Suinocultura acumula prejuízo de R$ 120 por animal e excesso de oferta pressiona preços
Preço do suíno vivo ficou abaixo do custo de produção no Sul, enquanto exportações cresceram 7,5% no ano; Itaú BBA aponta necessidade de reduzir o ritmo produtivo para recuperar margens
Publicado em: 19/08/2026 às 10:30hs
A elevada oferta de carne suína no mercado brasileiro derrubou os preços e aprofundou as perdas dos produtores em julho. Mesmo com o desempenho positivo das exportações, o volume disponível no mercado interno permaneceu acima da capacidade de absorção da demanda.
A análise faz parte do Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo a instituição, a recuperação da rentabilidade dependerá de uma desaceleração mais consistente da produção, além da manutenção do ritmo dos embarques.
Preço do suíno fica abaixo do custo na Região Sul
Na Região Sul, o suíno vivo foi negociado em julho por aproximadamente R$ 5,15 por quilo, enquanto o custo de produção ficou próximo de R$ 6,20 por quilo.
Essa diferença negativa resultou em prejuízo estimado de cerca de R$ 120 por animal terminado. O cenário evidencia a forte deterioração das margens, mesmo sem uma elevação relevante dos custos de produção no período.
O spread da suinocultura ficou negativo em 19% em julho, refletindo o descompasso entre o valor recebido pelo produtor e as despesas necessárias para manter a atividade.
Preços caem em São Paulo e meia carcaça recua 12%
A pressão também foi observada no estado de São Paulo. Entre 13 de julho e 13 de agosto, o preço do animal registrou queda de 2,5%.
No atacado, a meia carcaça suína apresentou retração ainda mais intensa, de 12%. O produto atingiu o menor valor nominal desde 2022 e ficou 42% abaixo do preço registrado no mesmo período do ano passado.
A carne suína manteve forte competitividade em relação ao frango, mas a vantagem de preço não foi suficiente para estimular a demanda na intensidade necessária para absorver a oferta disponível.
Exportações de carne suína chegam a 115 mil toneladas
O mercado externo apresentou desempenho mais favorável. O Brasil exportou 115 mil toneladas de carne suína in natura em julho, volume praticamente estável diante de junho e 2,3% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.
Entre janeiro e julho de 2026, os embarques cresceram 7,5% na comparação anual. O avanço confirma a importância do comércio exterior para o equilíbrio da suinocultura brasileira.
Apesar do resultado positivo, o ritmo das vendas internacionais perdeu força ao longo do segundo trimestre. A desaceleração aumentou a quantidade de carne destinada ao mercado doméstico, especialmente em junho, contribuindo para a queda das cotações.
Filipinas, Japão e Chile ampliam compras
As Filipinas, o Japão e o Chile permaneceram como os três principais destinos da carne suína brasileira e ampliaram suas compras no acumulado do ano.
As exportações para as Filipinas cresceram 9%, enquanto os embarques destinados ao Japão avançaram 72%. Para o Chile, o aumento foi de 6%.
A expansão nesses mercados ajudou a escoar parte do crescimento da produção brasileira. Entretanto, o volume exportado não foi suficiente para impedir o aumento da disponibilidade interna.
Preço médio exportado recua e reduz margem
Embora o volume exportado tenha aumentado, o preço médio da carne suína in natura caiu 3,8% em julho na comparação com junho.
Com a desvalorização, o spread das exportações recuou para 36%, retornando à média dos últimos cinco anos. Em junho, o indicador havia alcançado 39%.
A redução mostra que os embarques continuam importantes para a atividade, mas passaram a oferecer margens menores em relação ao mês anterior.
Crescimento da produção mantém mercado pressionado
Os indicadores analisados pelo Itaú BBA apontam que a produção de carne suína cresce em ritmo superior ao registrado em 2025.
No início do ano, o bom desempenho das exportações contribuiu para manter a oferta doméstica relativamente equilibrada. No encerramento do segundo trimestre, porém, a perda de ritmo dos embarques elevou a disponibilidade interna.
Diante desse aumento, o consumo doméstico teve dificuldade para absorver integralmente a produção. O resultado foi a continuidade da pressão sobre os preços pagos aos suinocultores e sobre as cotações da carne no atacado.
Desaceleração dos abates pode aliviar cotações
O relatório aponta sinais preliminares de redução do ritmo de abates em julho. Caso esse movimento ganhe força, a menor produção poderá diminuir gradualmente a pressão sobre os preços.
O efeito, no entanto, tende a ser limitado se as exportações perderem tração. Com os embarques retornando a volumes mais próximos dos registrados no ano passado, parte da redução da produção pode ser neutralizada pelo aumento da disponibilidade interna.
Para o Itaú BBA, uma moderação mais consistente da atividade será necessária para reequilibrar o mercado e restabelecer margens adequadas aos produtores.
Recuperação da rentabilidade depende de ajuste na oferta
A perspectiva de curto prazo permanece cautelosa. Apesar da competitividade da carne suína diante de outras proteínas, a recuperação dos preços depende principalmente de um ajuste entre produção, exportações e consumo doméstico.
Ainda existem dúvidas sobre a intensidade e a velocidade dessa correção. Enquanto a oferta permanecer elevada, os preços podem continuar pressionados, mesmo que os custos de produção se mantenham relativamente controlados.
Uma eventual desaceleração mais forte das exportações aumentaria o risco de novas perdas, pois direcionaria uma parcela maior da produção ao mercado brasileiro.
El Niño aumenta incertezas sobre custos em 2027
Além do desequilíbrio entre oferta e demanda, a suinocultura acompanha os riscos climáticos associados ao El Niño na safra 2026/27.
Embora o cenário atual dos insumos seja relativamente favorável, eventuais impactos sobre a produção de milho podem elevar os custos da alimentação animal em 2027. A principal preocupação está concentrada na safrinha, período determinante para a oferta nacional do cereal.
Como milho e farelo de soja representam grande parte das despesas da atividade, problemas climáticos podem dificultar ainda mais a recuperação das margens.
Suinocultura exige controle produtivo e gestão de riscos
O mercado de suínos deverá permanecer pressionado até que ocorra uma redução mais consistente da oferta. O avanço das exportações ajuda a limitar os excedentes, mas não elimina a necessidade de adequação do ritmo produtivo.
Para os produtores, o momento exige maior atenção aos custos, à comercialização e à proteção dos insumos. O desempenho dos embarques e a evolução da safra de milho serão decisivos para determinar as condições da atividade ao longo de 2027.
Fonte: Portal do Agronegócio
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