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Pesquisas

Aveia-preta em vinhedos: Embrapa identifica sete materiais tolerantes ao excesso de cobre

Pesquisa na Serra Gaúcha avalia alternativas ao azevém para proteger encostas da erosão e auxiliar no manejo de solos com acúmulo do metal


Publicado em: 14/10/2026 às 09:00hs

Aveia-preta em vinhedos: Embrapa identifica sete materiais tolerantes ao excesso de cobre
Foto: Henrique Pessoa dos Santos

Pesquisadores da Embrapa identificaram sete materiais de aveia-preta com potencial para produzir biomassa em solos com excesso de cobre, condição encontrada em áreas de produção de uvas na Serra Gaúcha. O trabalho busca ampliar as alternativas de cobertura vegetal nos vinhedos, combinando proteção contra a erosão e tolerância ao metal acumulado pelo uso contínuo de fungicidas cúpricos.

A pesquisa envolve a Embrapa Uva e Vinho e a Embrapa Trigo, em parceria com produtores e organizações do setor vitivinícola. A aveia-preta é estudada como opção ao azevém, cujo manejo se tornou mais difícil e oneroso com o aumento de populações resistentes a herbicidas.

Os resultados apontam potencial para conservar o solo e reduzir a mobilidade do cobre no sistema solo-planta. O estudo, porém, não comprovou a descontaminação das áreas, e os pesquisadores ressaltam a necessidade de avaliações complementares.

Cobertura vegetal reduz perdas de solo nas encostas

A produção vitivinícola da Serra Gaúcha ocupa áreas com solos rasos e declividade acentuada, que pode chegar a 30% em determinados locais. Nessas condições, manter o terreno coberto é fundamental para limitar o escoamento superficial e preservar água e solo.

Experimentos conduzidos pela Embrapa mostram a dimensão desse efeito. Em uma área de declive sem cobertura vegetal, acompanhada durante 12 anos, houve perda de aproximadamente 20 centímetros de solo.

Outro trabalho, realizado na região de Bento Gonçalves, registrou infiltração de água de 140 milímetros por hora em uma área com cobertura. No terreno descoberto, o indicador caiu para 17 milímetros por hora.

“A água não retida vai embora levando solo, fertilizantes e defensivos que vão se acumular nos rios, encosta abaixo”, explica Marcelo Klein, engenheiro agrônomo da Embrapa Trigo.

Uso contínuo de fungicidas pode acumular cobre no solo

O clima subtropical úmido favorece a ocorrência de doenças fúngicas nos vinhedos do Sul do Brasil. Entre os produtos utilizados no manejo estão fungicidas à base de cobre, como a calda bordalesa, também empregada em sistemas orgânicos.

George Wellington de Melo, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, explica que o cobre é um micronutriente essencial às plantas. Entretanto, aplicações sucessivas ao longo dos anos podem elevar sua concentração no solo a níveis prejudiciais.

O excesso pode afetar as raízes, dificultar a absorção de nutrientes e comprometer processos como germinação, crescimento e fotossíntese. Mesmo a videira, que apresenta tolerância ao metal, pode sofrer desequilíbrios nutricionais e perdas de desenvolvimento e produção.

Essa condição também representa um desafio para estabelecer plantas de cobertura, que precisam crescer e formar biomassa em solos com alta concentração de cobre.

Pesquisa seleciona cultivares e linhagens de aveia-preta

O estudo “Avaliação e seleção de cultivares de aveia-preta para cultivos em solos contaminados por cobre”, conduzido pela Embrapa Uva e Vinho, identificou sete materiais promissores:

  • Cultivares: BRS Pampeana, BRS Madrugada e BRS Centauro;
  • Seleções: PFA201701, PFA201702, PFA201801 e PFA201803.

A seleção considerou a capacidade de produzir biomassa e tolerar o excesso do metal. Segundo Jane Machado, pesquisadora da Embrapa Trigo, a aveia-preta apresenta características favoráveis ao uso nos vinhedos, como custo de sementes relativamente baixo, facilidade de manejo e formação de cobertura nos períodos mais chuvosos.

A equipe continua avaliando novas linhagens obtidas por melhoramento genético, com atenção ao desenvolvimento das raízes em solos com acúmulo de cobre.

Retenção do cobre nas raízes indica potencial de manejo

Nas avaliações, o cobre ficou concentrado principalmente no sistema radicular da aveia-preta, com transferência reduzida para a parte aérea.

Para os pesquisadores, essa resposta é relevante na identificação de materiais tolerantes. A retenção nas raízes pode contribuir para imobilizar o metal e diminuir sua mobilidade, enquanto a cobertura vegetal protege o terreno dos processos erosivos.

Segundo Melo, esse potencial merece atenção especialmente na implantação ou renovação dos vinhedos, quando a elevada disponibilidade de cobre pode prejudicar o desenvolvimento inicial das mudas de videira.

Além da resposta ao metal, a aveia-preta oferece benefícios associados à cobertura do solo, como aumento da matéria orgânica, melhoria da estrutura, estímulo à atividade biológica e redução da evaporação de água.

Avaliações em propriedades buscam validar os resultados

A pesquisa também avança para condições reais de produção. Produtores vinculados às cooperativas São João, Nova Aliança e Aurora participaram de ações de avaliação de cereais de inverno em vinhedos da Serra Gaúcha.

As atividades incluem opções como aveia e trigo, com o objetivo de ampliar a proteção do solo e a capacidade dos sistemas produtivos de enfrentar eventos climáticos extremos.

O trabalho integra a Plataforma Colaborativa Recupera Rural RS, voltada à recuperação e ao aumento da resiliência da produção rural. A validação em campo e os estudos complementares deverão aprofundar o conhecimento sobre o desempenho dos materiais e sua contribuição para o manejo conservacionista dos vinhedos.

Fonte: Portal do Agronegócio

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