Seca aumenta riscos de clostridioses no rebanho e exige reforço no manejo preventivo
Escassez de pastagens, água contaminada, alimentos mal conservados e mudanças bruscas na dieta podem favorecer doenças graves, especialmente durante a entrada dos bovinos no confinamento
Publicado em: 25/08/2026 às 07:30hs
O período seco exige atenção redobrada dos pecuaristas com a alimentação, a qualidade da água e o protocolo sanitário do rebanho. A menor disponibilidade de pastagens leva ao aumento da suplementação, ao uso de alimentos conservados e à transferência de animais para sistemas de confinamento, mudanças que podem ampliar os fatores de risco relacionados às clostridioses.
Embora a seca não seja a causa direta dessas doenças, a restrição nutricional, a concentração do gado em poucos pontos de água, o consumo de alimentos contaminados e a adaptação inadequada às dietas com maior teor de concentrado podem elevar a vulnerabilidade dos bovinos.
A prevenção deve começar antes do surgimento dos primeiros sinais clínicos, pois algumas clostridioses evoluem rapidamente, provocam mortes súbitas e apresentam possibilidades limitadas de tratamento.
Crescimento do confinamento reforça atenção sanitária
O alerta ganha relevância com o avanço da terminação intensiva na pecuária brasileira. Segundo o Censo de Confinamento Brasil 2025, 9,25 milhões de bovinos abatidos no país passaram por sistemas de confinamento.
O volume representa crescimento de 16% em relação a 2024 e o maior resultado da série histórica do levantamento.
A expansão desse modelo produtivo aumenta a necessidade de protocolos sanitários e nutricionais bem estruturados. A entrada no confinamento normalmente envolve transporte, mistura de animais de diferentes origens, mudança de ambiente, manejo no curral e alteração da dieta, fatores capazes de gerar estresse e afetar a resposta imunológica.
O que são as clostridioses bovinas?
As clostridioses são enfermidades provocadas por bactérias do gênero Clostridium ou pelas toxinas produzidas por esses microrganismos. Os agentes podem estar presentes no solo, na água, nos alimentos e no organismo dos próprios animais.
Entre as principais clostridioses que afetam os bovinos estão:
- Botulismo;
- Tétano;
- Carbúnculo sintomático, conhecido como manqueira;
- Gangrena gasosa;
- Enterotoxemias;
- Hemoglobinúria bacilar.
Essas doenças podem causar perdas produtivas, comprometimento do desempenho, mortalidade e prejuízos econômicos expressivos. A vacinação, combinada às boas práticas de manejo, representa uma das principais formas de proteção.
Restrição alimentar pode expor animais à contaminação
Durante a seca, a redução da quantidade e da qualidade das pastagens pode levar os bovinos a procurar fontes alternativas de alimento. Esse comportamento aumenta a possibilidade de contato com plantas tóxicas, resíduos orgânicos, ossos e outros materiais contaminados.
De acordo com Ingo Mello, médico-veterinário e gerente técnico de Gado de Corte da Ourofino Saúde Animal, o desafio não se limita à perda de qualidade das pastagens. A diminuição do volume e a deterioração da água disponível também devem ser acompanhadas pelos produtores.
A suplementação mineral adequada é especialmente importante nesse período. Deficiências nutricionais podem estimular comportamentos anormais, como a ingestão de ossos ou restos de carcaças, ampliando a exposição dos animais a agentes causadores de doenças.
Água e alimentos contaminados elevam risco de botulismo
O botulismo está entre as enfermidades que exigem maior atenção durante a estiagem. A doença é provocada pelas toxinas produzidas pela bactéria Clostridium botulinum e pode causar paralisia muscular progressiva e morte.
A contaminação pode ocorrer pela ingestão de água, ração, silagem ou feno contendo matéria orgânica em decomposição. Restos de pequenos animais, aves e carcaças misturados aos alimentos também representam fontes potenciais das toxinas.
