Embrapa identifica arroz mais resistente à cigarrinha, praga capaz de causar perda total da lavoura
Cultivar BRS A705 e genótipo BGA 6914 apresentaram menor preferência da sogata e poderão contribuir para o desenvolvimento de variedades mais resistentes
Publicado em: 25/08/2026 às 14:00hs
Pesquisas conduzidas pela Embrapa Arroz e Feijão, em Goiás, identificaram dois materiais de arroz com maior resistência à cigarrinha-do-arroz, inseto que ganhou importância nas lavouras brasileiras nos últimos anos. A cultivar BRS A705 e o genótipo BGA 6914 foram os materiais menos afetados pela praga nos experimentos.
Também conhecida como sogata, a cigarrinha da espécie Tagosodes orizicolus alimenta-se da seiva das plantas e pode atacar tanto o arroz irrigado quanto as lavouras cultivadas em terras altas. Dependendo da intensidade da infestação, as perdas podem chegar a 100% da produção.
A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de novas cultivares e reforça o uso de plantas resistentes como uma das estratégias do manejo integrado de pragas na rizicultura.
Cigarrinha-do-arroz preocupa produtores brasileiros
A sogata é um inseto pequeno, com tamanho entre 2 e 3 milímetros, semelhante à cabeça de um alfinete. Apesar das dimensões reduzidas, suas populações podem aumentar rapidamente e causar danos expressivos.
A praga suga a seiva das folhas, dos colmos e das panículas do arroz. O ataque provoca sintomas como:
- Amarelecimento das plantas;
- Secamento e morte das folhas;
- Redução da capacidade fotossintética;
- Enfraquecimento das plantas;
- Queda da produtividade;
- Formação de grandes áreas danificadas dentro da lavoura.
Durante a alimentação, a cigarrinha também elimina uma substância rica em açúcar, que favorece o crescimento do fungo responsável pela fumagina. A doença forma uma camada escura sobre as folhas e reduz a superfície disponível para a realização da fotossíntese.
Surtos cresceram a partir de 2018
De acordo com José Alexandre Barrigossi, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão e um dos coordenadores dos estudos, a cigarrinha-do-arroz é considerada uma praga emergente no Brasil.
O inseto já estava presente no País, mas não representava uma ameaça significativa para as lavouras. Esse cenário começou a mudar com o registro de surtos regionalizados em áreas produtoras.
As primeiras ocorrências recentes foram relatadas em lavouras irrigadas de Santa Catarina a partir de 2018. Em 2020, novas infestações foram observadas em outras regiões, incluindo o Vale do Paraíba, em São Paulo.
“Até bem pouco tempo, a cigarrinha-do-arroz não chamava a atenção dos agricultores, porque não eram registradas ocorrências de altas populações da praga no País”, explica Barrigossi.
Calor e redução de inimigos naturais podem favorecer a praga
Os pesquisadores ainda investigam os fatores responsáveis pelo aumento das infestações. Uma das hipóteses está relacionada à ocorrência de verões mais secos e quentes, condições que podem favorecer a reprodução e a multiplicação do inseto.
Outro fator considerado é o uso indiscriminado de inseticidas. Embora aplicados para combater diferentes pragas, esses produtos podem reduzir as populações de inimigos naturais responsáveis pelo controle biológico da sogata.
Segundo Barrigossi, a presença desses organismos benéficos possivelmente ajudava a manter as populações da cigarrinha em níveis baixos. A redução desse controle natural pode ter contribuído para o surgimento dos surtos.
Por ainda ser considerada uma praga emergente, a cigarrinha-do-arroz não está incluída entre os principais insetos que atacam a cultura. Atualmente, segundo o pesquisador, não existem inseticidas registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) especificamente para seu controle.
BRS A705 e BGA 6914 apresentam maior resistência
Ao longo de dois anos, a Embrapa realizou experimentos para avaliar o nível de resistência de cultivares e identificar fontes genéticas que possam ser incorporadas ao programa de melhoramento do arroz.
Os testes foram conduzidos em laboratório e casa telada, em ambientes controlados, no município de Santo Antônio de Goiás. Os pesquisadores analisaram diferentes aspectos da interação entre o inseto e a planta, incluindo:
- Preferência alimentar da cigarrinha;
- Intensidade da alimentação;
- Reprodução da praga;
- Desenvolvimento dos insetos;
- Taxa de sobrevivência.
Entre os materiais avaliados, a cultivar BRS A705 e o genótipo BGA 6914 foram os menos procurados pela cigarrinha para alimentação. Os dois também provocaram efeitos negativos mais intensos sobre o desenvolvimento e a sobrevivência da praga.
A BRS A705 foi lançada pela Embrapa em 2022. Já o BGA 6914 permanece conservado no Banco Ativo de Germoplasma da Embrapa Arroz e Feijão e poderá ser utilizado como fonte de genes de resistência em novos cruzamentos.
Descoberta pode acelerar criação de novas cultivares
A identificação de materiais resistentes representa um avanço para o melhoramento genético do arroz. A cultivar e o genótipo poderão atuar como doadores de genes para o desenvolvimento de novas variedades menos vulneráveis à sogata.
“A identificação dessas fontes de resistência é um importante passo para apoiar o controle da cigarrinha-do-arroz”, afirma Barrigossi.
Segundo o pesquisador, mesmo uma cultivar que não apresente resistência total pode ajudar a diminuir a intensidade das infestações quando utilizada em conjunto com outras ferramentas de manejo. Essa combinação também pode reduzir a necessidade de aplicações químicas.
O uso de plantas resistentes oferece ainda a vantagem de proteger a lavoura desde o início do desenvolvimento, sem exigir uma operação adicional do produtor durante o ciclo da cultura.
Manejo integrado é a estratégia mais sustentável
A Embrapa recomenda que o controle da sogata seja baseado no manejo integrado de pragas, sistema que combina diferentes métodos para manter a população do inseto abaixo do nível capaz de provocar prejuízos econômicos.
A utilização exclusiva do controle químico nem sempre apresenta a melhor eficiência e pode afetar organismos benéficos existentes na lavoura. Por isso, cultivares resistentes, monitoramento, controle biológico e boas práticas agrícolas devem atuar de forma complementar.
As próximas etapas da pesquisa deverão incluir:
- Criação de sistemas de monitoramento das infestações;
- Desenvolvimento de cultivares mais resistentes;
- Avaliação de agentes de controle biológico;
- Pesquisa de bioinseticidas;
- Testes com produtos químicos;
- Aprimoramento das estratégias de manejo integrado.
Praga também se desenvolve em outras gramíneas
A cigarrinha-do-arroz possui importância econômica no norte da América do Sul, especialmente na Colômbia, Venezuela, Equador e Peru, além de países do Caribe, como Cuba.
Embora o arroz seja seu hospedeiro preferencial, o inseto também pode se desenvolver em outras gramíneas, como aveia, trigo, cevada, centeio e sorgo.
Nas lavouras de arroz, a sogata pode surgir a partir da fase de perfilhamento e alcançar populações elevadas durante o verão. Os adultos geralmente chegam voando de áreas próximas e se instalam inicialmente nas bordas dos cultivos.
À medida que a população aumenta, a praga avança para o interior da lavoura e forma grandes reboleiras. Nessas áreas, os sintomas de amarelecimento, secamento e morte das plantas tornam-se mais intensos.
Os resultados completos do estudo estão disponíveis na publicação técnica “Avaliação de genótipos de arroz para resistência à Sogata”.
Fonte: Portal do Agronegócio
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