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Assuntos Jurídicos

Recuperação judicial no agronegócio dispara 56,4% mesmo com safra recorde de grãos

Brasil produziu 346 milhões de toneladas de grãos em 2025, mas pedidos de recuperação judicial chegaram a 1.990; custos elevados, juros, crédito restrito e queda das margens ampliam a pressão sobre produtores e empresas rurais


Publicado em: 17/08/2026 às 16:30hs

Recuperação judicial no agronegócio dispara 56,4% mesmo com safra recorde de grãos

O agronegócio brasileiro atravessa um dos períodos mais contraditórios de sua história recente. Enquanto o país alcançou uma safra recorde de 346 milhões de toneladas de grãos em 2025, o número de pedidos de recuperação judicial no setor avançou de forma expressiva.

Segundo dados citados em levantamento da Serasa Experian, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2025, crescimento de 56,4% em relação a 2024 e o maior volume desde o início da série histórica, em 2021.

O cenário revela uma questão central para o campo: aumento da produção não significa necessariamente aumento da rentabilidade.

A combinação de custos elevados, juros, menor disponibilidade de crédito, endividamento acumulado e pressão sobre os preços das commodities criou um ambiente financeiro mais desafiador para produtores rurais e empresas ligadas à cadeia agropecuária.

Safra recorde não significa lucro recorde

O desempenho da produção agrícola brasileira em 2025 foi histórico. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram produção de 346 milhões de toneladas de grãos, com soja e milho também apresentando volumes elevados.

Entretanto, o resultado produtivo não foi suficiente para impedir a deterioração das margens de parte dos produtores.

Na avaliação de Renato Ewerton de Melo, advogado especialista em Direito Empresarial que atua pela RDS Advogados Associados, o problema está relacionado principalmente à combinação entre aumento dos custos, redução da rentabilidade, dificuldade de acesso ao crédito e dívidas acumuladas de ciclos anteriores.

O resultado é uma equação preocupante: mais produção, mas com menor retorno financeiro por unidade produzida.

Custos de produção pressionam agricultores

Um dos principais fatores por trás da crise financeira é o aumento dos custos de produção.

Segundo dados apresentados no levantamento, os custos voltaram a níveis próximos aos registrados em 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou fortes impactos sobre as cadeias internacionais de fertilizantes e outros insumos agrícolas.

Os fertilizantes têm peso significativo na estrutura de custos das lavouras e, de acordo com informações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) citadas no estudo, registraram alta próxima de 18%.

A dependência brasileira das importações de insumos também aumenta a exposição do produtor às oscilações do dólar, petróleo e preços internacionais.

Quando os custos sobem mais rapidamente que os preços recebidos pela produção, a margem operacional diminui.

Rentabilidade da soja recua e amplia pressão sobre o produtor

A soja está entre as principais culturas afetadas pelo descompasso entre custos e receitas.

Conforme o levantamento de Renato Ewerton de Melo, a rentabilidade da soja teria recuado aproximadamente 48% entre as safras 2024/25 e 2025/26.

Em propriedades arrendadas, a pressão pode ser ainda maior, devido à necessidade de incorporar o custo do arrendamento à estrutura financeira da atividade.

O problema se torna mais evidente quando o produtor tenta compensar margens menores aumentando a área plantada.

Mais hectares significam maior necessidade de capital para sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, máquinas, mão de obra e serviços. Se a margem por hectare diminui, a expansão pode elevar simultaneamente a produção e o endividamento.

Crédito rural mais caro agrava endividamento

O cenário financeiro também foi afetado pela redução da disponibilidade de crédito.

Segundo os dados apresentados no levantamento, as concessões de crédito rural recuaram 17%, enquanto determinadas taxas de juros do Plano Safra chegaram a 14%.

Para produtores que já carregavam compromissos financeiros de safras anteriores, a combinação entre menor oferta de crédito e custo financeiro mais elevado reduziu a capacidade de refinanciar dívidas.

O resultado foi o aumento da inadimplência rural, que teria encerrado 2025 em 8,2%, segundo os dados citados no estudo.

A situação atinge diferentes perfis de produtores, incluindo grandes propriedades e arrendatários.

Recuperações judiciais no agro batem recorde

A deterioração das condições financeiras ajuda a explicar o crescimento dos pedidos de recuperação judicial.

Foram 1.990 pedidos em 2025, alta de 56,4% sobre o ano anterior.

O avanço indica que as dificuldades deixaram de representar apenas problemas isolados e passaram a refletir uma combinação mais ampla de fatores econômicos, financeiros e produtivos.

Durante períodos de crédito abundante, produtores e empresas conseguem, em alguns casos, utilizar novas operações para reorganizar compromissos anteriores.

Quando os juros aumentam, o crédito fica mais restrito e as margens diminuem, porém, essa estratégia perde capacidade de sustentação.

Clima e preços das commodities também pesam

A crise financeira do agronegócio não pode ser atribuída a um único fator.

Levantamento da NEOT citado por Melo aponta que frustrações de safra e eventos climáticos aparecem em 85% dos processos analisados, seguidos por fatores como queda dos preços das commodities e descompasso entre custos e receitas.

O clima exerce impacto particularmente relevante porque pode reduzir a produtividade justamente quando o produtor já possui compromissos financeiros contratados.

