Herbicidas na água: modelo da Embrapa estima pegada hídrica cinza até 116 vezes maior
Estudo com 17 produtos usados na cana-de-açúcar considera a presença conjunta de resíduos nos recursos hídricos e aponta critérios para reduzir impactos no manejo
Publicado em: 13/10/2026 às 09:00hs
Um modelo desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente, em São Paulo, estimou uma pegada hídrica cinza cerca de 116 vezes maior que a calculada pelo método tradicional ao avaliar 17 herbicidas utilizados na cultura da cana-de-açúcar. A diferença decorre da inclusão dos efeitos da ocorrência conjunta dos produtos na água, considerando seus mecanismos de ação e a toxicidade para organismos aquáticos.
A pegada hídrica cinza representa o volume hipotético de água necessário para diluir poluentes até concentrações consideradas seguras. Portanto, os resultados não indicam consumo efetivo de água nem comprovam um aumento de 116 vezes na contaminação: mostram como a estimativa muda conforme a metodologia empregada.
Conduzida pelo pesquisador Lourival Paraíba, a pesquisa oferece referências para a escolha de herbicidas e pode contribuir para aperfeiçoar avaliações ambientais e protocolos de certificação agrícola.
Modelo avalia resíduos presentes na água após aplicações agrícolas
O foco do trabalho é a presença simultânea de diferentes herbicidas nos recursos hídricos, decorrente de aplicações na agricultura. Essa situação é distinta da mistura de produtos na calda do pulverizador.
Parte dos herbicidas aplicados pode ser transportada pelo escoamento da chuva até rios e córregos ou infiltrar-se no solo e alcançar águas subterrâneas. Nesse percurso, resíduos de diferentes produtos podem ocorrer conjuntamente.
Enquanto o método tradicional, chamado H-model, avalia cada herbicida isoladamente, a abordagem proposta incorpora as relações entre os produtos e seus efeitos sobre algas, crustáceos e peixes.
Estimativa passa de 49,5 bilhões para 5,74 trilhões de metros cúbicos
O estudo analisou 17 herbicidas distribuídos em sete grupos de mecanismos de ação, conforme a classificação do Comitê de Ação contra a Resistência a Herbicidas (HRAC).
Pelo H-model, a pegada hídrica cinza calculada para o conjunto foi de 49,5 bilhões de metros cúbicos. Com a nova abordagem, chegou a 5,74 trilhões de metros cúbicos, aproximadamente 116 vezes o resultado anterior.
Esses volumes são indicadores virtuais utilizados para dimensionar a pressão potencial dos poluentes sobre a água.
Para avaliar as incertezas, os pesquisadores realizaram 10 mil simulações de Monte Carlo, variando parâmetros como toxicidade, escoamento provocado pela chuva e degradação no solo. Em 95% das simulações, a diferença entre os métodos ficou entre 69 e 195 vezes.

Mecanismos de ação ajudam a explicar efeitos conjuntos
A metodologia combina a classificação HRAC com dois princípios da avaliação toxicológica de misturas: adição de concentração (CA) e ação independente (IA).
A abordagem considera a possibilidade de somar efeitos de substâncias que atuam sobre o mesmo mecanismo biológico e utiliza outra lógica de avaliação para aquelas com mecanismos diferentes.
Segundo Paraíba, essa distinção permite representar a ocorrência conjunta dos herbicidas de forma mais abrangente do que a análise isolada de cada produto.
Grupo com seis herbicidas predominou nas simulações
Um dos resultados foi a influência do número de produtos pertencentes ao mesmo grupo de mecanismo de ação.
O grupo composto por ametrina, diurom, hexazinona, metribuzim, tebutiurom e amicarbazona predominou na estimativa da pegada hídrica cinza em 99,7% das simulações.
Para o pesquisador, o resultado mostra que a análise ambiental precisa considerar o conjunto de produtos empregados. Nas condições avaliadas, o tamanho do grupo teve papel determinante, além da toxicidade individual de cada herbicida.
Pesquisa propõe critérios para a escolha dos produtos
Entre as orientações apresentadas pelo estudo está a priorização de herbicidas pertencentes a grupos pequenos ou isolados. Glifosato, isoxaflutol e clomazona foram classificados entre os materiais de menor pegada hídrica cinza na avaliação realizada.
O pesquisador também recomenda evitar, quando possível, a combinação de dois ou mais herbicidas do mesmo grupo em uma aplicação. Quando determinado mecanismo de ação for necessário, a proposta é utilizar apenas um representante desse grupo.
Essas orientações se referem ao indicador e às condições analisadas no trabalho. Sua aplicação deve integrar o manejo de plantas daninhas com orientação agronômica, considerando as necessidades da lavoura.
Metodologia pode alcançar soja, milho, algodão e café
Embora tenha sido aplicada à cana-de-açúcar, a abordagem pode ser adaptada a outras culturas que utilizam diferentes herbicidas, como soja, milho, algodão e café, segundo Paraíba.
O pesquisador também defende a atualização dos protocolos de certificação para incorporar os efeitos da ocorrência conjunta de resíduos sobre organismos aquáticos. Ele afirma que o cálculo da pegada hídrica cinza já começa a ser solicitado por certificações internacionais, inclusive aquelas relacionadas à exportação de etanol.
A proposta é transformar os resultados da pesquisa em critérios de manejo que ajudem a reduzir a pressão sobre os recursos hídricos, preservando a eficiência do controle de plantas daninhas.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias