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Saúde Animal

Restrição a antimicrobianos acelera novas tecnologias na produção de aves e suínos

Fitogênicos, ácidos orgânicos, enzimas, probióticos e prebióticos ganham espaço para preservar a saúde intestinal, a conversão alimentar e o desempenho zootécnico


Publicado em: 25/08/2026 às 07:00hs

Restrição a antimicrobianos acelera novas tecnologias na produção de aves e suínos

A produção brasileira de proteína animal avança na adoção de novas estratégias nutricionais diante das restrições ao uso de determinados antimicrobianos como melhoradores de desempenho. Na avicultura e na suinocultura, o desafio é preservar a eficiência alimentar, a saúde intestinal e a rentabilidade sem depender dessas substâncias.

A mudança ganhou força com a publicação da Portaria SDA/Mapa nº 1.617/2026, que proibiu a importação, a fabricação, a comercialização e o uso de aditivos melhoradores de desempenho contendo antimicrobianos classificados como importantes para a medicina humana ou veterinária. A norma também cancelou os registros dos produtos correspondentes. Os estoques fabricados ou importados antes da publicação poderão ser comercializados e utilizados até 23 de outubro de 2026, conforme esclarecimento oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa, Ofício-Circular nº 29/2026

A transição acompanha um movimento internacional de uso mais criterioso desses aditivos, motivado especialmente pela preocupação com a resistência antimicrobiana. A utilização recorrente pode exercer pressão seletiva sobre as populações bacterianas, favorecendo a sobrevivência e a propagação de microrganismos resistentes.

Produção animal busca alternativas aos melhoradores de desempenho

Historicamente, os antimicrobianos utilizados como melhoradores de desempenho ajudaram a reduzir desafios entéricos, controlar processos inflamatórios e favorecer o aproveitamento dos nutrientes fornecidos pela alimentação.

Com as novas restrições, o setor precisa alcançar resultados semelhantes por meio de programas mais amplos de nutrição, biosseguridade, ambiência, qualidade dos ingredientes e manejo sanitário.

Entre as alternativas que ganham espaço estão:

  • aditivos fitogênicos;
  • ácidos orgânicos;
  • probióticos;
  • prebióticos;
  • enzimas;
  • minerais orgânicos.

De acordo com Bruno Faria, gerente de Desenvolvimento de Negócios da ADM e doutor em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), não existe uma solução única que possa ser aplicada a todos os sistemas produtivos.

“A pergunta que o setor precisa responder é como manter desempenho, saúde dos animais e rentabilidade em um cenário de restrição crescente aos melhoradores de desempenho. É necessário entender o desafio de cada sistema e combinar tecnologias capazes de atuar sobre diferentes mecanismos”, afirma.

Fitogênicos atuam na digestão e na saúde intestinal

Os fitogênicos são aditivos formulados com princípios ativos obtidos de plantas. Essas substâncias vêm sendo estudadas por sua capacidade de influenciar processos relacionados à digestão, ao sistema imunológico, ao equilíbrio da microbiota e à integridade intestinal.

Entre os compostos utilizados estão a capsaicina, encontrada nas pimentas; o eugenol, associado ao cravo; o carvacrol, presente em plantas aromáticas como o orégano; o cinamaldeído, característico da canela; e os compostos organossulfurados do alho.

A ação desses ingredientes não se limita à modificação do ambiente interno do sistema digestivo. O trato gastrointestinal possui uma rede de comunicação com o sistema nervoso, e determinados compostos vegetais podem interagir com receptores específicos e desencadear respostas fisiológicas.

Conforme a formulação e a combinação dos princípios ativos, os fitogênicos podem contribuir para:

  • estimular secreções digestivas;
  • modular respostas imunológicas;
  • favorecer o equilíbrio da microbiota;
  • exercer ação antioxidante;
  • auxiliar na proteção da mucosa intestinal;
  • melhorar o aproveitamento dos nutrientes.
Formulação pode influenciar centenas de genes

Faria cita estudos realizados com o XTRACT 6930, formulação da ADM que reúne carvacrol, cinamaldeído e oleoresina de capsaicina.

Segundo o especialista, pesquisas com inclusão de 100 gramas do produto por tonelada de ração associaram os princípios ativos à modulação da expressão de mais de 350 genes.

O resultado indicado pela empresa sugere que os compostos vegetais podem atuar em mecanismos fisiológicos complexos. O desempenho prático, entretanto, depende de fatores como espécie, idade dos animais, condições sanitárias, composição da dieta, ambiente de criação e nível de desafio existente em cada sistema.