Para reduzir os riscos, açudes, bebedouros, reservatórios e caixas d’água devem ser inspecionados e higienizados regularmente, principalmente quando a redução do volume aumenta a concentração de matéria orgânica.
Silagens, fenos e rações precisam ser armazenados adequadamente e avaliados antes do fornecimento. Alimentos com sinais de deterioração, presença de carcaças ou alterações de odor e aparência não devem ser oferecidos ao rebanho.
A retirada rápida e a destinação correta dos animais mortos também são fundamentais para evitar a contaminação do ambiente, da água e das fontes de alimentação.
Mudança brusca de dieta ameaça animais no confinamento
A transição do pastejo para dietas com maior quantidade de concentrado é outro momento crítico. A adaptação deve ocorrer gradualmente, com formulação equilibrada e acompanhamento de profissionais especializados.
Alterações abruptas, falhas na mistura dos ingredientes, irregularidade no fornecimento e consumo excessivo de concentrado podem comprometer o ambiente ruminal. Entre as consequências estão queda no consumo, distúrbios metabólicos e maior exposição a enfermidades associadas às bactérias do gênero Clostridium.
Além da dieta, o transporte, o processamento no curral, a mudança de instalações e a formação de novos lotes aumentam o estresse dos bovinos. Por isso, o histórico sanitário deve ser verificado antes da entrada no sistema intensivo.
Vacinação deve anteceder o período de maior risco
A rápida evolução das clostridioses torna a prevenção indispensável. Em alguns casos, quando os sinais clínicos são identificados, as possibilidades de recuperação já são reduzidas.
O protocolo deve ser definido com orientação de um médico-veterinário e considerar fatores como:
- Idade e categoria dos animais;
- Histórico de vacinação;
- Procedência do rebanho;
- Sistema de produção;
- Condições sanitárias da propriedade;
- Ocorrências anteriores de doenças;
- Riscos epidemiológicos da região;
- Entrada em confinamento ou mudança de dieta.
Animais nunca imunizados ou com histórico sanitário desconhecido geralmente necessitam de um esquema inicial composto por mais de uma dose, seguido dos reforços indicados pelo fabricante e pelo médico-veterinário.
Para os bovinos adultos que já completaram o protocolo, a recomendação normalmente inclui reforços periódicos. O calendário deve ser ajustado à realidade sanitária de cada propriedade.
Conservação e aplicação correta influenciam proteção
A eficiência da vacinação também depende do transporte, da conservação e da aplicação correta dos produtos. As vacinas devem permanecer dentro da faixa de temperatura recomendada e ser protegidas da exposição direta ao sol.
Seringas e agulhas precisam estar limpas e em boas condições. O local, a via de aplicação e a dose indicada devem ser rigorosamente respeitados.
Também é importante evitar que o protocolo seja iniciado somente após a entrada dos animais no período de maior desafio. A imunização precisa ser planejada com antecedência suficiente para que o rebanho desenvolva proteção antes da seca, da mudança de dieta ou do confinamento.
Controle das clostridioses depende de manejo integrado
As vacinas polivalentes oferecem proteção contra diferentes agentes e podem integrar o protocolo das categorias mais vulneráveis, como bovinos jovens, animais com histórico desconhecido e rebanhos de propriedades que já enfrentaram surtos.
Entretanto, a vacinação não substitui as demais medidas preventivas. O controle das clostridioses depende de um conjunto de práticas envolvendo:
- Fornecimento de água limpa e segura;
- Armazenamento adequado de rações, silagens e fenos;
- Suplementação mineral equilibrada;
- Adaptação gradual às dietas de confinamento;
- Manejo correto das carcaças;
- Redução do estresse durante transporte e formação de lotes;
- Acompanhamento sanitário e nutricional;
- Aplicação correta das vacinas e dos reforços.
A integração dessas medidas ajuda a proteger o rebanho antes que os fatores de risco se transformem em queda de desempenho, mortalidade e prejuízos para a propriedade.
Fonte: Portal do Agronegócio
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