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Conectividade e Digital

Cibersegurança e tensão geopolítica elevam riscos no agronegócio e exigem governança integrada

Avanço da inteligência artificial, instabilidade econômica, mudanças regulatórias, eventos climáticos e restrição de crédito aumentam a exposição de produtores, cooperativas, agroindústrias e tradings


Publicado em: 26/08/2026 às 13:30hs

Cibersegurança e tensão geopolítica elevam riscos no agronegócio e exigem governança integrada

O avanço da digitalização e a conexão crescente entre riscos tecnológicos, financeiros, regulatórios, climáticos e geopolíticos estão mudando a gestão do agronegócio brasileiro. Diante desse ambiente mais complexo, empresas do setor precisam fortalecer a governança, integrar informações estratégicas e ampliar sua capacidade de antecipar ameaças.

O alerta aparece na Síntese Global de Tendências em Auditoria Interna, apresentada pelo Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil) durante o encontro anual de líderes da área. O levantamento indica que os riscos empresariais deixaram de produzir impactos isolados e passaram a afetar, simultaneamente, diferentes etapas das operações.

A mudança exige atenção de produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e tradings. Além dos tradicionais desafios envolvendo clima, produtividade, preços das commodities e crédito, o setor agora enfrenta maior exposição a ataques cibernéticos, oscilações cambiais, tensões internacionais, inteligência artificial e novas exigências de rastreabilidade e sustentabilidade.

Cibersegurança lidera ranking de riscos corporativos

De acordo com os estudos consolidados pelo IIA Brasil, 76% das organizações apontam a cibersegurança como o principal risco corporativo. A disrupção digital e a inteligência artificial aparecem na segunda posição, mencionadas por 54% dos participantes.

As mudanças regulatórias foram indicadas por 49% das organizações, enquanto a incerteza geopolítica e macroeconômica alcançou 45%. Também figuram entre as principais preocupações:

  • Capital humano: 40%;
  • Resiliência dos negócios: 37%;
  • Riscos financeiros e de liquidez: 32%.

A síntese reúne pesquisas internacionais produzidas por instituições como Jefferson Wells, PwC, KPMG, Deloitte, Protiviti, TrustArc e Nametag. O material também incorpora informações do estudo Risk in Focus – América Latina, elaborado pelo IIA em parceria com a European Confederation of Institutes of Internal Auditing (ECIIA).

Digitalização amplia exposição do agronegócio

Embora os dados tenham origem em diferentes setores da economia, o IIA Brasil avalia que as tendências representam com precisão o cenário enfrentado pelo agronegócio nacional.

A adoção de plataformas digitais, máquinas conectadas, sistemas de gestão, inteligência artificial, armazenamento em nuvem e tecnologias de agricultura de precisão trouxe ganhos expressivos de produtividade. Ao mesmo tempo, aumentou a dependência de infraestruturas digitais e, consequentemente, a vulnerabilidade a invasões, vazamentos de dados e interrupções operacionais.

Um ataque cibernético pode comprometer desde informações financeiras e contratos até sistemas industriais, operações logísticas e processos de comercialização. Por isso, a segurança digital deixa de ser responsabilidade exclusiva das equipes de tecnologia e passa a integrar a estratégia de continuidade dos negócios.

Crédito, câmbio e geopolítica pressionam decisões

O agronegócio também enfrenta maior seletividade na concessão de crédito e ampliação do uso de instrumentos privados para financiar a produção. Nesse contexto, variações nas taxas de juros, no câmbio e na disponibilidade de capital podem afetar custos, margens e investimentos.

A instabilidade geopolítica acrescenta outra camada de incerteza. Conflitos internacionais, disputas comerciais, mudanças tarifárias e restrições logísticas podem alterar os preços de fertilizantes, defensivos, combustíveis e outros insumos estratégicos.

Esses fatores ainda podem interferir no acesso aos mercados internacionais, nas cotações das commodities e na competitividade dos produtos brasileiros.

“O agronegócio sempre foi reconhecido por sua capacidade de administrar riscos climáticos e de mercado. O que mudou é que esses riscos deixaram de atuar isoladamente”, afirma Paulo Gomes, diretor do IIA Brasil.

Segundo ele, uma única decisão empresarial pode ser influenciada simultaneamente por variáveis econômicas, tecnológicas, regulatórias, climáticas e geopolíticas. O desafio consiste em compreender a conexão entre esses elementos e seus possíveis efeitos sobre o negócio.

Riscos combinados exigem visão estratégica

A nova configuração obriga as organizações do agro a abandonar análises fragmentadas. Uma mudança regulatória, por exemplo, pode restringir mercados, elevar custos de adequação e alterar as condições de financiamento.

Da mesma forma, eventos climáticos extremos podem reduzir a produção, pressionar o fluxo de caixa e comprometer o pagamento de dívidas. Quando combinados com juros elevados ou queda nos preços das commodities, esses impactos podem se tornar ainda mais severos.

Oscilações cambiais também produzem efeitos diferentes dentro de uma mesma empresa. Embora possam favorecer receitas de exportação, elas encarecem insumos importados, máquinas e componentes tecnológicos.

A gestão integrada permite mapear essas relações, estabelecer prioridades e preparar respostas antes que as ameaças comprometam a operação.

Governança passa a ser diferencial competitivo no agro

Na avaliação do IIA Brasil, a governança corporativa ganha protagonismo nesse ambiente. Mais do que reagir a problemas já instalados, as empresas precisam acompanhar indicadores críticos, conectar dados de diferentes áreas e desenvolver cenários para orientar decisões.

Essa estrutura deve aproximar setores como finanças, tecnologia da informação, produção, logística, sustentabilidade, jurídico, compliance e gestão de pessoas. A integração reduz pontos cegos e permite uma avaliação mais completa da exposição empresarial.

Para o agronegócio, fortalecer a governança pode significar maior segurança nas decisões de investimento, melhor acesso ao crédito, proteção das operações e capacidade de responder rapidamente a crises.

Falta de profissionais especializados preocupa empresas

A preparação técnica das equipes ainda representa um obstáculo. A síntese mostra que 67% dos líderes de auditoria interna reconhecem que seus times não possuem todas as competências necessárias para atender às prioridades atuais.

Além disso, 59% apontam o desenvolvimento dessas habilidades como um dos principais desafios da área. Diante dessa lacuna, 86% das organizações recorrem a especialistas externos, principalmente para trabalhos relacionados à cibersegurança e à auditoria de tecnologia da informação.

O cenário reforça a necessidade de investir na qualificação dos profissionais, atualizar processos internos e incorporar conhecimentos especializados à gestão de riscos.

Integração será decisiva para a continuidade dos negócios

A eficiência operacional e a inovação continuarão sustentando a competitividade do agronegócio. Entretanto, empresas também serão avaliadas por sua capacidade de proteger dados, antecipar ameaças, cumprir exigências regulatórias e manter as atividades diante de crises.

Para Paulo Gomes, decisões baseadas em informações fragmentadas podem ampliar vulnerabilidades. A governança integrada, por outro lado, ajuda a transformar dados dispersos em uma visão estratégica sobre riscos e oportunidades.

Em um mercado cada vez mais digitalizado, regulado e sujeito a turbulências internacionais, a gestão integrada de riscos deixa de ser apenas uma prática de controle. Ela passa a ser uma condição para preservar a competitividade, a reputação e a continuidade das empresas do agronegócio.

Fonte: Portal do Agronegócio

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