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Pesquisas

Plantas raras consideradas desaparecidas há três décadas são redescobertas em Minas Gerais

Pesquisadores localizaram novas populações de espécies endêmicas no Quadrilátero Ferrífero; estudo amplia dados científicos e desenvolve técnicas de germinação, conservação genética e restauração ambiental


Publicado em: 25/08/2026 às 15:00hs

Plantas raras consideradas desaparecidas há três décadas são redescobertas em Minas Gerais
Foto: Matheus Zaza

Espécies raras de plantas que estavam sem registros na natureza havia cerca de três décadas foram redescobertas no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais. As novas populações foram identificadas por um grupo de botânicos em áreas protegidas, dentro de um projeto dedicado à conservação da flora endêmica da região.

Entre as espécies localizadas estão Paepalanthus magalhaesii e Coracoralina amoena, plantas popularmente associadas às sempre-vivas e aos “chuveirinhos”, típicos das serras mineiras. Ambas são endêmicas dos campos rupestres de Minas Gerais, o que significa que sua ocorrência natural está restrita a essa região.

As descobertas fazem parte do Projeto de Conservação de Espécies Raras e Endêmicas do Quadrilátero Ferrífero, desenvolvido desde 2014 pela Vale em parceria com universidades e instituições de pesquisa.

Além de confirmar que as plantas ainda sobrevivem na natureza, o trabalho ampliou o conhecimento sobre a distribuição geográfica das espécies e forneceu material para estudos de propagação e conservação.

Espécies sobrevivem em ambiente de condições extremas

Os campos rupestres estão entre os ecossistemas de maior biodiversidade e endemismo do planeta. Desenvolvidas sobre áreas montanhosas e rochosas, essas formações apresentam solos rasos, poucos nutrientes, alta exposição solar e períodos de baixa disponibilidade de água.

Mesmo diante dessas condições, abrigam uma grande quantidade de espécies adaptadas exclusivamente ao ambiente. Muitas delas apresentam distribuição geográfica extremamente restrita, o que aumenta sua vulnerabilidade diante de incêndios, mudanças climáticas, ocupação territorial e outras alterações no habitat.

As sempre-vivas estão entre as plantas mais conhecidas dessas paisagens. Suas flores delicadas conservam a aparência e a estrutura mesmo depois de secas, característica que deu origem ao nome popular.

Paepalanthus magalhaesii volta a ser encontrada na natureza

Descrita no início do século XX, a Paepalanthus magalhaesii ocorre exclusivamente nos campos rupestres do Quadrilátero Ferrífero. Durante décadas, a ausência de novos registros levou pesquisadores a considerar a possibilidade de que a espécie tivesse desaparecido da natureza.

A planta cresce rente ao chão e forma pequenos conjuntos de folhas verdes. Deles surgem hastes finas que sustentam flores arredondadas, geralmente brancas ou em tonalidade creme, semelhantes a pequenos pompons entre as rochas.

Expedições científicas realizadas em áreas protegidas identificaram novas populações em Capanema, Capivari I, Capivari II e Cata Branca, entre os municípios mineiros de Itabirito, Rio Acima e Ouro Preto.

As descobertas confirmam a sobrevivência da espécie e indicam que essas áreas preservadas mantêm parcelas relevantes da flora exclusiva das serras de Minas Gerais.

Pesquisa também localiza a rara Coracoralina amoena

Outra espécie encontrada foi a Coracoralina amoena, considerada uma das plantas mais raras dos campos rupestres mineiros. Sua ocorrência natural também está limitada ao Quadrilátero Ferrífero.

A planta vive em ambientes rochosos, com solo pouco profundo, elevada incidência de radiação solar e escassez de água durante parte do ano. Suas flores claras se destacam entre as pedras e ajudam a compor a biodiversidade característica da região.

A literatura científica chegou a apontar a possibilidade de a espécie não existir mais na natureza. A localização de novas populações modifica esse cenário e cria oportunidades para aprofundar estudos sobre distribuição, reprodução e conservação.

