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Pesquisas

Controle biológico avança na pupunheira: fungo benéfico reduz principal doença do palmito e pode substituir fungicidas

Pesquisa brasileira comprova alta eficiência de espécies de Trichoderma no combate à podridão da base do caule, abrindo caminho para uma produção de palmito mais sustentável e segura


Publicado em: 22/07/2026 às 16:00hs

Controle biológico avança na pupunheira: fungo benéfico reduz principal doença do palmito e pode substituir fungicidas
Foto: Eduardo Fuzitani

O controle biológico ganhou um importante reforço para a produção brasileira de palmito. Pesquisadores comprovaram que fungos do gênero Trichoderma apresentam elevada eficiência no combate à podridão da base do caule da pupunheira, doença causada por Phytophthora palmivora e considerada a principal ameaça à cultura no País.

Os resultados indicam que espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum conseguem reduzir significativamente o avanço do patógeno, oferecendo uma alternativa sustentável ao uso de fungicidas químicos — aspecto especialmente relevante porque o palmito é frequentemente comercializado e consumido in natura.

Pesquisa desenvolve método inédito para acelerar estudos sobre a doença

Além dos resultados promissores no controle biológico, o trabalho trouxe uma inovação metodológica importante para a pesquisa agrícola.

Pela primeira vez, cientistas desenvolveram um sistema eficiente de inoculação em fragmentos do caule da pupunheira, permitindo reproduzir, em laboratório, tanto a infecção provocada pelo fungo causador da doença quanto a aplicação dos agentes biológicos de controle.

Segundo Eduardo Jun Fuzitani, pesquisador da Apta Regional de Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira (SP), a técnica reduz custos, aumenta a precisão dos experimentos e acelera o desenvolvimento de novas estratégias de manejo.

"O método permite simular a infecção em condições controladas, facilitando estudos sobre a doença e reduzindo o tempo necessário para avaliação de novos tratamentos", explica o pesquisador.

Podridão da base do caule é a principal ameaça à produção de palmito

A pupunheira (Bactris gasipaes) tornou-se a principal fonte de produção de palmito no Brasil após a redução dos estoques naturais da juçara na Mata Atlântica.

Atualmente, o cultivo está concentrado principalmente em:

  • São Paulo;
  • Bahia;
  • Paraná;
  • Santa Catarina;
  • Rio de Janeiro;
  • Espírito Santo.

A espécie ganhou espaço por apresentar crescimento rápido, elevada capacidade de perfilhamento e menor escurecimento do palmito após a colheita, características que favorecem sua comercialização fresca.

Entretanto, a expansão do cultivo em sistemas de monocultura aumentou a incidência de doenças, especialmente a podridão da base do caule causada por Phytophthora palmivora.

Segundo Álvaro Figueredo dos Santos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e ex-pesquisador da Embrapa Florestas, a doença compromete plantas jovens e adultas, iniciando com o amarelecimento das folhas e evoluindo para a morte dos brotos e da planta inteira nos casos mais severos.

Trichoderma reduz em até 94% o crescimento do fungo causador da doença

Durante os experimentos, os pesquisadores avaliaram quatro isolados comerciais de Trichoderma.

Os resultados em laboratório demonstraram elevada capacidade de inibição do patógeno:

  • Trichoderma harzianum (TH2): redução de 94%;
  • Trichoderma harzianum (TH1): redução de 91%;
  • Trichoderma asperellum (TA2): redução de 80%;
  • Trichoderma asperellum (TA1): redução de 61%.

O destaque ficou para o isolado TH2, que apresentou os melhores níveis de proteção quando aplicado antes da infecção.

Em alguns testes, o desenvolvimento de Phytophthora palmivora foi completamente bloqueado.

Aplicação preventiva aumenta a eficiência do controle biológico

O estudo mostrou que o momento da aplicação é determinante para o sucesso do controle biológico.

Quando o Trichoderma foi aplicado de forma preventiva, até 48 horas antes da presença do patógeno, houve expressiva redução da severidade da doença.

Já nas aplicações realizadas após a infecção instalada, os resultados foram mais limitados.

Segundo os pesquisadores, isso reforça a importância da adoção de programas preventivos de manejo fitossanitário, reduzindo o risco de perdas econômicas nas áreas produtoras.

Fungo benéfico coloniza a planta sem causar danos

Outro resultado considerado inovador foi a comprovação da capacidade do Trichoderma de colonizar internamente os tecidos da pupunheira sem provocar qualquer sintoma negativo.

Enquanto plantas infectadas por Phytophthora palmivora apresentaram escurecimento e podridão dos tecidos, aquelas colonizadas pelo fungo benéfico permaneceram saudáveis.

Essa característica, conhecida como endofitismo, permite que o microrganismo permaneça dentro da planta funcionando como uma barreira biológica permanente contra futuros ataques do patógeno.

Além disso, o gênero Trichoderma apresenta diversos mecanismos naturais de proteção, como:

  • competição por nutrientes;
  • produção de substâncias antifúngicas;
  • degradação da parede celular de fungos patogênicos;
  • estímulo às defesas naturais das plantas;
  • promoção do crescimento vegetal.

Segundo Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, esses atributos fazem do gênero um dos biofungicidas mais utilizados mundialmente devido à sua elevada eficiência e baixo impacto ambiental.

Biofungicidas já disponíveis podem acelerar adoção pelos produtores

Outro fator favorável é que produtos comerciais à base de Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum já estão disponíveis no mercado brasileiro.

Isso facilita a futura adoção da tecnologia pelos produtores caso os resultados obtidos em laboratório sejam confirmados em condições de campo.

Os pesquisadores agora iniciam uma nova etapa dos estudos para avaliar o desempenho dos biofungicidas em áreas comerciais de cultivo, medindo indicadores como:

  • controle da podridão da base do caule;
  • desenvolvimento vegetativo;
  • produtividade;
  • longevidade das plantas;
  • redução do uso de fungicidas químicos.
Controle biológico fortalece sustentabilidade da cadeia do palmito

Os cientistas acreditam que o uso de Trichoderma poderá representar um importante avanço para a produção nacional de palmito, contribuindo para reduzir perdas causadas por doenças, diminuir a dependência de defensivos químicos e ampliar a sustentabilidade da cultura.

Além do controle da podridão da base do caule, futuras pesquisas também investigarão o potencial do fungo em estimular o crescimento da pupunheira e aumentar sua resistência natural a doenças e estresses ambientais, fortalecendo uma cadeia produtiva cada vez mais relevante para o agronegócio brasileiro.

Fonte: Portal do Agronegócio

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