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Crédito Rural

Crédito rural recua quase 30% na safra 2026/27 e limita investimentos sustentáveis

Boletim da Agroicone aponta R$ 80,7 bilhões contratados no primeiro trimestre; recursos alinhados à sustentabilidade caem para R$ 17,5 bilhões, embora ganhem participação no custeio e investimento.


Publicado em: 29/10/2026 às 12:00hs

Crédito rural recua quase 30% na safra 2026/27 e limita investimentos sustentáveis

A contratação de crédito rural somou R$ 80,7 bilhões no primeiro trimestre da safra 2026/27, queda de aproximadamente 29% em relação aos R$ 113,4 bilhões registrados no mesmo período do ciclo anterior. O número de operações também diminuiu, passando de 717 mil para 562 mil, segundo o boletim “Crédito Rural em Jornada de Sustentabilidade”, da Agroicone.

Elaborada por Lauro Vicari, Gustavo Lobo e Leila Harfuch, a publicação utiliza dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, com atualizações realizadas em outubro de 2026.

O levantamento mostra que a restrição financeira também atingiu os recursos classificados pela metodologia da Agroicone como alinhados à sustentabilidade. Esse montante caiu de R$ 21,1 bilhões para R$ 17,5 bilhões, uma redução de R$ 3,6 bilhões na comparação entre os primeiros trimestres das duas safras.

Agricultura familiar também registra redução nas contratações

A retração do crédito passou a alcançar a agricultura familiar, além dos produtores não enquadrados no Pronaf.

No Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, as contratações recuaram de R$ 23,9 bilhões para R$ 22,7 bilhões. O número de operações passou de 591 mil para aproximadamente 480 mil.

Entre os produtores não familiares, o boletim identifica uma redução mais prolongada. O volume contratado no primeiro trimestre caiu de R$ 140,9 bilhões na safra 2023/24 para R$ 58 bilhões em 2026/27. Nesse intervalo, as operações diminuíram de 194 mil para 81,5 mil.

Segundo a análise, o endividamento acumulado e a restrição de liquidez afetam tanto a disposição das instituições financeiras para conceder recursos quanto as decisões de financiamento dos produtores.

Crédito alinhado à sustentabilidade ganha participação, mas perde volume

Apesar da queda em valores absolutos, os financiamentos enquadrados na metodologia de sustentabilidade ampliaram sua participação de 22,8% para 26,3% dos recursos de custeio e investimento analisados.

Esse recorte é diferente do total de crédito rural de R$ 80,7 bilhões apresentado no boletim.

Dos R$ 17,5 bilhões classificados como alinhados à jornada de sustentabilidade, R$ 12,4 bilhões foram destinados ao custeio e R$ 5,1 bilhões ao investimento. Por atividade, a agricultura recebeu R$ 15,8 bilhões, enquanto a pecuária ficou com R$ 1,7 bilhão.

A classificação identifica contratos com características potencialmente associadas à redução de impactos ambientais negativos. Ela não comprova benefícios ambientais efetivos, pois a metodologia não inclui processos de verificação dos resultados de cada financiamento.

Pronaf lidera linhas com finalidade sustentável

Cerca de R$ 2 bilhões foram contratados em programas e subprogramas explicitamente voltados a finalidades sustentáveis, equivalentes a 38,4% dos investimentos enquadrados no levantamento.

Pela primeira vez na série analisada, o Pronaf liderou esse grupo, com R$ 978,3 milhões, dos quais R$ 925 milhões foram destinados ao Pronaf Bioeconomia.

Os programas voltados a produtores não familiares, com destaque para o RenovAgro, somaram R$ 974,8 milhões. Nesse conjunto, o subprograma Recuperação e Conversão respondeu por R$ 268,5 milhões.

O boletim ressalta que investimentos com finalidade sustentável também podem ser contratados em outras linhas. Por isso, os programas identificados expressamente com esse objetivo representam apenas parte do montante enquadrado na metodologia.

Correção do solo e pastagens se destacam nos investimentos

Entre os investimentos classificados, a correção intensiva do solo concentrou R$ 1,4 bilhão. Na sequência, apareceram pastagens, com R$ 578,2 milhões, e máquinas e implementos, com R$ 456,2 milhões.

No custeio, os maiores volumes foram destinados à soja, com R$ 5,2 bilhões, e ao milho e café, com R$ 2,1 bilhões cada.

A metodologia também considera produtos associados a uma intervenção enquadrada. Assim, um contrato que reúne recuperação de solos e aquisição de bovinos, por exemplo, pode ter seu valor integral classificado como alinhado à sustentabilidade.

Rio Grande do Sul lidera recursos enquadrados

O Rio Grande do Sul recebeu R$ 4,5 bilhões, maior volume estadual de crédito alinhado à jornada de sustentabilidade no trimestre.

Em seguida, ficaram Paraná, com R$ 2,2 bilhões; Minas Gerais, com R$ 2 bilhões; Espírito Santo, com R$ 1,4 bilhão; e Mato Grosso, com R$ 1,1 bilhão.

As principais fontes utilizadas foram os recursos obrigatórios, com R$ 5 bilhões, as LCAs controladas com subvenção econômica, com R$ 4,5 bilhões, e o Fundo Constitucional do Nordeste (FNE), com R$ 1,9 bilhão.

Endividamento pode desacelerar adoção de práticas sustentáveis

A análise de conjuntura relaciona a retração do financiamento à deterioração da carteira rural. Estudo da Agroicone citado no boletim mostra que o saldo de operações classificadas como problemáticas passou de R$ 34,1 bilhões em julho de 2023 para R$ 188,8 bilhões em abril de 2026.

Dentro desse universo, a inadimplência efetiva avançou de R$ 3,8 bilhões para R$ 38,4 bilhões. A emissão de Cédulas de Produto Rural (CPRs) também recuou no trimestre, de R$ 68,3 bilhões para R$ 50,3 bilhões.

Para os autores, a transição para sistemas produtivos de menor emissão e maior resiliência climática depende de capacidade de investimento. A combinação de passivos elevados e menor acesso a recursos pode retardar esse processo.

O boletim destaca a importância de mecanismos de mitigação de riscos, como o seguro rural, e de alternativas para reestruturar o endividamento, preservando condições para que os produtores invistam em melhorias nas propriedades.

Fonte: Portal do Agronegócio

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