Produção mundial de cacau deve cair 9,6% em 2026/27 e mercado pode voltar ao déficit
StoneX projeta déficit de 64 mil toneladas na próxima temporada, com riscos climáticos nas principais regiões produtoras; safra brasileira é estimada em 210 mil toneladas
Publicado em: 29/10/2026 às 11:50hs
A produção mundial de cacau deve diminuir 9,6% na temporada 2026/27, para aproximadamente 4,74 milhões de toneladas, segundo projeção da StoneX. A redução pode levar o mercado global a um déficit de 64 mil toneladas, interrompendo a recuperação dos estoques registrada no ciclo anterior.
A perspectiva contrasta com o superávit estimado em 494 mil toneladas para 2025/26, temporada marcada por uma recomposição expressiva da oferta. Para o próximo ciclo, a consultoria considera riscos associados ao El Niño, com efeitos distintos nas regiões produtoras: chuvas insuficientes na Costa do Marfim, seca na Indonésia e excesso de umidade no Equador.
Para o mercado do cacau, o cenário representa uma redução da margem de segurança. Embora os estoques permaneçam acima das mínimas recentes, novas perdas nas lavouras podem aumentar a sensibilidade dos preços às condições climáticas.
Clima ameaça recuperação da oferta mundial de cacau
De acordo com Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil, a recuperação da oferta em 2025/26 foi sustentada pelo desempenho da Costa do Marfim, pelas exportações recordes do Equador e por uma das melhores safras brasileiras dos últimos anos.
Na avaliação do analista, esse movimento perde força em 2026/27, diante da expectativa de menor produção em origens importantes. A evolução do clima será decisiva para confirmar a dimensão das perdas e o equilíbrio entre oferta e demanda.
O risco não se limita ao volume colhido. Em regiões com excesso de chuva, as condições também podem prejudicar a qualidade das amêndoas e dificultar etapas do pós-colheita.
Costa do Marfim deve produzir 14,6% menos
Principal origem produtora de cacau, a Costa do Marfim tem safra projetada em 1,75 milhão de toneladas em 2026/27, ante aproximadamente 2,05 milhões de toneladas no ciclo anterior. A redução estimada é de 14,6%.
O início mais lento da colheita, as precipitações abaixo da média e os riscos relacionados ao El Niño e ao Harmatã sustentam a revisão da StoneX.
A consultoria espera uma safra principal inferior à de 2025/26, mas concentra as maiores incertezas na colheita intermediária. O pico do El Niño considerado no cenário, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, coincide com a formação dos frutos que serão colhidos a partir de abril.
Para essa etapa da produção marfinense, a estimativa foi reduzida para 350 mil toneladas.
Gana também enfrenta perspectiva de redução da safra
Em Gana, a StoneX projeta uma produção de 580 mil toneladas em 2026/27, frente às aproximadamente 700 mil toneladas do ciclo anterior. O recuo corresponde a cerca de 17%.
Apesar de o país apresentar melhores reservas de umidade no solo do que a Costa do Marfim, os riscos climáticos permanecem relevantes, especialmente para a safra intermediária.
Segundo Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil, o excedente acumulado em 2025/26 ajuda a absorver os efeitos do início mais lento da nova temporada. Uma deterioração adicional das condições no Oeste Africano, contudo, pode reduzir rapidamente essa proteção.
Excesso de chuva no Equador e seca na Indonésia ampliam riscos
No Equador, a produção de 2025/26 foi estimada em cerca de 650 mil toneladas, em um ciclo de exportações recordes. Para 2026/27, a projeção caiu para 585 mil toneladas, uma redução de 10%.
Chuvas muito acima da média, temperaturas elevadas e relatos de alagamentos nas áreas produtoras estão entre os fatores de preocupação. A umidade excessiva favorece doenças fúngicas e dificulta a fermentação e a secagem das amêndoas.
Na avaliação da StoneX, os efeitos sobre produtividade e qualidade podem aparecer com maior intensidade no primeiro semestre de 2027. O período é importante porque a oferta equatoriana poderia ajudar a compensar a menor disponibilidade no Oeste Africano.
Na Indonésia, o principal risco é a falta de chuva. As precipitações de setembro ficaram mais de 70% abaixo da média, acompanhadas por uma redução acentuada da umidade do solo. Nesse contexto, a consultoria revisou a previsão de produção para 195 mil toneladas em 2026/27.
Produção de cacau no Brasil é estimada em 210 mil toneladas
A safra brasileira deve atingir 210 mil toneladas em 2026/27, abaixo das 226 mil toneladas estimadas para 2025/26.
O ciclo anterior apresentou desempenho favorável, com crescimento de aproximadamente 25% nos recebimentos de amêndoas. Para a nova temporada, a atenção se volta à estiagem e às queimadas na região da Transamazônica, no Pará, além do risco de chuvas abaixo da média no sul da Bahia entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
A consultoria ressalta, porém, que as informações disponíveis ainda não permitem quantificar perdas relevantes na produção paraense. Assim, os riscos climáticos exigem acompanhamento, mas não devem ser tratados como prejuízos já confirmados.
Moagem cresce, mas consumo de chocolate ainda exige cautela
A moagem de cacau nas regiões acompanhadas somou 903 mil toneladas no terceiro trimestre, superando as expectativas e se aproximando do patamar registrado em 2024.
O avanço foi liderado pela Ásia e pela Costa do Marfim. Na Europa, houve a primeira alta na comparação anual desde 2024.
Esse desempenho, entretanto, não indica uma recuperação equivalente do consumo final de chocolate. Parte do crescimento está relacionada à recomposição de estoques das processadoras e à ampliação do processamento nos próprios países produtores.
Diante dos resultados, a StoneX elevou em 30 mil toneladas sua estimativa de demanda global para 2025/26, para 4,69 milhões de toneladas.
Bezzon avalia que os indicadores dos derivados ainda mostram uma demanda seletiva. Uma recuperação mais consistente dependerá, principalmente, da melhora das compras de manteiga e líquor de cacau.
Estoques oferecem proteção, mas devem voltar a diminuir
O superávit de 2025/26 deve levar os estoques mundiais a aproximadamente 1,83 milhão de toneladas, com a relação estoque/uso no maior nível desde 2020/21.
Essa recomposição sucede os déficits registrados entre 2021/22 e 2023/24, que reduziram os estoques às mínimas da série e contribuíram para os preços recordes de 2024.
Para 2026/27, o déficit previsto deve diminuir as reservas para cerca de 1,77 milhão de toneladas, com relação estoque/uso próxima de 37%.
Embora esse patamar ainda ofereça maior segurança do que o observado em 2023/24, a StoneX calcula que uma perda adicional de 100 mil toneladas pode retirar aproximadamente dois pontos percentuais da relação estoque/uso.
Clima e chegadas aos portos vão orientar o mercado do cacau
O déficit projetado para 2026/27 é menor do que os registrados nos ciclos recentes de maior restrição de oferta. Ainda assim, a combinação de queda na produção e riscos climáticos torna o mercado mais vulnerável a revisões nas estimativas.
Segundo Rossetti, o ritmo de chegada das amêndoas aos portos da Costa do Marfim e a evolução do El Niño estarão entre os principais indicadores para acompanhar o balanço mundial.
A direção dos preços dependerá da confirmação da safra, da disponibilidade efetiva de cacau e da capacidade de recuperação da demanda por derivados.
Fonte: Portal do Agronegócio
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