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Pesquisas

Tratamento de sementes: material com extrato de pau-ferro mostra potencial e limitações em estudo

Pesquisa com participação da UFSCar avaliou germinação e crescimento inicial de cinco espécies; respostas variaram conforme a concentração e incluíram efeitos prejudiciais às plantas


Publicado em: 27/10/2026 às 13:30hs

Tratamento de sementes: material com extrato de pau-ferro mostra potencial e limitações em estudo

Um material híbrido desenvolvido com dióxido de titânio (TiO₂) e extrato de frutos de pau-ferro está sendo investigado como uma possibilidade para futuras formulações de tratamento de sementes. Em testes de laboratório, a combinação apresentou resultados distintos sobre a germinação e o crescimento inicial de milho, couve, alface, tomate e melancia.

A pesquisa reúne a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Universidade Regional de Blumenau (Furb). O trabalho recebeu destaque da revista científica Química Nova, divulgado no boletim da Sociedade Brasileira de Química (SBQ).

Os resultados indicam condições que merecem novas investigações, mas também revelam limitações: concentrações mais elevadas impediram a germinação de algumas espécies, enquanto determinados tratamentos reduziram o crescimento das raízes mesmo quando todas as sementes germinaram.

Material combina extrato vegetal e dióxido de titânio

O estudo utilizou frutos de Libidibia ferrea, árvore conhecida como pau-ferro, coletados em Itacoatiara, no Amazonas. Os pesquisadores prepararam um extrato com água e etanol, no qual identificaram flavonoides, taninos e outras substâncias fenólicas.

Na etapa seguinte, o extrato foi combinado com um precursor químico de titânio sob diferentes condições de acidez e alcalinidade. O material produzido em pH 9 foi selecionado para os experimentos com sementes.

A caracterização identificou pequenas regiões cristalinas de dióxido de titânio associadas a uma matriz orgânica proveniente do extrato. A presença desses dois componentes — inorgânico e orgânico — caracteriza a estrutura como um material híbrido.

Segundo Paulo José de Sousa Maia, professor do Departamento de Física, Química e Matemática do Campus Sorocaba da UFSCar, os compostos vegetais permanecem associados à formulação. Por isso, seus efeitos precisam ser avaliados em conjunto com os demais componentes.

O pesquisador ressalta que a origem vegetal de uma substância não garante sua segurança em qualquer condição de uso.

Concentração mais alta impediu germinação de três espécies

Os ensaios ocorreram em laboratório, com avaliação das sementes após 14 dias de exposição a diferentes concentrações do material.

Na maior concentração testada, equivalente a 1% da suspensão original, não houve germinação de alface, tomate e melancia. Na couve, apenas 12,5% das sementes germinaram.

O milho apresentou 100% de germinação nesse tratamento. Entretanto, suas raízes cresceram menos do que as do grupo de controle, que recebeu somente água.

Nas três concentrações inferiores — 0,1%, 0,01% e 0,001% —, todas as espécies alcançaram 100% de germinação final, resultado também observado no controle. A manutenção desse índice, porém, não representou melhora uniforme no desenvolvimento das plantas.

Crescimento das raízes revela diferenças entre as culturas

A avaliação das raízes mostrou que cada espécie respondeu de maneira própria aos tratamentos.

Na couve, as três menores concentrações proporcionaram maiores comprimentos médios das raízes. Na melancia, o maior crescimento médio ocorreu na concentração mais baixa. Milho e tomate apresentaram respostas variadas entre as formulações avaliadas.

A alface evidenciou a importância de analisar outros indicadores além da germinação. Na concentração de 0,01%, todas as sementes germinaram, mas o comprimento médio das raízes ficou em aproximadamente metade do registrado no grupo tratado apenas com água.

Para Maia, esses resultados demonstram que preservar a germinação não significa, necessariamente, favorecer o desenvolvimento vegetal. As evidências ainda são insuficientes para classificar o material como um bioestimulante de uso geral.

Aplicação no tratamento de sementes depende de novas pesquisas

Uma das possibilidades futuras é utilizar o material no desenvolvimento de formulações voltadas ao tratamento de sementes e ao estabelecimento inicial das plantas.

Antes de avançar para uma aplicação agrícola, será necessário padronizar as formulações, verificar sua estabilidade e aprofundar a avaliação de possíveis efeitos tóxicos. Os pesquisadores também precisam compreender o comportamento do material no solo e seus impactos sobre outros organismos.

Os próximos passos previstos incluem testes em casa de vegetação e, posteriormente, em campo. Essas etapas permitirão acompanhar o desenvolvimento das culturas e investigar eventuais efeitos sobre a produtividade.

Assim, os resultados obtidos até agora representam uma etapa experimental, sem comprovação de desempenho nas condições de uma lavoura comercial.

UFSCar também investiga hidrogéis para aplicações agrícolas

O trabalho integra uma linha de pesquisa da UFSCar dedicada ao desenvolvimento de materiais com potencial de uso na agricultura.

Entre as iniciativas em andamento estão estudos com hidrogéis associados a nanopartículas metálicas. Como esses materiais conseguem absorver e reter água, os pesquisadores investigam sua utilização em sistemas destinados a favorecer a germinação e o crescimento vegetal.

O objetivo, segundo Maia, é reunir evidências científicas que permitam desenvolver tecnologias com eficiência agronômica e segurança ambiental.

Cooperação entre universidades reúne diferentes especialidades

A pesquisa combinou conhecimentos de síntese e caracterização de materiais, análise de extratos vegetais e avaliação de respostas biológicas.

Na UFSCar, Maia participou da concepção do estudo, da metodologia, da supervisão e da coordenação do projeto, além da revisão do artigo, do qual é autor correspondente.

A equipe da Ufam contribuiu com os experimentos, a organização dos dados, a metodologia e a redação científica. Pela Furb, o professor Eduardo G. C. Neiva atuou na caracterização do material, na validação dos resultados e na revisão do trabalho.

Para os pesquisadores, a divulgação amplia o alcance de uma conclusão central do estudo: o desenvolvimento de novos materiais para a agricultura exige identificar tanto os possíveis benefícios quanto as condições em que podem ocorrer efeitos adversos.

Fonte: Portal do Agronegócio

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