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Pesquisas

Aquaponia pode revolucionar a agricultura urbana com economia de 90% de água e produção sustentável de alimentos

Tecnologia pesquisada pelo Instituto de Pesca integra criação de peixes e cultivo de hortaliças, reduz o uso de fertilizantes e agrotóxicos e desponta como alternativa para fortalecer a segurança alimentar nas cidades.


Publicado em: 14/08/2026 às 10:00hs

Aquaponia pode revolucionar a agricultura urbana com economia de 90% de água e produção sustentável de alimentos
Aquaponia avança como solução para agricultura urbana sustentável no Brasil

A produção de alimentos em áreas urbanas pode ganhar um importante impulso com a expansão da aquaponia, sistema que combina a criação de peixes com o cultivo de hortaliças em um ambiente integrado e de recirculação de água. Além de reduzir em até 90% o consumo hídrico em comparação à agricultura convencional, a tecnologia praticamente elimina o descarte de efluentes e reduz significativamente a necessidade de fertilizantes químicos e defensivos agrícolas.

No Brasil, essa alternativa está sendo estudada pelo Instituto de Pesca (IP-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio de pesquisas que buscam ampliar a viabilidade comercial das chamadas fazendas urbanas (urban farming).

O projeto reforça o papel da ciência no desenvolvimento de sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e preparados para atender à crescente demanda por alimentos frescos nos grandes centros urbanos.

Pesquisa busca fortalecer sistemas integrados de produção

As pesquisas são conduzidas no Serviço Regional de Pesquisa de Pirassununga pelo pesquisador científico Marcello Boock, responsável pelo projeto AQUACAPACITA, iniciativa vinculada ao programa AQUAINTEGRA, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e coordenado pela pesquisadora Fabiana Garcia.

Segundo Boock, o crescimento das cidades exige novas formas de produzir alimentos próximos ao consumidor.

"A expansão urbana representa uma oportunidade para redesenhar a relação entre cidade e agricultura. A aquaponia deixa de ser uma prática doméstica para se tornar uma tecnologia estratégica voltada à segurança alimentar e à resiliência urbana", destaca o pesquisador.

Como funciona a aquaponia

A aquaponia reúne dois sistemas produtivos em um único ciclo:

  • Aquicultura, responsável pela criação de peixes;
  • Hidroponia, utilizada para o cultivo de plantas sem solo.

O funcionamento ocorre em um circuito fechado no qual cada componente exerce uma função essencial.

Os peixes recebem alimentação balanceada e produzem resíduos ricos em amônia.

Esses compostos são transformados por bactérias nitrificantes em nitrato, nutriente absorvido pelas plantas durante seu desenvolvimento.

Ao retirar esses nutrientes da água, as plantas atuam como um filtro biológico, devolvendo água limpa aos tanques dos peixes e reiniciando o ciclo produtivo.

O resultado é um sistema altamente eficiente, com baixo desperdício de recursos naturais.

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Tecnologia reduz consumo de água e elimina desperdícios

Entre os principais diferenciais da aquaponia está a elevada eficiência no uso da água.

Como o líquido permanece em constante recirculação, as perdas ocorrem praticamente apenas por evaporação e transpiração das plantas.

Na prática, o sistema utiliza cerca de 10% da água consumida pela agricultura tradicional em solo, tornando-se uma alternativa especialmente relevante diante das mudanças climáticas e da crescente escassez hídrica.

Além disso, o processo reduz quase totalmente o descarte de resíduos líquidos no meio ambiente.

Produção próxima do consumidor reduz emissões de carbono

Outro benefício apontado pelos pesquisadores é a possibilidade de implantar sistemas produtivos dentro das cidades.

Ao produzir alimentos próximos dos consumidores, reduz-se significativamente a distância percorrida pelos produtos, conceito conhecido como "quilômetro zero".

Essa estratégia diminui os custos logísticos, reduz as emissões de gases de efeito estufa associadas ao transporte e entrega alimentos mais frescos ao consumidor.

Cultivo vertical amplia potencial das fazendas urbanas

A aquaponia também se adapta facilmente ao cultivo vertical, permitindo o aproveitamento de espaços antes considerados improdutivos.

Telhados, galpões industriais, subsolos e outras estruturas urbanas podem ser transformados em unidades de produção capazes de fornecer:

  • alface;
  • rúcula;
  • agrião;
  • outras hortaliças folhosas;
  • peixes de alto valor comercial, como a tilápia.

Essa característica amplia significativamente a produtividade por metro quadrado, tornando o sistema atrativo para centros urbanos com pouca disponibilidade de áreas agrícolas.

Desafios técnicos ainda limitam expansão comercial

Apesar do elevado potencial, a adoção em larga escala ainda enfrenta desafios.

Segundo Marcello Boock, manter o equilíbrio entre peixes, plantas e bactérias exige controle rigoroso de fatores como:

  • temperatura;
  • pH da água;
  • oxigenação;
  • qualidade biológica do sistema.

Outro obstáculo está no investimento inicial necessário para bombas hidráulicas, sistemas de iluminação LED em ambientes fechados e mão de obra especializada para operação dos equipamentos.

Esses fatores ainda elevam os custos de implantação das fazendas urbanas.

Inteligência Artificial e IoT podem acelerar a evolução da aquaponia

Para superar essas limitações, pesquisadores trabalham na incorporação de tecnologias digitais aos sistemas produtivos.

Entre as principais inovações estão:

  • sensores conectados à Internet das Coisas (IoT);
  • monitoramento automático da qualidade da água;
  • Inteligência Artificial para prever desequilíbrios biológicos;
  • automação do manejo produtivo;
  • integração com energia solar, eólica e biomassa para reduzir o consumo energético.

Essas soluções tendem a aumentar a eficiência operacional e reduzir os custos de produção nos próximos anos.

Agricultura urbana ganha força como estratégia para segurança alimentar

Para os pesquisadores do Instituto de Pesca, a agricultura urbana deve deixar de ser apenas uma alternativa sustentável para assumir papel estratégico no abastecimento das cidades.

A aquaponia reúne produção de proteínas animais e vegetais em um único sistema altamente eficiente, com baixo impacto ambiental, economia de recursos naturais e alimentos livres da aplicação direta de agrotóxicos nas hortaliças.

Com o crescimento da população urbana, a limitação de áreas agrícolas e a necessidade de sistemas produtivos mais resilientes, a expectativa é que as fazendas urbanas baseadas em aquaponia se consolidem como uma das principais tendências da agricultura sustentável nas próximas décadas, aproximando a produção do consumidor e fortalecendo a segurança alimentar no Brasil.

Fonte: Portal do Agronegócio

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