Uma quebra de produção significa menor receita, mas não necessariamente redução proporcional das despesas financeiras, arrendamentos e outros custos fixos.

Crescimento agrícola aumenta necessidade de capital

A expansão do agronegócio brasileiro nos últimos anos também elevou a necessidade de capital para financiar a atividade.

Maior área cultivada significa mais investimentos em máquinas, armazenagem, insumos, logística e tecnologia.

Esse processo aumenta a capacidade produtiva, mas também amplia a exposição a fatores como clima, câmbio, juros e preços internacionais.

Por isso, períodos de forte crescimento podem esconder fragilidades financeiras que aparecem quando as condições de mercado mudam.

A produção recorde de 2025 evidencia justamente esse contraste: o país conseguiu ampliar significativamente o volume produzido, mas parte dos agentes não conseguiu transformar esse crescimento em geração suficiente de caixa.

Crise financeira ganha dimensão institucional

A deterioração financeira do setor também passou a ocupar espaço no debate institucional.

Segundo o artigo utilizado como base para a análise, o Senado aprovou uma proposta de renegociação de dívidas rurais com impacto estimado de até R$ 140 bilhões na dívida pública.

O movimento demonstra a dimensão que o problema alcançou e amplia a discussão sobre mecanismos de renegociação, crédito rural e sustentabilidade financeira do setor.

Ao mesmo tempo, produtores e empresas que recorrem à recuperação judicial enfrentam um ambiente de maior exigência por parte do Judiciário.

Transparência ganha peso na recuperação judicial

A recuperação judicial não deve ser tratada como mecanismo automático para impedir a cobrança de dívidas.

Segundo a análise de Renato Ewerton de Melo, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reforçam a importância da transparência e da adequada apresentação das informações financeiras nos processos.

Na prática, produtores e empresas precisam demonstrar de forma consistente sua situação econômica, patrimonial e financeira, além da capacidade de reorganização das atividades.

Informações sobre patrimônio, dívidas, fluxo de caixa e perspectivas de geração de recursos tornam-se fundamentais para a avaliação do processo.

Nesse contexto, governança e dados confiáveis passam a ter papel estratégico na recuperação de empresas e produtores em dificuldades.

Gestão financeira se torna tão importante quanto produtividade

O aumento dos pedidos de recuperação judicial reforça uma mudança de paradigma no agronegócio.

Durante muito tempo, a expansão da produção foi um dos principais caminhos para aumentar a geração de receita. O cenário atual mostra, porém, que produtividade e escala precisam estar acompanhadas de gestão financeira, controle de custos e proteção de margens.

A atividade rural continuará exposta a variáveis que não podem ser controladas pelo produtor, como clima, câmbio, juros e preços internacionais.

Por isso, o planejamento financeiro precisa considerar também cenários adversos.

Produtores que trabalham apenas com a expectativa de preços melhores na próxima safra podem enfrentar dificuldades para atravessar períodos prolongados de margens comprimidas.

Recuperação judicial pode ser instrumento de reorganização

A recuperação judicial pode representar uma alternativa para produtores e empresas que apresentam dificuldades financeiras, desde que utilizada dentro de uma estratégia de reorganização.

O instrumento, entretanto, não elimina as causas econômicas do problema.

Sem revisão da estrutura de custos, renegociação adequada das obrigações, melhoria da governança e planejamento de fluxo de caixa, a recuperação judicial pode não ser suficiente para garantir a sustentabilidade do negócio.

A tendência é que produtores e empresas precisem adotar uma postura cada vez mais preventiva, identificando sinais de deterioração financeira antes que a crise se torne irreversível.

O desafio agora é produzir com rentabilidade

A experiência de 2025 deixa uma mensagem importante para o agronegócio brasileiro: volume de produção e saúde financeira são indicadores diferentes.

O Brasil demonstrou novamente sua capacidade de produzir em escala, mas o aumento da oferta não garante, por si só, melhores resultados econômicos para todos os agentes da cadeia.

Com custos elevados, crédito mais caro, volatilidade das commodities e riscos climáticos, a gestão das margens passa a ser um dos principais fatores de competitividade.

Para o produtor rural, o desafio da próxima etapa não será apenas colher mais. Será produzir de forma eficiente, controlar custos, administrar o endividamento, proteger o caixa e manter capacidade financeira para atravessar períodos de maior volatilidade.

O avanço das recuperações judiciais mostra que o agronegócio brasileiro entra em uma nova fase, na qual gestão de risco e planejamento financeiro passam a ter importância equivalente à produtividade e à expansão da produção.

Os principais números da crise financeira no agro
  • 346 milhões de toneladas: produção brasileira de grãos em 2025;
  • 1.990: pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2025;
  • 56,4%: crescimento dos pedidos de recuperação judicial em relação a 2024;
  • 48%: queda aproximada da rentabilidade da soja entre as safras 2024/25 e 2025/26, segundo o levantamento citado;
  • 17%: recuo nas concessões de crédito rural;
  • 14%: taxa de juros do Plano Safra citada no levantamento;
  • 8,2%: inadimplência rural registrada em 2025, segundo os dados apresentados;
  • 85%: participação de frustrações de safra e eventos climáticos nos processos analisados pela NEOT, conforme levantamento citado;
  • R$ 140 bilhões: impacto estimado na dívida pública da proposta de renegociação de dívidas rurais mencionada no artigo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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