Novo fertilizante com proteção biológica aumenta sobrevivência de fungo benéfico e pode revolucionar uso de bioinsumos no campo
Tecnologia desenvolvida pela Embrapa e UFSCar cria uma barreira biodegradável que protege o Trichoderma harzianum dentro do fertilizante químico, ampliando a eficiência dos microrganismos na agricultura.
Publicado em: 30/07/2026 às 10:00hs
Pesquisadores da Embrapa Instrumentação (SP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram uma tecnologia que pode ampliar a eficiência dos bioinsumos no agronegócio brasileiro. A inovação combina fertilizante mineral e fungo benéfico em uma única formulação, utilizando um revestimento biodegradável capaz de proteger o microrganismo durante o armazenamento e no momento da aplicação no solo.
A solução foi criada para preservar a viabilidade do Trichoderma harzianum, fungo amplamente utilizado na agricultura como agente de controle biológico e estimulador do crescimento vegetal. O microrganismo foi encapsulado em uma matriz polimérica de base celulósica aplicada diretamente sobre grânulos de fertilizantes ricos em fósforo e nitrogênio.
A tecnologia busca superar um dos principais desafios dos bioinsumos agrícolas: a dificuldade de manter os microrganismos vivos quando expostos às condições adversas dos fertilizantes químicos.
Barreira biodegradável protege fungo contra fertilizantes químicos
Apesar dos benefícios reconhecidos do Trichoderma harzianum para as plantas, sua utilização associada a fertilizantes minerais ainda apresenta limitações. Compostos como ureia e fosfato monoamônico (MAP) podem comprometer a sobrevivência dos microrganismos devido ao estresse osmótico, alterações de pH e reações químicas prejudiciais.
Segundo os pesquisadores, o contato direto entre fertilizantes concentrados e fungos benéficos pode reduzir significativamente a eficiência dos inoculantes biológicos, dificultando sua adoção em larga escala.
Para solucionar esse problema, a equipe desenvolveu uma espécie de “escudo microscópico” utilizando uma matriz de carboximetilcelulose (CMC) reforçada com nanocristais de celulose (CNC).
A estrutura forma um filme resistente, biodegradável e capaz de envolver os esporos do fungo, protegendo o microrganismo durante o armazenamento e permitindo sua liberação gradual no solo.
Tecnologia aumenta sobrevivência do Trichoderma no armazenamento
Os testes realizados pelos pesquisadores demonstraram resultados expressivos na preservação do fungo.
Após três meses armazenados em temperatura ambiente, os esporos encapsulados mantiveram alta taxa de sobrevivência, enquanto os microrganismos sem proteção perderam até mil vezes sua vitalidade.
Os experimentos também mostraram que grânulos de fosfato monoamônico (MAP) revestidos com a matriz polimérica mantiveram crescimento fúngico consistente mesmo após 30 dias de armazenamento.
De acordo com os pesquisadores, métodos convencionais utilizados para fixação de microrganismos, como soluções açucaradas, apresentaram redução significativa da eficiência ao longo do tempo.
Trichoderma harzianum atua no controle biológico e crescimento das plantas
O Trichoderma harzianum é considerado um dos fungos mais importantes utilizados na agricultura moderna.
O microrganismo atua no controle de fitopatógenos, auxilia no desenvolvimento das raízes, estimula o crescimento das plantas e contribui para uma melhor absorção de nutrientes.
A pesquisadora Aline Medeiro Ferreira, mestre em Engenharia Química pela UFSCar e primeira autora do estudo publicado na revista científica ACS Agricultural Science & Technology, explica que o fungo possui grande potencial agrícola, mas depende de tecnologias que garantam sua sobrevivência.
“Apesar da eficiência como agente de biocontrole, o microrganismo é sensível às condições ambientais e ao contato direto com fertilizantes químicos”, destacam os pesquisadores.
Fertilizante inteligente pode reduzir perdas e aumentar eficiência nutricional
Além de proteger o fungo, o revestimento desenvolvido também interfere na dinâmica de liberação dos nutrientes do fertilizante.
A camada biodegradável permite uma liberação mais lenta e controlada do fósforo e do nitrogênio, mantendo os nutrientes disponíveis por mais tempo para as plantas.
Na prática, a tecnologia pode reduzir a necessidade de reaplicações, diminuir custos operacionais e minimizar impactos ambientais relacionados às perdas de nutrientes.
Entre os benefícios potenciais estão:
- maior eficiência no uso de fertilizantes;
- redução de desperdícios no campo;
- menor risco de contaminação ambiental;
- diminuição das emissões associadas às operações agrícolas;
- maior aproveitamento dos nutrientes pelas plantas.
Segundo os pesquisadores, a permanência prolongada do fungo na região da raiz, conhecida como rizosfera, permite que ele colonize o ambiente antes da chegada de agentes causadores de doenças, funcionando como uma barreira biológica natural.

Inovação une bioinsumos e agricultura de precisão
A integração entre fertilizantes minerais e microrganismos benéficos representa uma tendência crescente no agronegócio, impulsionada pela busca por maior produtividade com menor dependência de insumos químicos.
Para Cristiane Sanchez Farinas, coordenadora do estudo na Embrapa Instrumentação, a tecnologia combina eficiência agrícola e princípios da bioeconomia.
A carboximetilcelulose utilizada no revestimento é um material de baixo custo e ampla disponibilidade, enquanto os nanocristais de celulose podem ser obtidos a partir de resíduos agrícolas, fortalecendo o conceito de economia circular.
Próximos desafios são validação em campo e escala comercial
Embora os resultados laboratoriais sejam promissores, os pesquisadores apontam que os próximos passos envolvem ampliar os testes em diferentes culturas agrícolas e condições reais de campo.
A transformação da tecnologia em produto comercial dependerá da validação agronômica, adequação industrial e desenvolvimento de processos em escala.
O estudo foi apresentado durante a 20ª edição do Congresso Europeu de Biotecnologia, organizado pela Federação Europeia de Biotecnologia (EFB), realizado na Antuérpia, na Bélgica.
A pesquisa recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA).
Nova geração de biofertilizantes ganha espaço no agronegócio
A tecnologia desenvolvida pela Embrapa e UFSCar reforça o avanço dos bioinsumos como ferramentas estratégicas para uma agricultura mais eficiente e sustentável.
Ao proteger microrganismos sensíveis e permitir sua aplicação conjunta com fertilizantes minerais, a inovação abre caminho para uma nova geração de produtos agrícolas capazes de combinar nutrição vegetal, controle biológico e sustentabilidade no campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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