Endividamento no agronegócio cresce e recuperação de ativos ganha protagonismo entre produtores rurais
Mesmo com safra recorde e avanço da produção agrícola, aumento da inadimplência, restrição de crédito e recuperações judiciais desafiam empresas e produtores do campo
Publicado em: 06/08/2026 às 08:00hs
Valdo Silveira: Advogado especialista em recuperação de ativos e CEO da Leme
Por: Liliane Scaratti
O agronegócio brasileiro atravessa um momento de contrastes. De um lado, o setor mantém sua trajetória de crescimento, amplia a produção e registra novos recordes de produtividade. De outro, produtores rurais e empresas ligadas à cadeia agropecuária enfrentam um cenário de maior pressão financeira, marcado pelo avanço do endividamento, dificuldades de acesso ao crédito e aumento dos processos de recuperação judicial.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos 2025/26 deve alcançar 360,1 milhões de toneladas, crescimento de 2,2% em relação à temporada anterior, representando um incremento de aproximadamente 7,8 milhões de toneladas na produção nacional.
Apesar dos números positivos no campo, o ambiente financeiro exige atenção. Dados da Serasa Experian apontam que o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior volume desde o início da série histórica e uma alta de 56,4% na comparação anual.
A pressão também aparece nos indicadores de inadimplência. No primeiro trimestre de 2026, o índice de produtores e empresas rurais com dificuldades de pagamento chegou a 8,8%, atingindo o maior nível já registrado pelo levantamento da Serasa Experian.
Especialistas avaliam que o cenário atual exige uma nova abordagem na gestão financeira do campo, envolvendo planejamento, renegociação de passivos, recuperação de ativos e estratégias jurídicas e econômicas para preservar a continuidade das atividades produtivas.
Nesta entrevista ao Portal do Agronegócio em parceria com a Engenharia de Comunicação, Valdo Silveira, especialista em recuperação de ativos e CEO da Leme, analisa os principais desafios enfrentados pelo setor, explica os caminhos para a recuperação financeira de produtores rurais e empresas agropecuárias e aponta quais estratégias podem ajudar o agro brasileiro a superar o atual ciclo de maior pressão sobre o crédito e o endividamento.
Crédito, recuperação judicial e recuperação de ativos no agronegócio
1. O que explica o aumento das recuperações judiciais no agronegócio?
Produção recorde não significa, necessariamente, rentabilidade recorde. O aumento das recuperações judiciais está relacionado à redução das margens, aos juros elevados, às perdas climáticas regionais, ao endividamento acumulado e ao descasamento entre vencimentos e recebimento da produção.
Muitos produtores também expandiram suas operações em períodos de preços elevados e passaram a enfrentar estruturas de custos incompatíveis com a geração atual de caixa.
Além disso, a maior clareza jurídica sobre o acesso do produtor rural à recuperação judicial ampliou a utilização desse instrumento.
2. Como funciona a recuperação judicial no agro?
A recuperação judicial permite que produtores e empresas rurais economicamente viáveis reorganizem suas dívidas sob supervisão judicial.
O devedor deve comprovar sua atividade, apresentar informações financeiras e patrimoniais, relacionar credores e demonstrar as causas da crise.
Depois disso, apresenta um plano que pode prever alongamento de prazos, carência, redução de juros, deságio, venda de ativos e pagamentos vinculados às safras. O plano pode ser negociado e votado pelos credores.
3. Como as instituições financeiras estão adaptando a análise de risco?
As análises estão mais rigorosas e baseadas em informações financeiras, patrimoniais, jurídicas e produtivas.
As instituições avaliam principalmente:
- capacidade de geração de caixa;
- nível de endividamento;
- produtividade;
- qualidade das garantias;
- regularidade jurídica dos ativos;
- histórico de pagamento;
- qualidade da gestão e da governança.
Em cenários de maior risco, há tendência de restrição do crédito, aumento das exigências e direcionamento dos recursos para operações mais seguras.
4. Como funcionam as novas metodologias de diligência?
A diligência está se tornando mais técnica e contínua.
Além da análise documental, são utilizadas:
- visitas às propriedades;
- avaliação do processo produtivo;
- análise de produtividade e manejo;
- imagens de satélite;
- dados climáticos;
- georreferenciamento;
- monitoramento das garantias;
- consultas jurídicas, patrimoniais e ambientais.
O objetivo é verificar se as informações apresentadas correspondem à realidade da operação.
5. Como os seguros interferem na análise de crédito?
O seguro rural reduz o impacto financeiro de eventos climáticos e pode melhorar a qualidade do crédito, mas não elimina o risco.
A instituição deve avaliar a cobertura, o valor segurado, as franquias, as exclusões e a vinculação da indenização ao pagamento da dívida.
Apesar de sua importância, o seguro ainda é pouco utilizado devido ao custo elevado, à instabilidade da subvenção pública e às limitações de cobertura em algumas culturas e regiões.
6. Como a recuperação de ativos mudou?
A recuperação de crédito deixou de começar apenas após o inadimplemento. Atualmente, as estratégias mais eficazes começam na concessão do crédito.
Isso envolve:
- estruturação adequada dos títulos e garantias;
- registros corretos;
- monitoramento contínuo;
- identificação antecipada de sinais de risco;
- levantamento patrimonial;
- negociação preventiva;
- atuação jurídica e investigativa coordenada.
Quanto mais cedo o risco é identificado, maiores são as possibilidades de recuperação.
7. Quais são os impactos da inadimplência sobre o crédito?
O aumento da inadimplência eleva o custo de capital e reduz a disponibilidade de crédito.
Como consequência, podem ocorrer:
- juros mais altos;
- redução dos limites;
- prazos menores;
- exigência de garantias adicionais;
- maior seletividade;
- restrição para determinadas regiões, culturas ou perfis de produtores.
Esse efeito pode atingir toda a cadeia, inclusive produtores com bom histórico de pagamento.
8. Qual é o papel da investigação patrimonial?
A investigação patrimonial busca identificar os bens reais do devedor, dos garantidores e de eventual grupo econômico, dando clareza da estrutura operacional, do grupo economico, da identificação do patrimonio total, bem como sua liquidez
Ela analisa imóveis, máquinas, empresas, recebíveis, estoques, transferências de patrimônio e vínculos familiares ou societários.
Também permite identificar possíveis atos de ocultação, fraude, esvaziamento patrimonial ou transferência de ativos para terceiros.
9. Quais são as principais tendências?
As principais tendências são:
- crédito cada vez mais baseado em dados;
- uso de inteligência artificial e modelos preditivos;
- monitoramento remoto e contínuo;
- maior diferenciação entre produtores;
- fortalecimento das garantias vinculadas à produção e aos recebíveis;
- integração entre análise financeira, jurídica, agronômica e patrimonial;
- recuperação de ativos mais preventiva e tecnológica.
A tendência é que produtores com maior organização financeira, transparência e governança tenham melhores condições de acesso ao crédito, pois representam um risco menor.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras entrevistas