Embrapa e Itaipu triplicam retenção de água com novos terraços agrícolas no Paraná
Uso de drones e modelagem digital orientou o redimensionamento das estruturas em 115 hectares de Toledo, com redução da erosão e melhorias para o tráfego de máquinas
Publicado em: 26/10/2026 às 12:30hs
A aplicação de geotecnologias no planejamento de terraços agrícolas ampliou em mais de três vezes a capacidade de retenção de água e reduziu a erosão em uma área de 115 hectares na bacia hidrográfica de Toledo, no oeste do Paraná. O trabalho, desenvolvido pela Embrapa Soja e pela Itaipu Binacional, combinou levantamentos com drones, modelagem digital do terreno e informações sobre a infiltração de água no solo.
Na área estudada, 43 terraços considerados ineficientes foram substituídos por 29 estruturas redimensionadas. Com a intervenção, a capacidade de retenção passou de 22 milímetros para 71 milímetros, enquanto a altura média dos terraços aumentou de 0,26 metro para 0,72 metro.
Os resultados oferecem uma referência para outras regiões: segundo os pesquisadores, as condições da área analisada são semelhantes às encontradas em aproximadamente 2 milhões de hectares no Paraná.
Geotecnologia aprimora o planejamento dos terraços agrícolas
Os terraços são estruturas de conservação que interceptam o escoamento superficial da chuva, ajudam a conter a erosão e favorecem a infiltração de água. Sua utilização continua necessária mesmo em áreas conduzidas sob o sistema plantio direto.
Tradicionalmente, a avaliação dessas estruturas considera principalmente características geométricas, como altura e largura. Entretanto, esses parâmetros, isoladamente, não explicam todo o comportamento da água no campo nem asseguram proteção diante de chuvas intensas.
De acordo com o pesquisador Júlio Franchini, da Embrapa Soja, o estudo integrou taxa de infiltração, modelos digitais de elevação e Sistemas de Informação Geográfica (SIGs) para identificar falhas e orientar intervenções.
A abordagem permitiu avaliar a relação entre o relevo, a água que infiltra no solo, o volume de enxurrada e a capacidade de armazenamento de cada terraço. Assim, o planejamento passou a considerar o funcionamento do conjunto, além das dimensões individuais das estruturas.
Chuva de 160 milímetros evidenciou necessidade de intervenção
Um episódio registrado em outubro de 2017 demonstrou a vulnerabilidade do sistema existente na bacia de Toledo. Na ocasião, uma precipitação de 160 milímetros em cerca de 18 horas provocou transbordamentos nos terraços e uma perda estimada de 7.500 metros cúbicos de solo.
O evento reforçou a necessidade de revisar o dimensionamento das estruturas. Para elaborar o novo projeto, a equipe utilizou modelos digitais de elevação obtidos com drones e o software Terraço 4.1, desenvolvido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Com essas ferramentas, os pesquisadores definiram uma nova configuração para interceptar o escoamento e ampliar a retenção de água na microbacia.
Novo espaçamento facilita a operação de máquinas
O redimensionamento também considerou as mudanças no porte do maquinário agrícola. Equipamentos maiores e mais pesados exigem espaço adequado para circulação e manobras, o que pode ser dificultado pela disposição dos terraços tradicionais.
Na área do projeto, a distância horizontal média entre os terraços aumentou de 28 metros para 51 metros, com espaçamento vertical de aproximadamente 3 metros.
A proposta foi conciliar a eficiência na conservação do solo com as necessidades operacionais das propriedades. Segundo Franchini, a nova disposição buscou facilitar o tráfego e reduzir as manobras, fatores associados ao risco de compactação pelo trânsito de máquinas.
Monitoramento confirmou eficiência entre 2019 e 2024
A avaliação em campo demonstrou o desempenho das estruturas após a intervenção. Entre 2019 e 2024, a microbacia enfrentou eventos de chuva superiores a 30 milímetros por dia sem apresentar sinais de erosão ou formação de sulcos, conforme os pesquisadores.
O acompanhamento confirmou a maior eficiência dos terraços redimensionados na interceptação do fluxo de água e de sedimentos.
Os resultados reforçam a importância de ajustar o terraceamento às características do terreno e ao comportamento hidrológico de cada área, com dimensionamento técnico compatível com as condições locais.
Indicador identifica estruturas próximas do limite de segurança
Em uma etapa complementar da pesquisa, a equipe introduziu o conceito de Capacidade Estrutural Relativa (CER) para tornar mais preciso o diagnóstico dos sistemas de terraceamento.
Segundo Henrique Debiasi, pesquisador da Embrapa Soja, o indicador relaciona o volume de água que o terraço consegue reter ao escoamento superficial gerado pela chuva. A avaliação permite classificar as estruturas em três condições:
- Seguras: apresentam capacidade adequada para as condições avaliadas.
- Marginais: operam próximas do limite de segurança e são mais sensíveis às condições hidrológicas e ao manejo.
- Sujeitas a falhas: apresentam insuficiência estrutural diante do escoamento considerado.
A classificação ajuda a distinguir situações em que melhorias no manejo do solo podem ser suficientes daquelas que exigem reforma, redimensionamento ou reconfiguração do terraceamento.
A identificação da condição marginal também permite reconhecer estruturas vulneráveis antes que ocorram rompimentos ou outros problemas.
Metodologia pode ampliar a conservação do solo no Paraná
Para Franchini e Debiasi, o trabalho oferece uma metodologia replicável para apoiar o planejamento de intervenções em bacias hidrográficas paranaenses.
A expectativa é que os resultados orientem decisões sobre a necessidade de reformar terraços, fortaleçam a gestão preventiva das propriedades e contribuam para políticas públicas de conservação do solo e da água.
A adoção em novas áreas de referência deverá considerar as características locais de relevo, infiltração, escoamento e manejo, que determinam o dimensionamento adequado de cada sistema.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias