Pesquisa da Embrapa revela avanço no uso de fungo natural contra podridão cinzenta em culturas agrícolas
Ajustes no cultivo do fungo Clonostachys rosea aumentam sua eficiência no controle biológico de doenças e podem acelerar o desenvolvimento de novos biopesticidas sustentáveis para frutas e hortaliças
Publicado em: 31/07/2026 às 12:30hs
Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) identificaram uma estratégia capaz de ampliar o potencial do fungo Clonostachys rosea no controle biológico da podridão cinzenta, uma das doenças agrícolas mais prejudiciais e que afeta mais de 200 espécies de plantas cultivadas.
O estudo mostrou que alterações simples no processo de cultivo do microrganismo — especialmente no fornecimento de oxigênio e na proporção entre carbono e nitrogênio do meio de crescimento — podem aumentar a produção de estruturas importantes do fungo, abrindo caminho para o desenvolvimento de biopesticidas mais eficientes, sustentáveis e adaptados à agricultura moderna.
Fungo atua como “guarda-costas” natural das plantas
O Clonostachys rosea é considerado um agente de controle biológico promissor por sua capacidade de combater organismos prejudiciais às plantas, incluindo fungos causadores de doenças, insetos e nematoides.
Segundo os pesquisadores, o microrganismo atua por diferentes mecanismos: ataca fungos patogênicos, estimula as defesas naturais das plantas e produz compostos capazes de impedir o desenvolvimento de agentes causadores de doenças.
A podridão cinzenta, provocada pelo fungo Botrytis cinerea, está entre os principais desafios fitossanitários da agricultura, causando perdas tanto durante o cultivo quanto no período pós-colheita.
A doença afeta especialmente frutas e hortaliças de alto valor comercial, como tomate, morango, uva e cereja.
Controle da produção do fungo aumenta eficiência do bioproduto
Durante a pesquisa, os cientistas avaliaram como diferentes condições de cultivo influenciam a formação de estruturas produzidas pelo Clonostachys rosea.
Foram analisados principalmente dois fatores:
- Aeração do cultivo, relacionada à quantidade de oxigênio disponível;
- Relação carbono/nitrogênio, que determina a composição nutricional do ambiente onde o fungo cresce.
Essas condições influenciam diretamente a produção de:
- Conídios, estruturas semelhantes a esporos responsáveis pela reprodução do fungo;
- Microscleródios, estruturas de resistência capazes de sobreviver em ambientes desfavoráveis.
De acordo com os pesquisadores, a maior disponibilidade de oxigênio favoreceu significativamente a formação dessas estruturas, principalmente dos microscleródios, considerados importantes para aplicações agrícolas por apresentarem maior resistência.
Estudo identifica condições ideais para produção de estruturas do fungo
Os resultados indicaram que ambientes com maior circulação de ar estimularam a produção das estruturas reprodutivas e de sobrevivência do microrganismo.
A pesquisa também mostrou que uma relação mais elevada entre carbono e nitrogênio favoreceu a formação de conídios quando associada a boa aeração.
Já os microscleródios foram produzidos principalmente em condições com menor proporção de carbono em relação ao nitrogênio, combinadas com maior disponibilidade de oxigênio.
Segundo os pesquisadores, compreender esses mecanismos permite direcionar o cultivo para produzir o tipo de estrutura mais adequado para cada aplicação agrícola.
Tecnologia foi testada no controle da podridão cinzenta em tomate-cereja
Além dos testes laboratoriais, os pesquisadores avançaram para uma etapa prática da tecnologia.
As estruturas produzidas pelo fungo e os líquidos resultantes do processo de cultivo foram transformados em pequenos grânulos capazes de serem diluídos em água e aplicados de forma semelhante aos produtos agrícolas convencionais.
Nos testes realizados com tomate-cereja infectado por Botrytis cinerea, todos os preparados contendo o fungo reduziram a incidência da doença.
As análises químicas também identificaram a presença de sorbicilinoides, compostos naturais produzidos pelo fungo durante a fermentação e conhecidos por sua ação antifúngica.
Essas substâncias podem contribuir para o efeito protetor observado nas plantas.
Pesquisa aproxima biotecnologia do mercado agrícola
Um dos principais desafios para transformar agentes biológicos em produtos comerciais é garantir produção em larga escala, estabilidade, qualidade e eficiência constante.
O estudo da Embrapa indica que ajustes relativamente simples no processo de cultivo podem facilitar esse avanço, permitindo maior controle sobre a produção dos organismos vivos utilizados nos biopesticidas.
A possibilidade de combinar estruturas vivas do fungo com compostos naturais produzidos durante o cultivo também representa uma estratégia diferenciada para ampliar a eficiência do controle de doenças agrícolas.
Biopesticidas sustentáveis ganham espaço no agronegócio
O avanço reforça uma tendência crescente no agronegócio: o desenvolvimento de soluções biológicas capazes de reduzir a dependência de defensivos químicos tradicionais.
Com maior demanda por sistemas produtivos sustentáveis, rastreabilidade e redução de resíduos, os bioinsumos vêm ganhando espaço como ferramentas estratégicas para produtores rurais.
Caso os resultados sejam confirmados em escala comercial, a tecnologia poderá contribuir especialmente para cadeias de frutas e hortaliças sensíveis à podridão cinzenta, reduzindo perdas durante transporte, armazenamento e comercialização.
Próximas etapas envolvem testes comerciais e validação da tecnologia
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores destacam que ainda são necessárias novas etapas antes da aplicação em larga escala.
Entre os próximos desafios estão:
- Escalonamento industrial do processo de fermentação;
- Desenvolvimento de formulações comerciais;
- Testes em estufas e lavouras;
- Avaliação em diferentes condições de temperatura e umidade;
- Estudos de armazenamento e validade;
- Análises de segurança alimentar;
- Comparação de custos e eficiência com produtos já disponíveis no mercado.
Apesquisa representa um avanço importante na conexão entre ciência e agricultura, demonstrando que o controle das condições de cultivo do Clonostachys rosea pode aumentar o potencial de uma ferramenta biológica para combater doenças agrícolas.
O desenvolvimento de novos biopesticidas baseados em microrganismos benéficos reforça o caminho para uma agricultura mais sustentável, eficiente e alinhada às exigências do mercado global.
Fonte: Portal do Agronegócio
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