Projeto gera a maior parte dos registros atuais

Além de redescobrir as espécies, as pesquisas realizadas desde 2014 aumentaram significativamente a quantidade de informações disponíveis em bases científicas.

Aproximadamente 70% dos registros atuais de Paepalanthus magalhaesii foram gerados pelos trabalhos conduzidos no âmbito do projeto. Para a Coracoralina amoena, as pesquisas representam cerca de 40% dos registros disponíveis.

Os dados ajudam cientistas a estimar a extensão de ocorrência, identificar ameaças, avaliar o estado de conservação e definir áreas prioritárias para proteção.

Esse conhecimento também pode subsidiar planos de manejo, programas de recuperação ambiental e estratégias destinadas a evitar o desaparecimento de espécies endêmicas.

Cientistas buscam técnicas de germinação e propagação

O material botânico coletado foi encaminhado a um laboratório da Universidade de São Paulo (USP), que integra a Rede Propagar. Os pesquisadores trabalham no desenvolvimento de técnicas de germinação, propagação e conservação genética das espécies.

A engenheira florestal da Vale, Ana Amoroso, explica que ainda existem poucas informações técnicas sobre a reprodução e a produção de muitas plantas endêmicas dos campos rupestres do Quadrilátero Ferrífero.

Segundo ela, a pesquisa poderá contribuir para a sobrevivência das espécies, apoiar a elaboração de planos de conservação e manejo e ampliar o conhecimento científico sobre uma das floras mais singulares do Brasil.

O desenvolvimento de protocolos de germinação é considerado uma etapa estratégica. Algumas plantas raras apresentam sementes com dormência, crescimento lento ou exigências ambientais específicas, fatores que dificultam a produção de mudas fora do habitat natural.

Conhecimento poderá apoiar restauração ambiental e viveiristas

Os resultados também poderão ser aplicados em projetos de recuperação de áreas degradadas. Com técnicas adequadas de propagação, será possível produzir mudas de espécies nativas e ampliar sua utilização em ações de restauração dos campos rupestres.

A professora Maria Zucchi, da APTA Regional de Piracicaba, avalia que o trabalho deverá viabilizar novas estratégias de conservação e recuperação da biodiversidade do Quadrilátero Ferrífero.

Parte do conhecimento será compartilhada por meio de cartilhas e outros materiais de comunicação destinados a pequenos produtores e viveiristas. A iniciativa poderá estimular a produção e a distribuição legal de espécies nativas, aliando conservação ambiental e geração de oportunidades econômicas para comunidades locais.

Áreas protegidas preservam Mata Atlântica e Cerrado

A Vale mantém 13 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) no Quadrilátero Ferrífero, que somam mais de 6 mil hectares. Considerando outras formas de proteção e servidão ambiental, a empresa informa possuir aproximadamente 80 mil hectares de áreas preservadas.

Esses territórios protegem remanescentes de Mata Atlântica, Cerrado e campos rupestres, além de contribuir para a formação de corredores ecológicos.

As áreas também ajudam a conservar serviços ecossistêmicos essenciais, como fornecimento de água, regulação climática, proteção do solo e polinização. Além da biodiversidade, mantêm paisagens naturais e ambientes de relevância histórica e cultural.

Capanema abriga espécies endêmicas e ameaçadas

Entre as áreas onde as plantas foram encontradas está Capanema, com 305 hectares distribuídos entre Ouro Preto e Santa Bárbara.

A reserva protege remanescentes de Mata Atlântica e campos rupestres, abrigando espécies endêmicas e ameaçadas. A área integra um corredor de conservação formado por outras RPPNs, como Horto Alegria I, II e III e Capivari I, além de unidades de conservação existentes na região.

A redescoberta de plantas consideradas desaparecidas reforça a importância da pesquisa de campo e da proteção de habitats naturais. Também evidencia que áreas preservadas podem guardar espécies ainda pouco conhecidas pela ciência e fundamentais para a manutenção da biodiversidade brasileira.

Fonte: Portal do Agronegócio

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