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Pastagens

Árvore nativa melhora solo de pastagens e favorece estoque de carbono, aponta pesquisa

Estudo da Embrapa e da USP mostra que o bordão-de-velho amplia a diversidade de microrganismos e melhora a fertilidade do solo em sistema que integra árvores e pecuária


Publicado em: 27/10/2026 às 12:30hs

Árvore nativa melhora solo de pastagens e favorece estoque de carbono, aponta pesquisa
Foto: Nina Machado Suzigan

A integração da árvore nativa bordão-de-velho (Samanea tubulosa) às pastagens pode melhorar a fertilidade do solo, favorecer a diversidade microbiana e contribuir para a conservação do carbono. Os resultados são de uma pesquisa da Embrapa em parceria com o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP), realizada em Rondônia.

No experimento, o sistema silvipastoril com a espécie apresentou maior quantidade de matéria orgânica, menor acidez e maior diversidade de bactérias e arqueias em comparação à área integrada com eucalipto. O estoque de carbono no solo também foi estatisticamente semelhante ao observado em floresta nativa.

Além dos benefícios ao solo, o bordão-de-velho oferece sombra aos bovinos, produz vagens consumidas pelos animais e tem capacidade de fixar nitrogênio por meio da associação com bactérias nas raízes.

Pesquisa compara bordão-de-velho e eucalipto em pastagem

O trabalho foi conduzido no campo experimental da Embrapa Rondônia, em uma área de 14 hectares cultivada com capim-marandu. Em 2018, o terreno foi dividido em duas parcelas de mesmo tamanho: uma recebeu 156 mudas de bordão-de-velho e a outra, 172 mudas de eucalipto.

As coletas de solo ocorreram em 2022 e 2024, quatro e seis anos após a implantação das árvores, contemplando diferentes profundidades e distâncias dos troncos.

A pesquisa integra a tese de doutorado de Henrique Nery Cipriani, pesquisador da Embrapa Florestas, no Paraná, com orientação da professora Tsai Siu Mui, do Cena/USP, em Piracicaba.

Segundo Cipriani, a fertilidade encontrada na área com bordão-de-velho foi um dos principais destaques do estudo. A espécie, já considerada uma alternativa para arborização de pastagens, demonstrou benefícios adicionais relacionados à qualidade biológica e química do solo.

Influência sobre os microrganismos alcança cinco metros

A presença do bordão-de-velho modificou a comunidade microbiana do solo a até cinco metros de distância da árvore e em camadas mais profundas. Esse alcance não foi observado da mesma forma na parcela com eucalipto.

Na área com a espécie nativa, os pesquisadores identificaram maior proporção de microrganismos associados a processos envolvendo nitrogênio e à decomposição de compostos aromáticos. Conforme Cipriani, essa composição indica potencial para degradar determinadas moléculas tóxicas.

O estudo também apontou uma comunidade microbiana mais estável e com características associadas à maior resiliência diante de distúrbios ambientais.

A explicação está na interação entre plantas e organismos do solo. Cada espécie vegetal favorece grupos distintos de microrganismos. No caso do bordão-de-velho, a presença de bactérias e arqueias relacionadas ao ciclo do nitrogênio acompanha a capacidade da árvore de incorporar esse nutriente ao sistema.

Sistemas com árvores mantêm estoques de carbono próximos aos da floresta

Os dois sistemas silvipastoris apresentaram estoques de carbono no solo estatisticamente semelhantes entre si e aos da floresta nativa utilizada como referência.

Após o ajuste dos valores para considerar diferenças de compactação, os resultados foram:

  • Eucalipto: 107 toneladas de carbono por hectare;
  • Bordão-de-velho: 95 toneladas por hectare;
  • Floresta nativa: 78 toneladas por hectare.

Embora os valores numéricos tenham sido diferentes, a análise estatística não permite afirmar que um dos sistemas tenha superado os demais em estoque de carbono.

O bordão-de-velho também alcançou o maior Índice de Manejo de Carbono (CMI) entre os arranjos produtivos avaliados, com 91,13, diante da referência de 100 atribuída à floresta nativa. O indicador considera aspectos da quantidade e da qualidade do carbono orgânico e ajuda a avaliar os efeitos do manejo sobre o solo.

Na avaliação de Cipriani, os resultados sugerem que os sistemas preservaram o carbono ou recuperaram parte do estoque perdido após a conversão da área, ocorrida décadas antes.

Os dados reforçam o potencial da integração entre árvores e pastagens para o manejo do carbono. Entretanto, como o experimento foi realizado na Amazônia, a confirmação do desempenho em outros biomas depende de pesquisas locais.

Sombra, nitrogênio e alimentação ampliam interesse da pecuária

Pertencente à família Fabaceae, a mesma da soja e do feijão, o bordão-de-velho reúne características que favorecem seu uso em sistemas silvipastoris.

A copa ampla proporciona sombra ao rebanho, enquanto as vagens são procuradas pelos bovinos. A espécie também apresenta nodulação nas raízes associada a bactérias do gênero Rhizobium, envolvidas na fixação biológica de nitrogênio.

Embora seu aproveitamento madeireiro seja menos atrativo que o do eucalipto, o conjunto de serviços oferecidos pela árvore amplia seu interesse para propriedades pecuárias.

A Samanea tubulosa pode atingir aproximadamente 28 metros de altura e ocorre em diferentes regiões brasileiras. Conforme a localidade, recebe nomes como samaneiro, sete-cascas, farinha-seca, ingá-de-pobre e árvore-da-chuva.

Além da integração com pastagens, pode ser utilizada em sistemas agroflorestais e em projetos paisagísticos.

Espécies nativas abrem novas perspectivas para o manejo das pastagens

Os resultados das amostras coletadas em 2022 foram publicados na Revista Brasileira de Ciência do Solo, no artigo Native tree species in silvopastoral system outperforms Eucalyptus in enhancing soil health. A tese de Cipriani incorporou as análises das coletas de 2024, complementando a investigação.

Para a professora Tsai Siu Mui, o trabalho evidencia a contribuição da biodiversidade nativa para a ciclagem de nutrientes, a saúde do solo e o armazenamento de carbono em sistemas agropecuários tropicais.

A pesquisa indica que a escolha das árvores pode influenciar o funcionamento do sistema silvipastoril. No caso do bordão-de-velho, os ganhos observados em fertilidade e diversidade microbiana reforçam seu potencial como alternativa para integrar produção pecuária e conservação do solo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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