Ácidos orgânicos ajudam no controle do ambiente digestivo

Os ácidos orgânicos são outra ferramenta utilizada em programas destinados a preservar a saúde intestinal.

Esses compostos auxiliam na acidificação do trato digestivo e podem criar condições menos favoráveis ao desenvolvimento de determinados microrganismos indesejáveis. Seu uso também está relacionado à digestibilidade, à modulação da microbiota e à eficiência alimentar.

A resposta depende do tipo de ácido, da concentração, da forma de apresentação e do local onde o ingrediente é liberado no sistema digestivo.

Por isso, a inclusão deve considerar a composição completa da dieta e os desafios específicos enfrentados pela granja.

Enzimas ampliam aproveitamento da ração

As enzimas são utilizadas para melhorar a digestão de componentes da alimentação que os animais não conseguem aproveitar integralmente.

Ao atuar sobre determinados substratos, esses aditivos podem ampliar a disponibilidade de nutrientes, reduzir desperdícios e melhorar a eficiência da dieta. A estratégia também pode diminuir a quantidade de nutrientes eliminados no ambiente.

O resultado esperado é uma alimentação mais eficiente e ajustada às exigências dos animais, com potencial para reduzir custos sem comprometer o desempenho.

A escolha da enzima deve considerar os ingredientes presentes na formulação, o valor nutricional das matérias-primas e a fase produtiva do lote.

Probióticos e prebióticos favorecem equilíbrio da microbiota

Probióticos e prebióticos atuam por mecanismos diferentes, mas podem ser empregados de maneira complementar.

Os probióticos fornecem microrganismos benéficos destinados a favorecer o equilíbrio intestinal. Os prebióticos, por sua vez, são ingredientes utilizados seletivamente por determinadas populações microbianas.

O objetivo é aumentar a estabilidade da microbiota e preparar o organismo para enfrentar os desafios comuns aos sistemas intensivos de produção.

Uma microbiota equilibrada pode contribuir para o aproveitamento dos nutrientes e a manutenção da integridade do intestino. Os resultados, contudo, variam conforme o produto, a dosagem, o manejo e as condições sanitárias.

Estratégia multimodal substitui solução isolada

A transição para sistemas com menor dependência de antimicrobianos exige uma abordagem integrada. A simples retirada de um aditivo e sua substituição por outro ingrediente pode não ser suficiente para manter os indicadores produtivos.

O programa deve reunir diferentes ferramentas, escolhidas conforme os desafios da propriedade. Fitogênicos, ácidos orgânicos, enzimas, probióticos, prebióticos e minerais orgânicos podem atuar sobre mecanismos complementares.

Ao mesmo tempo, será necessário reforçar medidas como:

  • controle da qualidade da água;
  • limpeza e desinfecção das instalações;
  • vazio sanitário;
  • controle de temperatura e ventilação;
  • redução da lotação excessiva;
  • qualidade das matérias-primas;
  • monitoramento da microbiota;
  • manejo adequado nas fases iniciais;
  • prevenção de doenças.

A eficiência dependerá da capacidade de integrar nutrição, sanidade, ambiência e gestão.

Saúde intestinal passa ao centro da produção animal

O intestino exerce funções que vão além da digestão. O órgão participa da absorção dos nutrientes, atua como barreira contra agentes indesejáveis e mantém uma relação direta com o sistema imunológico.

Processos inflamatórios e desequilíbrios da microbiota podem elevar o custo metabólico dos animais. Nessas situações, parte da energia que poderia ser destinada ao crescimento ou à produção passa a ser utilizada na resposta aos desafios sanitários.

Preservar a integridade intestinal torna-se, portanto, uma estratégia para melhorar a conversão alimentar e reduzir perdas produtivas.

Transição exige nutrição de precisão e monitoramento

A nova realidade regulatória deverá ampliar a importância da nutrição de precisão. Em vez de utilizar um programa padronizado, produtores e agroindústrias precisarão identificar os desafios de cada granja e selecionar combinações adequadas de tecnologias.

Indicadores como consumo de ração, ganho de peso, conversão alimentar, mortalidade e ocorrência de problemas entéricos serão essenciais para avaliar os resultados.

Segundo Faria, o avanço do conhecimento sobre microbiota, fisiologia intestinal e nutrição permitirá transformar compostos naturais em ferramentas cada vez mais direcionadas.

A tendência é que a produção de proteína animal passe por uma transformação tecnológica, combinando diferentes princípios ativos e estratégias de manejo para conciliar desempenho, saúde, eficiência alimentar e rentabilidade.

Fonte: Portal do Agronegócio

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