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Saúde Animal

Carrapato causa perdas de US$ 3,2 bilhões e impulsiona busca por bioinsumos na pecuária

Resistência aos carrapaticidas amplia interesse por alternativas biológicas; indústria defende regras específicas para viabilizar novas tecnologias de manejo animal


Publicado em: 22/10/2026 às 19:00hs

Carrapato causa perdas de US$ 3,2 bilhões e impulsiona busca por bioinsumos na pecuária

As perdas anuais estimadas em US$ 3,2 bilhões provocadas pelo carrapato bovino na pecuária brasileira reforçam a busca por novas ferramentas de controle sanitário. Diante da resistência aos carrapaticidas e da demanda por sistemas produtivos mais sustentáveis, os bioinsumos ganham espaço nas pesquisas e nas discussões sobre inovação no manejo dos rebanhos.

O avanço dessas tecnologias, porém, depende de condições que permitam transformar resultados científicos em produtos seguros, eficazes e acessíveis ao produtor. Para a Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio), regras específicas para o segmento são fundamentais para dar previsibilidade aos investimentos e ampliar sua aplicação na produção animal.

Resistência aos carrapaticidas aumenta desafio no campo

A seleção de populações de carrapatos resistentes tem reduzido a eficácia de produtos químicos utilizados no controle do parasita. Esse cenário dificulta o manejo sanitário e reforça a necessidade de diversificar as ferramentas disponíveis aos pecuaristas.

Caio Monteiro, pesquisador da área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), avalia que novas tecnologias podem contribuir para a produtividade e o bem-estar animal, além de reduzir a dependência de insumos químicos.

Segundo o pesquisador, o desenvolvimento dessas soluções deve estar alinhado ao conceito de Saúde Única, que considera a conexão entre saúde animal, humana e ambiental. O objetivo é ampliar as possibilidades de controle com segurança para os animais, os trabalhadores e o ambiente.

Como os bioinsumos podem atuar na pecuária

Os bioinsumos destinados à produção animal abrangem produtos e processos de origem biológica, incluindo soluções desenvolvidas com microrganismos e seus metabólitos. Suas aplicações podem envolver saúde, bem-estar, desempenho e eficiência produtiva na pecuária e na aquicultura.

Entre as alternativas em desenvolvimento estão os fungos entomopatogênicos, capazes de infectar carrapatos em diferentes fases do ciclo de vida. As pesquisas contemplam tanto a aplicação nos animais quanto o uso nas pastagens.

Outra frente envolve os bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. Eles vêm sendo estudados para aplicações na produção de aves, suínos e bovinos, com potencial para auxiliar no controle de infecções gastrointestinais e reduzir o uso de antibióticos em determinadas situações.

Embora compartilhem bases tecnológicas com os biológicos agrícolas, os produtos de uso pecuário apresentam particularidades. A interação com os animais e com seu ambiente exige protocolos próprios de aplicação, manejo e avaliação de segurança.

Potencial de redução de resíduos exige validação técnica

As soluções biológicas apresentam potencial para reduzir a dependência de determinados produtos químicos e diminuir impactos sobre organismos não alvo. Esses benefícios, entretanto, precisam ser avaliados conforme o microrganismo, a formulação e as condições de utilização.

Para Luciano Lopes Queiroz, CEO da Karaja Biosciences, as oportunidades são especialmente relevantes em problemas sanitários que ainda não contam com ferramentas suficientemente eficientes.

Na avaliação do executivo, o desenvolvimento de biológicos também pode contribuir para estratégias de redução do uso de químicos e de enfrentamento da resistência microbiana, com possíveis benefícios ao longo da cadeia de produção de alimentos.

Regulamentação é ponto central para expansão do mercado

A Lei nº 15.070/2024 estabelece o marco legal dos bioinsumos e contempla aplicações agrícolas, pecuárias, aquícolas e florestais. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) também disponibilizou uma proposta de decreto regulamentador para receber contribuições da sociedade.

Segundo a ANPII Bio, o segmento de controle biológico de parasitas na pecuária necessita de normas que considerem suas características de produção, formulação, registro, aplicação e avaliação de segurança.

Larissa Bonotto, diretora de operações da associação, afirma que a escala da pecuária brasileira e a capacidade científica do país criam condições favoráveis ao desenvolvimento do mercado. Para transformar esse potencial em investimentos, contudo, a entidade considera essencial um ambiente regulatório claro e previsível.

A associação informa que ampliou sua atuação para incorporar empresas de biológicos voltados à pecuária, especialmente ao controle de parasitas externos, e passou a fortalecer a interlocução com pesquisadores e instituições acadêmicas.

Segurança nos animais diferencia exigências de registro

Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa associada à ANPII Bio, destaca que a proximidade entre as bases tecnológicas dos produtos agrícolas e pecuários não elimina as diferenças nas exigências de avaliação.

Segundo o executivo, além de estudos de eficácia, toxicologia e ecotoxicologia, as soluções destinadas aos rebanhos demandam ensaios de segurança clínica nos animais alvo.

Para o setor, a definição desses critérios é necessária para organizar o desenvolvimento dos produtos e dar maior previsibilidade ao processo de registro.

Entre as propostas defendidas pela ANPII Bio estão:

  • Critérios para validação de metodologias analíticas;
  • Requisitos de registro de estabelecimentos compatíveis com as características da produção;
  • Lista de ativos biológicos autorizados para uso pecuário, identificados em nível de cepa;
  • Harmonização de termos utilizados nas áreas agrícola e animal;
  • Regras claras para comunicar, em rótulos e bulas, os efeitos comprovados sobre parasitas.

A entidade também propõe distinguir essas informações das alegações terapêuticas ou curativas próprias dos medicamentos veterinários.

Exigências comerciais reforçam atenção ao manejo sanitário

O controle do uso de antimicrobianos também tem repercussões no comércio internacional. Em setembro, o Mapa informou o início de restrições europeias à entrada de produtos brasileiros de proteína animal relacionadas às regras do bloco sobre essas substâncias.

O episódio reforça a importância de sistemas de controle e rastreabilidade, mas a incorporação de alternativas biológicas exige comprovação de eficácia e segurança para cada finalidade.

Na avaliação da ANPII Bio, ampliar as ferramentas de manejo pode ajudar a pecuária a responder às exigências sanitárias e comerciais, ao mesmo tempo em que estimula a inovação.

Integração entre pesquisa e indústria pode acelerar novas soluções

Além da agenda regulatória, a associação busca aproximar universidades, instituições de pesquisa, startups e empresas de base científica das indústrias e dos investidores.

A proposta é apoiar a validação tecnológica, a produção em escala e a chegada de novas soluções ao mercado. Para o produtor rural, o avanço poderá ampliar as opções de manejo, desde que os produtos tenham qualidade, eficácia demonstrada e condições de uso bem definidas.

A consolidação dos bioinsumos na pecuária, portanto, passa pela combinação entre pesquisa, capacidade industrial e regras adequadas às particularidades da produção animal.

Fonte: Portal do Agronegócio

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