Crédito agro movimenta R$ 404 bilhões e exige tecnologia e governança para reduzir riscos
Inteligência artificial, monitoramento contínuo, compartilhamento de dados, integração entre áreas e gestão de garantias estão entre as estratégias para tornar o crédito rural mais seguro e sustentável
Publicado em: 18/08/2026 às 13:30hs
O crédito rural brasileiro movimentou R$ 404 bilhões entre julho de 2025 e março de 2026, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O avanço de 10% em relação ao mesmo período da safra anterior reforça a importância do financiamento para o agronegócio, mas também aumenta o desafio de controlar riscos em um ambiente marcado por volatilidade climática, preços de commodities, endividamento e maior complexidade nas operações.
Diante desse cenário, tecnologia e governança ganham espaço na gestão do crédito agro. Debates promovidos pelo CONACREDI, congresso que reúne profissionais de crédito de indústrias, tradings, revendas, cooperativas e instituições financeiras, apontam cinco caminhos para melhorar a segurança e a eficiência das decisões.
Entre as principais recomendações estão o uso estratégico da inteligência artificial, o monitoramento da operação durante toda a safra, a integração de informações entre os agentes, a aproximação entre as áreas comercial e de crédito e o fortalecimento da governança das garantias.
1. Inteligência artificial deve apoiar, e não substituir, a análise de crédito
A inteligência artificial no crédito rural pode ampliar a capacidade de análise das equipes e acelerar processos que tradicionalmente exigem grande volume de informações.
Ferramentas baseadas em IA podem ser utilizadas para identificar sinais de deterioração da carteira, cruzar dados financeiros, cadastrais e comportamentais e apoiar modelos de avaliação de risco.
A recomendação, porém, é que a tecnologia seja utilizada como instrumento de apoio à decisão.
Para Mayra Delfino, CEO do CONACREDI, a transformação do crédito agro depende da combinação entre tecnologia, conhecimento técnico e governança.
“A tecnologia amplia a capacidade de análise, mas não elimina a responsabilidade de quem toma a decisão.”
Nesse modelo, algoritmos e sistemas automatizados aumentam a capacidade analítica, enquanto profissionais especializados continuam responsáveis pela interpretação dos resultados e pela decisão final.
2. Monitoramento do risco precisa continuar durante toda a safra
No agronegócio, a análise realizada no momento da concessão representa apenas uma fotografia da operação.
Depois da liberação dos recursos, diversos fatores podem alterar a capacidade de pagamento do produtor. Clima, produtividade, preços agrícolas, custos de produção e condições da lavoura podem modificar significativamente o risco ao longo da safra.
Por isso, o monitoramento contínuo do crédito agro passa a ser uma ferramenta estratégica.
Indicadores climáticos, imagens de satélite, evolução da produção e comportamento financeiro do produtor podem ser acompanhados para identificar sinais de deterioração antes que o problema se transforme em inadimplência.
O desafio ganha relevância diante da própria volatilidade da produção agrícola brasileira. Em janeiro de 2026, o IBGE estimou produção de 339,8 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas para a safra 2026, enquanto a produção de 2025 havia alcançado 346,1 milhões de toneladas.
3. Compartilhamento de dados amplia a visão sobre o risco
Outro caminho apontado pelo CONACREDI é a integração de informações entre os diferentes participantes da cadeia.
Cooperativas, tradings, revendas, instituições financeiras e empresas de tecnologia possuem dados distintos sobre produtores, operações, histórico de relacionamento e capacidade produtiva.
Quando essas informações permanecem isoladas, a análise pode ficar limitada. A integração, por outro lado, permite reduzir assimetrias e construir uma visão mais ampla do perfil de risco.
“O crédito agro envolve uma cadeia inteira, e a qualidade da decisão melhora quando os agentes conseguem transformar informações dispersas em inteligência para a concessão e o acompanhamento”, explica Mayra Delfino.
A tendência é que o uso estruturado de dados se torne cada vez mais importante para decisões de crédito mais precisas e personalizadas.
4. Crédito e área comercial precisam trabalhar de forma integrada
A expansão da carteira de crédito não precisa ocorrer em oposição ao controle de risco.
A aproximação entre áreas comercial e de crédito pode permitir maior compartilhamento de informações, definição conjunta de políticas e avaliação mais adequada das características de cada operação.
Para o CONACREDI, a integração também depende de capacitação permanente de equipes e produtores.
O objetivo é criar uma cultura de crédito capaz de equilibrar crescimento da carteira, relacionamento comercial e controle de exposição.
A evolução dos instrumentos de financiamento reforça esse desafio. Segundo o Mapa, as operações com Cédula de Produto Rural (CPR) cresceram 39% entre julho de 2025 e fevereiro de 2026.
O aumento mostra a importância de estruturas de financiamento capazes de atender às necessidades do setor, ao mesmo tempo em que exigem mecanismos eficientes de avaliação e acompanhamento.
5. Governança das garantias é fundamental para reduzir perdas
A quinta recomendação envolve o fortalecimento da governança das garantias do crédito rural.
CPRs digitais, seguros agrícolas e novas estruturas de garantia ampliam as possibilidades de proteção das operações. Entretanto, esses instrumentos precisam fazer parte de uma estrutura de governança capaz de acompanhar toda a operação.
Entre os pontos considerados essenciais estão:
- documentação adequada;
- critérios claros para concessão;
- avaliação consistente das garantias;
- acompanhamento da operação;
- monitoramento da carteira;
- estruturas jurídicas com maior previsibilidade.
A governança deve começar antes da concessão e permanecer ativa durante todo o ciclo do crédito.
“Governança não é uma etapa posterior à concessão. Ela precisa estar presente desde a análise, passando pela estruturação das garantias e chegando ao monitoramento da carteira”, afirma Mayra Delfino.
Crédito rural entra em uma nova fase de gestão de riscos
O crescimento do volume de recursos destinados ao agronegócio aumenta a necessidade de ferramentas capazes de identificar riscos com maior antecedência.
Nesse ambiente, a combinação entre dados, inteligência artificial, acompanhamento da safra, integração entre agentes e governança tende a ganhar importância na estratégia das empresas que concedem crédito ao produtor rural.
Mais do que acelerar a aprovação de operações, a tecnologia pode ajudar a transformar grandes volumes de dados em informações úteis para decisões mais precisas.
Ao mesmo tempo, a governança cria as bases para que essas decisões sejam tomadas com critérios claros e acompanhadas ao longo do tempo.
CONACREDI 2026 discutirá futuro do crédito agro
As cinco estratégias estarão entre os temas discutidos durante o CONACREDI 2026, que terá como tema central “Governança: o que sustenta o crédito agro em um mercado cada vez mais exposto a riscos, desafios, oportunidades, aprendizados e decisões que estão redefinindo o setor”.
O congresso será realizado nos dias 11 e 12 de novembro de 2026, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo (SP).
O evento reunirá profissionais envolvidos na concessão, gestão e análise de crédito para o agronegócio, colocando em debate as mudanças que estão transformando o financiamento da produção rural.
Tecnologia e governança podem redefinir o crédito agro
Com R$ 404 bilhões movimentados pelo crédito rural empresarial até março de 2026, o mercado brasileiro entra em uma fase na qual ampliar a oferta de recursos precisa caminhar lado a lado com o controle de riscos.
Para produtores, cooperativas, tradings, revendas e instituições financeiras, a tendência é de uma gestão cada vez mais orientada por dados, monitoramento e integração.
Nesse cenário, tecnologia não substitui a experiência humana e governança não é apenas uma etapa burocrática. Juntas, elas formam uma estrutura para tornar o crédito mais previsível, eficiente e sustentável e preservar sua função estratégica no crescimento do agronegócio brasileiro.
Fonte: Portal do Agronegócio
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