecer registrada na carne bovina, nos grãos de soja e na madeira.
De acordo com Luiz Martinelli, pesquisador do Laboratório de Ecologia Isotópica do Cena/USP, a composição isotópica de plantas e animais reflete as condições do ambiente onde esses organismos se desenvolveram.
O clima, associado às características do solo e da topografia, funciona como um conjunto de filtros ambientais. Esses fatores interferem na vegetação, na disponibilidade de recursos naturais e nas espécies capazes de ocupar determinada região.
Água e pastagem ajudam a rastrear carne bovina
No caso da pecuária, a análise considera elementos presentes na alimentação e na água consumida pelos bovinos. A composição das pastagens e dos recursos hídricos pode fornecer informações relevantes sobre a região onde o animal foi criado.
Segundo Paulo Sergio Cardoso da Silva, pesquisador do Ipen, a proporção entre diferentes elementos químicos encontrados em uma amostra permite estabelecer relações com determinados territórios.
A água tem importância especial nesse processo porque sua composição isotópica varia de acordo com fatores como regime de chuvas, temperatura, altitude e localização geográfica. Essas características podem ser incorporadas ao organismo do animal e posteriormente identificadas em laboratório.
Técnicas nucleares ampliam precisão das análises
Os cientistas utilizam diferentes métodos analíticos para investigar os elementos químicos presentes nas amostras. Entre eles estão análises isotópicas e técnicas associadas à ciência nuclear.
Em vez de depender de apenas um indicador, o estudo cruza diversas variáveis. A combinação aumenta a capacidade de diferenciar produtos provenientes de áreas com características ambientais semelhantes.
A proposta é identificar padrões suficientemente consistentes para determinar a procedência de uma amostra desconhecida. Quanto maior e mais representativa for a base de referência, mais confiável poderá ser o modelo de rastreabilidade.
Inteligência artificial ajudará a identificar procedência
Os resultados laboratoriais serão reunidos em uma base de dados com informações ambientais e geográficas dos diferentes biomas brasileiros.
Ferramentas de inteligência artificial e modelos estatísticos serão treinados para reconhecer padrões e comparar novas amostras com as referências já catalogadas. A tecnologia poderá indicar a região de origem da carne, da soja ou da madeira analisada.
A integração entre química, ciência nuclear, geografia e inteligência artificial deverá tornar a identificação mais rápida e precisa, além de ampliar a capacidade de monitoramento das cadeias produtivas.
Biomas brasileiros apresentam características próprias
O Brasil possui grandes diferenças climáticas, geológicas e ecológicas entre seus biomas. Essas particularidades são fundamentais para a construção dos modelos científicos.
Na Amazônia, por exemplo, a elevada biodiversidade, o regime de chuvas e a ampla rede de recursos hídricos influenciam a composição das espécies vegetais e animais. Na Mata Atlântica, as características ambientais também são específicas, embora o bioma enfrente forte pressão da ocupação territorial e da exploração ilegal de recursos naturais.
Para Martinelli, um sistema robusto precisa considerar variáveis como clima, geologia, solo e tipo de vegetação. A utilização conjunta dessas informações permite distinguir com maior segurança os produtos florestais e agropecuários originados em cada bioma.
Tecnologia pode apoiar combate ao desmatamento e às fraudes
Além de oferecer informações aos consumidores, a metodologia poderá apoiar órgãos ambientais e autoridades responsáveis pela fiscalização.
A identificação científica da procedência ajudaria a verificar se a origem declarada por fornecedores corresponde às características encontradas nas amostras. Isso poderia contribuir para combater fraudes, exploração ilegal de madeira e produção agropecuária associada ao desmatamento irregular.
Para Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e integrante do MapBiomas, a rastreabilidade é importante para proteger áreas preservadas e comunidades tradicionais, além de evitar que produtores comprometidos com práticas sustentáveis sejam prejudicados no acesso aos mercados.
Rastreabilidade pode valorizar produtores sustentáveis
A comprovação da origem tende a ganhar importância à medida que compradores internacionais ampliam as exigências socioambientais. Nesse contexto, os produtores capazes de demonstrar conformidade ambiental e transparência poderão obter vantagens comerciais.
A tecnologia estudada pela USP não substituiria necessariamente os registros documentais, as identificações individuais dos animais ou o monitoramento por satélite. O método poderá funcionar como uma camada independente de verificação, comparando a procedência declarada com as características químicas do produto.
Essa combinação pode tornar as cadeias de carne bovina, soja e madeira mais transparentes, fortalecer a fiscalização e reduzir o risco de que produtos irregulares sejam misturados à produção legal.
Pesquisa pode transformar controle de commodities brasileiras
A formação de uma base nacional de assinaturas químicas poderá oferecer ao Brasil uma ferramenta estratégica para demonstrar a procedência de suas principais commodities.
Além de atender às demandas do comércio internacional, a tecnologia poderá aproximar consumidores dos territórios produtores, auxiliar empresas no gerenciamento de fornecedores e fortalecer políticas públicas voltadas à conservação dos biomas.
Com a combinação de análises laboratoriais, técnicas nucleares e inteligência artificial, a pesquisa busca transformar características naturais dos ecossistemas em evidências científicas sobre a origem dos produtos brasileiros.
Fonte: Portal do Agronegócio
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