China vira exportadora de frango e aumenta pressão sobre Brasil e Mato Grosso
Produção chinesa deve alcançar 17,3 milhões de toneladas em 2026, enquanto avanço sobre mercados da Ásia, África e Oriente Médio desafia Mato Grosso a transformar mais milho e soja em proteína animal
Publicado em: 15/09/2026 às 10:50hs
A China está mudando de posição no mercado mundial de carne de frango. Depois de se consolidar como importante compradora de commodities agrícolas e proteínas brasileiras, o país asiático tornou-se exportador líquido do produto e começa a disputar mercados atendidos pelo Brasil.
A transformação acende um alerta para Mato Grosso. O Estado produz grandes volumes de milho e soja, principais componentes da alimentação das aves, mas ainda ocupa uma participação relativamente pequena na avicultura brasileira.
Análise do Rabobank indica que a China alcançou a condição de exportadora líquida de carne de frango em 2025 e poderá se tornar uma concorrente relevante do Brasil ao longo da próxima década. O movimento é impulsionado pelo crescimento da produção chinesa e pela necessidade de direcionar excedentes ao exterior.
Produção de frango da China deve superar a brasileira
A produção chinesa de carne de frango cresceu mais de 9% no primeiro semestre de 2026 e deverá atingir aproximadamente 17,3 milhões de toneladas no ano, superando o volume produzido pelo Brasil.
Parte desse crescimento decorre de investimentos em genética, instalações modernas, automação, processamento e escala industrial. Com o aumento da oferta, cortes menos procurados pelos consumidores chineses passam a ser direcionados ao mercado internacional.
A estratégia pode colocar a China em concorrência direta com o Brasil em países da Ásia, da África e do Oriente Médio. Essas regiões estão entre os principais destinos da carne brasileira e também aparecem como mercados potenciais para o excedente chinês.
Além de disputar compradores, a indústria chinesa poderá aumentar a competição por preços. No curto prazo, entretanto, o movimento não significa a substituição do frango brasileiro, mas a entrada de um fornecedor de grande escala em um comércio concentrado em poucos exportadores.
Brasil mantém ampla liderança nas exportações de frango
Apesar do crescimento chinês, o Brasil ainda possui vantagem expressiva no comércio internacional. Em 2025, os frigoríficos brasileiros exportaram aproximadamente 5,3 milhões de toneladas de carne de frango, enquanto os embarques da China ficaram pouco acima de 1 milhão de toneladas.
A liderança brasileira está apoiada na experiência acumulada no comércio exterior, na presença de unidades frigoríficas habilitadas em dezenas de mercados, na estrutura sanitária, na disponibilidade de grãos e na integração entre produtores e agroindústrias.
O desempenho das exportações continuou forte em 2026. Em maio, a receita mensal dos embarques brasileiros de carne de frango superou US$ 1 bilhão pela primeira vez, com 509,9 mil toneladas exportadas — alta de 29,6% sobre o mesmo mês de 2025.
Em junho, o Brasil embarcou 482,8 mil toneladas, crescimento anual de 40,6%, com receita de US$ 985,5 milhões. O primeiro semestre terminou com recordes em volume e faturamento, enquanto julho voltou a registrar exportações superiores a 500 mil toneladas.
A China, portanto, não ameaça a liderança brasileira no horizonte imediato. O principal sinal de atenção está na velocidade da mudança: em poucos anos, o país deixou de ser importador líquido e passou a gerar volumes crescentes para o mercado externo.
Mato Grosso tem vantagem na produção de ração
O avanço chinês produz dois efeitos para Mato Grosso. No mercado externo, os frigoríficos instalados no Estado poderão enfrentar um concorrente adicional justamente nos destinos necessários para ampliar as vendas.
Dentro das propriedades, o cenário reforça a importância de transformar milho e soja em proteína animal. O crescimento da avicultura, da suinocultura, da pecuária intensiva e da indústria de etanol de milho permite agregar valor à produção estadual e reduzir a dependência da exportação de grãos sem processamento.
Mato Grosso possui uma vantagem estratégica: produz em grande escala milho e farelo de soja, matérias-primas que representam uma parcela significativa do custo da ração avícola.
A proximidade entre áreas produtoras, fábricas de ração, granjas e frigoríficos pode reduzir despesas logísticas e favorecer a integração entre agricultura e indústria. A disponibilidade de grãos, porém, não garante competitividade automaticamente.
O resultado também depende dos preços das matérias-primas, dos custos de energia e mão de obra, da sanidade dos plantéis, da escala industrial, da logística até os portos e do acesso aos mercados internacionais.
Estado responde por apenas 3% do abate brasileiro
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Mato Grosso ainda está distante dos principais polos avícolas do país.
Em 2025, o Brasil abateu o recorde de 6,69 bilhões de frangos, crescimento de 3,1% em relação ao ano anterior. Mato Grosso respondeu por aproximadamente 3% desse total e registrou uma pequena retração de 0,6% no número de aves abatidas.
O Paraná concentrou 34,4% do abate nacional, seguido por Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Juntos, os quatro estados responderam por cerca de 70% da atividade brasileira.
A diferença demonstra que a ampla disponibilidade de milho e soja ainda não foi suficiente para transferir o centro da avicultura nacional para o Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, revela o espaço existente para ampliar a produção mato-grossense.
Exportações de frango de Mato Grosso avançam
Embora tenha participação limitada no abate nacional, Mato Grosso já integra o grupo dos estados exportadores de carne de frango.
Em janeiro de 2026, o Estado embarcou 3,6 mil toneladas, crescimento de 7,5% em relação ao mesmo mês de 2025. Naquele período, apareceu atrás de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná entre os principais exportadores informados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Para ampliar essa presença, Mato Grosso precisará avançar na instalação de granjas, fábricas de ração e frigoríficos, além de estruturar sistemas integrados com os produtores. A expansão exige capital, escala, controle sanitário, infraestrutura logística e acesso permanente a compradores.
Agregar valor aos grãos torna-se desafio estratégico
Durante décadas, uma parte importante da relação comercial entre Mato Grosso e a China esteve baseada no fornecimento de soja e milho. Esses grãos ajudam a abastecer a produção chinesa de proteína animal.
Quando a China transforma matérias-primas importadas em carne e passa a exportar o produto, começa a competir com países e regiões que também poderiam realizar esse processamento.
Para Mato Grosso, o desafio é converter uma parcela maior de seus grãos em carne antes da exportação. Esse movimento pode estimular a industrialização, gerar empregos, ampliar a demanda regional por milho e farelo de soja e aumentar o valor obtido com a produção agropecuária.
A entrada chinesa no mercado internacional de carne de frango, portanto, ultrapassa a disputa entre frigoríficos. Ela reforça uma decisão estratégica para o agronegócio mato-grossense: permanecer concentrado no fornecimento de matérias-primas ou acelerar a transformação dos grãos em proteína animal de maior valor agregado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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