Pesquisa da Unesp usa resíduos de óleos essenciais para combater doenças em frutas
Estudo desenvolvido no câmpus de Registro avalia hidrolatos no controle da antracnose e rende reconhecimento nacional a jovem agrônomo
Publicado em: 08/09/2026 às 08:30hs
Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) está transformando resíduos da produção de óleos essenciais em potenciais aliados no controle de doenças que afetam frutas. Desenvolvido no câmpus de Registro (SP), o estudo avalia o uso de hidrolatos contra a antracnose, enfermidade capaz de provocar perdas expressivas durante o amadurecimento e a comercialização dos frutos.
O trabalho marcou a trajetória acadêmica do recém-formado agrônomo Pedro Ferreira da Silva Neto, que acumulou importantes reconhecimentos na iniciação científica. Bicampeão do Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Unesp, ele também conquistou destaque nacional em 2026 durante a Jornada Nacional de Iniciação Científica (JNIC), realizada na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Na jornada da SBPC, encerrada no início de agosto, Pedro Neto recebeu o prêmio nacional da sessão de pôsteres. Antes disso, havia alcançado o primeiro lugar entre os trabalhos da área de Ciências Agrárias no CIC da Unesp em 2024 e 2025.
Hidrolatos podem ganhar nova função na fruticultura
As premiações acompanharam a evolução de uma mesma linha de pesquisa conduzida pelo Grupo de Pesquisa Doenças de Plantas Frutíferas, coordenado pela professora Maria Cândida de Godoy Gasparoto.
O estudo investiga o potencial dos hidrolatos, materiais gerados durante a fabricação de óleos essenciais, para o manejo de doenças em plantas frutíferas. Esses compostos representam a maior parcela dos resíduos resultantes do processo industrial e, muitas vezes, são descartados.
A proposta dos pesquisadores é avaliar se os hidrolatos podem ser reaproveitados como alternativa no controle fitossanitário, agregando valor a um subproduto industrial e contribuindo para práticas mais sustentáveis na agricultura.
O trabalho começou com a identificação dos efeitos desses materiais sobre agentes causadores de doenças. Posteriormente, avançou para a análise da estabilidade dos compostos e chegou à etapa de aplicação direta nos frutos.
Atualmente, o foco principal é o controle da antracnose, doença de grande importância econômica para a fruticultura.
Antracnose ameaça frutas mesmo depois da colheita
A antracnose apresenta uma dinâmica diferente de doenças que provocam sintomas ainda durante o cultivo. O agente causador pode permanecer no fruto sem manifestações visíveis enquanto ele está verde e avançar rapidamente à medida que ocorre o amadurecimento.
Segundo Pedro Neto, as transformações fisiológicas verificadas nessa fase criam condições mais favoráveis ao desenvolvimento do fungo.
“A antracnose é uma doença pós-colheita e, por isso, tem uma dinâmica de interação diferente. Quando o fruto está no campo e ainda está verde, ele pode ter contato com o patógeno sem apresentar sintomas”, explica o pesquisador.
Nesse estágio, o fruto possui maior concentração de determinadas substâncias, especialmente o amido, que ainda não foi convertido em açúcar. Com o amadurecimento, essa composição começa a mudar.
Nos frutos climatéricos, como o mamão, as transformações continuam mesmo após a colheita. A conversão do amido em açúcar e as alterações em outros compostos favorecem o avanço do fungo, permitindo que a doença evolua rapidamente e comprometa a qualidade comercial do produto.
A característica aumenta o risco de prejuízos ao longo da cadeia produtiva, pois as perdas podem ocorrer durante o armazenamento, o transporte e a exposição das frutas nos pontos de venda.
Pesquisa começou com bolsa de iniciação tecnológica
A trajetória científica de Pedro Neto na Unesp teve início em 2024, quando ele recebeu uma bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O projeto deu origem aos trabalhos apresentados e premiados nos anos seguintes. Ao longo desse período, a pesquisa ganhou novas etapas, aprofundando a avaliação do potencial dos hidrolatos para utilização na fruticultura.
A aproximação do jovem com a Unesp ocorreu depois de sua primeira experiência no ensino superior em Santa Catarina. Em 2020, aos 17 anos, ele ingressou no Instituto Federal de Rio do Sul, onde permaneceu durante dois anos.
Com a interrupção das atividades acadêmicas presenciais durante a pandemia, Pedro retornou a São Paulo e decidiu procurar uma instituição mais próxima da família. Depois de participar de diferentes processos de transferência externa, ingressou no curso de Engenharia Agronômica da Unesp em Registro.
“Eu me apaixonei pelo curso quando entrei na Unesp. Fui percebendo que o mundo da agronomia é gigantesco e que existem várias áreas diferentes dentro da profissão”, afirma.
Acompanhamento próximo impulsionou formação científica
Para a professora Maria Cândida de Godoy Gasparoto, o desempenho alcançado pelo estudante está relacionado à maturidade científica construída durante a graduação e à relevância da pesquisa.
“Um trabalho se faz com pessoas que estão dispostas a defendê-lo de maneira argumentativa, com base em ciência”, ressalta a orientadora.
A docente também destaca que a formação ocorreu em um câmpus de menor porte e dentro de um grupo de pesquisa reduzido. Essa estrutura permitiu um acompanhamento mais próximo e contribuiu para o desenvolvimento pessoal, acadêmico e científico do estudante.
Além dos resultados obtidos em congressos, a trajetória mostra como a iniciação científica pode aproximar a formação universitária de desafios concretos da agricultura. Ao investigar o reaproveitamento de resíduos da indústria de óleos essenciais, o trabalho abre perspectivas para novas estratégias de controle de doenças pós-colheita e para a redução das perdas na cadeia de frutas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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