Bactérias reduzem em cerca de 60% a severidade de doença do trigo em estudo da Embrapa e USP
Experimentos em condições controladas mostram que microrganismos benéficos reorganizam o microbioma das raízes e reforçam a proteção das plantas, mesmo com a permanência do fungo no solo.
Publicado em: 26/10/2026 às 16:00hs
Bactérias benéficas reduziram em aproximadamente 60% a severidade de sintomas causados pelo fungo Bipolaris sorokiniana no trigo, em experimentos conduzidos pela Embrapa Meio Ambiente e pela Universidade de São Paulo (USP). O resultado aponta possibilidades para desenvolver estratégias de controle biológico baseadas no equilíbrio dos microrganismos associados às raízes.
A pesquisa foi realizada em condições controladas e identificou proteção mesmo quando a população do fungo permaneceu estável ou aumentou em alguns tratamentos. O efeito esteve relacionado à reorganização da rizosfera, região do solo influenciada pelas raízes, e à recuperação de funções microbianas associadas à defesa vegetal.
Coordenado por Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, o trabalho avaliou três bactérias e suas interações com o trigo e o patógeno.
Proteção do trigo não depende apenas de eliminar o fungo
O Bipolaris sorokiniana está associado a doenças como mancha-marrom, podridão radicular, podridão da coroa, queima de plântulas e ponto preto nos grãos, também chamado de black point. Sua importância econômica é especialmente relevante em ambientes quentes ou sujeitos à deficiência hídrica.
Nos experimentos, os pesquisadores compararam plantas expostas somente ao fungo com plantas que também receberam bactérias benéficas. Os tratamentos bacterianos apresentaram menor severidade da doença.
Segundo Caroline Nishisaka, pesquisadora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP), os inoculantes remodelaram a comunidade microbiana, recuperando funções ecológicas importantes e fortalecendo mecanismos naturais de resistência das plantas.
Para Hélio Quevedo, doutor em Microbiologia Agrícola pela Esalq-USP, a permanência do fungo sem danos proporcionais mostra que o controle biológico pode funcionar sem eliminar o patógeno. O equilíbrio funcional do microbioma pode limitar sua ação sobre a cultura.
Pseudomonas apresenta os resultados mais expressivos
A equipe avaliou as bactérias "Streptomyces virginiae CMAA1738, Paenibacillus ottowii CMAA1739 e Pseudomonas inefficax CMAA1741".
As três apresentaram características de interesse agrícola, incluindo potencial para promover crescimento vegetal, aumentar a disponibilidade de fósforo e atuar contra o fungo.
Entre elas, a "Pseudomonas inefficax se destacou pela redução da severidade da doença e pelo maior desenvolvimento das raízes", além da capacidade de disponibilizar fósforo às plantas.
Embora representasse menos de 2,5% dos microrganismos detectados ao final dos experimentos, sua introdução provocou mudanças amplas na comunidade da rizosfera, favorecendo grupos associados à proteção vegetal.
Os pesquisadores observaram que as bactérias influenciaram a organização desse microbioma de forma mais intensa que a própria presença do fungo.
Comunidade microbiana recupera funções de defesa
As análises também identificaram mudanças no funcionamento dos microrganismos. A infecção pelo Bipolaris sorokiniana reduziu a presença de genes associados ao crescimento vegetal e afetou processos ligados à proteção das plantas.
Nos tratamentos com "Streptomyces virginiae e Pseudomonas inefficax", houve recuperação dessas funções, com aumento de genes relacionados à resistência ao estresse e à produção de substâncias envolvidas na defesa vegetal.
Segundo Thierry Pellegrinetti, pesquisador do Cena-USP, as bactérias também contribuíram para restaurar a capacidade da comunidade microbiana de produzir compostos naturais que ajudam a combater patógenos — função prejudicada pela presença do fungo.
Experimentos utilizaram trigo BRS Guamirim e solo de São Paulo
As bactérias foram isoladas da rizosfera de variedades tradicionais de trigo da Turquia e do Irã. Para os testes, a equipe utilizou a cultivar BRS Guamirim, cultivada em solo agrícola coletado em Assis (SP).
O estudo combinou técnicas para identificar os microrganismos presentes, investigar seus genes e funções e quantificar o fungo. Foram empregados sequenciamento metataxonômico e metagenômico, qPCR e ferramentas de bioinformática.
Para Rodrigo Mendes, os resultados podem orientar o desenvolvimento de inoculantes biológicos mais eficientes, com potencial para reduzir a dependência de fungicidas químicos. A redução de cerca de 60% observada no estudo corresponde às condições experimentais avaliadas e ainda não representa uma estimativa de desempenho em lavouras comerciais.
Fonte: Portal do Agronegócio
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