Newcastle em SC ameaça exportações e pode pressionar preço do frango, avalia Itaú BBA
Relatório aponta impacto mais concentrado em Santa Catarina, que exporta cerca de 63% da produção; duração dos embargos será decisiva para estoques, fluxo de caixa e oferta no mercado interno
Publicado em: 26/10/2026 às 11:00hs
O foco de doença de Newcastle em Santa Catarina tende a provocar efeitos mais intensos sobre a avicultura catarinense do que sobre o conjunto das exportações brasileiras. Segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, a regionalização das restrições adotada por compradores importantes reduz o alcance nacional do episódio, mas mantém riscos relevantes para processadoras, cooperativas e produtores integrados do estado.
A principal preocupação é o tempo necessário para recuperar o acesso aos mercados, especialmente China e Arábia Saudita. Se os bloqueios se prolongarem, o redirecionamento de produtos ao mercado doméstico poderá elevar a oferta e pressionar os preços do frango, sobretudo no início de 2027.
A avaliação consta do relatório Radar Agro de outubro, que reúne as reações comerciais anunciadas até 21 de outubro de 2026.
Foco foi identificado pela vigilância em granja de perus
Conforme o documento, o Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou o foco em 18 de outubro, com anúncio público no dia seguinte, em uma granja comercial de perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste catarinense.
A propriedade possuía 6.526 aves, com registro de 26 casos e nenhuma morte, segundo as informações reproduzidas no relatório. A detecção ocorreu por vigilância ativa, a partir de amostras coletadas em aves sem sinais clínicos.
Entre as medidas descritas estão a interdição da granja, a suspensão da movimentação de aves e os procedimentos de eliminação do lote e desinfecção das instalações. O documento também registra emergência zoossanitária por 60 dias em Nova Itaberaba, Nova Erechim, Coronel Freitas e Águas Frias.
Na avaliação do Itaú BBA, a identificação antes do aparecimento de sintomas demonstra a capacidade do sistema de monitoramento sanitário de detectar ocorrências precocemente.
China restringe compras de SC, enquanto México adota embargo nacional
A resposta inicial dos importadores foi menos abrangente do que nos episódios sanitários recentes, destaca a consultoria.
No cenário descrito até 21 de outubro, a China limitou a suspensão a Santa Catarina, atingindo 14 unidades catarinenses entre as 61 habilitadas no Brasil. Arábia Saudita e Chile também adotaram restrições direcionadas ao estado.
México e Malásia, por outro lado, suspenderam compras de todo o território brasileiro. O México havia recebido 171 mil toneladas de carne de frango entre janeiro e setembro de 2026, aproximadamente 4% dos embarques nacionais. A Malásia representava menos de 0,5% do volume exportado.
A manutenção do acesso de outros estados a mercados relevantes é o principal fator que sustenta a expectativa de impacto agregado limitado para o Brasil.
Santa Catarina concentra 25% da receita brasileira com exportação de frango
A exposição catarinense ao mercado externo torna o estado mais vulnerável às restrições.
Segundo os dados apresentados pelo Itaú BBA, Santa Catarina produziu aproximadamente 1,9 milhão de toneladas de carne de frango em 2025, correspondentes a 13,4% da produção brasileira. No mesmo ano, exportou 1,2 milhão de toneladas, com receita de US$ 2,45 bilhões.
Esses resultados representaram:
- 22,5% do volume brasileiro exportado;
- 25% da receita nacional com os embarques;
- Cerca de 63% da produção catarinense destinada ao exterior.
A dependência das exportações supera a média brasileira, de 37%, e os percentuais do Rio Grande do Sul, de 49%, e do Paraná, de 41%.
Com isso, a perda temporária de destinos exige uma reorganização comercial proporcionalmente maior nas plantas catarinenses.
Demora na reabertura dos mercados é o principal risco
O relatório diferencia a resolução sanitária da retomada comercial. A contenção do foco e o cumprimento dos protocolos não significam reabertura automática das importações.
Como referência, o Itaú BBA analisa os episódios de Newcastle em Anta Gorda, em 2024, e de influenza aviária em Montenegro, em 2025, ambos no Rio Grande do Sul.
Segundo a consultoria, a combinação desses eventos manteve o estado gaúcho fora do mercado chinês por aproximadamente 18 meses, de julho de 2024 a janeiro de 2026.
Para Santa Catarina, o risco é que a recuperação do acesso à China e à Arábia Saudita também ultrapasse os prazos necessários ao saneamento. Produtos como pés e miúdos, com demanda mais concentrada, podem enfrentar maior dificuldade de redirecionamento sem perda de preço.
Estoques e custos logísticos podem pressionar empresas e integrados
Os efeitos imediatos tendem a aparecer no fluxo de caixa e na gestão dos estoques das empresas mais expostas às exportações catarinenses.
O relatório aponta que, conforme o destino, produtos elaborados após 21 de setembro, data da coleta das amostras, ficam sujeitos a impedimentos de certificação. Isso pode exigir armazenagem adicional em câmaras frias e ampliar despesas logísticas.
Também estão entre os riscos descontos comerciais, renegociações de contratos, alongamento dos recebimentos e vendas para mercados de menor valor.
Na produção, eventuais ajustes no alojamento e no abate podem afetar a remuneração dos integrados e repercutir sobre a demanda regional por milho e farelo de soja. A intensidade desses efeitos dependerá da duração das restrições.
Empresas com unidades em outros estados, especialmente Paraná e Rio Grande do Sul, possuem maior flexibilidade para reorganizar a origem dos embarques.
Oferta interna maior pode limitar recuperação do preço do frango
O episódio ocorre em um momento de expansão produtiva. Com dados preliminares até setembro, o Itaú BBA estima crescimento de 3,7% nos abates e de 6,2% na produção de carne de frango em relação ao mesmo período de 2025.
Para o ano completo, a consultoria projeta aumento próximo de 6% na produção.
Embora os preços tenham apresentado recuperação recente, apoiados nas exportações e na competitividade frente à carne bovina, a necessidade de absorver volumes inicialmente destinados ao exterior pode reduzir essa sustentação.
A atenção se concentra no primeiro trimestre de 2027, quando o consumo doméstico costuma perder força após as festas de fim de ano. Nesse período, uma oferta adicional poderá exercer pressão principalmente sobre o atacado da região Sul.
Itaú BBA ainda projeta recorde nas exportações brasileiras
Apesar das restrições, a consultoria mantém a perspectiva de novo recorde de exportações de carne de frango em 2026, com crescimento próximo de 10% sobre 2025.
A projeção considera a diversificação dos destinos, a capacidade de redirecionamento dos embarques e a base de comparação do ano anterior, afetada pela influenza aviária.
Esse cenário, porém, pressupõe que o foco permaneça pontual e que as negociações comerciais avancem. Para acompanhar seus desdobramentos, o Itaú BBA destaca a vigilância sobre novos casos, a recuperação do status sanitário, a negociação dos embargos e o comportamento dos preços no mercado interno.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias