Prevenção personalizada reduz mortalidade e protege rentabilidade na tilapicultura
Avanço do ISKNV e aumento das coinfecções por Streptococcus exigem diagnóstico preciso, vacinação estratégica, biosseguridade e manejo adaptado a cada piscicultura
Publicado em: 11/09/2026 às 08:00hs
A mudança no cenário sanitário da tilapicultura brasileira está exigindo uma revisão das estratégias de prevenção adotadas nas propriedades. Entre o fim de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, indicadores epidemiológicos apontaram o avanço do Vírus da Necrose Infecciosa do Baço e do Rim, conhecido como ISKNV, especialmente entre tilápias juvenis criadas em tanques-rede.
Além de provocar perdas diretas, o vírus pode favorecer o surgimento de coinfecções bacterianas, com destaque para aquelas causadas por Streptococcus agalactiae. A ocorrência simultânea de diferentes agentes eleva a complexidade dos surtos, aumenta a mortalidade e compromete indicadores produtivos importantes, como ganho de peso e conversão alimentar.
Nesse ambiente, protocolos sanitários padronizados podem não oferecer a proteção necessária. A recomendação é estruturar programas preventivos de acordo com os riscos identificados em cada piscicultura, considerando diagnóstico laboratorial, histórico sanitário, qualidade da água, densidade de criação e fase produtiva.
ISKNV amplia riscos sanitários na criação de tilápias
O ISKNV consolidou-se como um dos principais desafios sanitários da tilapicultura. Os impactos tendem a ser mais expressivos em animais jovens e em sistemas intensivos, nos quais a elevada densidade pode favorecer a disseminação dos agentes infecciosos.
A infecção viral também pode fragilizar os peixes e abrir caminho para problemas secundários. Nesses casos, bactérias já presentes no ambiente ou nos próprios animais podem se aproveitar da redução da capacidade de resposta do organismo.
Os surtos mistos dificultam o controle porque os sintomas e as perdas não estão necessariamente relacionados a um único patógeno. Sem a identificação correta dos agentes envolvidos, o produtor pode adotar medidas pouco eficientes e ampliar os custos de produção.
Coinfecções afetam conversão alimentar e margem do produtor
Doenças sanitárias provocam efeitos que vão além da mortalidade. Peixes infectados podem reduzir o consumo de ração, apresentar desenvolvimento mais lento e precisar de mais tempo para alcançar o peso de abate.
Essa piora na conversão alimentar aumenta o custo por quilo produzido e reduz a eficiência econômica da piscicultura. Também podem ocorrer gastos adicionais com tratamentos, mão de obra, descarte de animais e interrupções no planejamento dos lotes.
Para Talita Morgenstern, coordenadora técnica de Aquicultura da MSD Saúde Animal, as próximas safras exigirão decisões fundamentadas em dados. Segundo ela, a proteção dos plantéis deve combinar diagnóstico biomolecular por PCR, análises microbiológicas e um planejamento de imunização compatível com os riscos de cada fazenda.
Diagnóstico deve orientar o programa sanitário
O primeiro passo para estruturar a prevenção é conhecer os agentes que circulam na propriedade. A pressão sanitária pode variar conforme a região, o sistema produtivo, a qualidade da água, o adensamento, a temperatura, o histórico de doenças e a origem dos alevinos.
O monitoramento laboratorial permite identificar o patógeno e o momento em que a infecção ocorre. Com essas informações, o produtor pode definir as medidas preventivas mais adequadas e escolher corretamente as janelas de vacinação.
A identificação dos sorotipos bacterianos também é importante. De acordo com a especialista, o aumento da ocorrência de Streptococcus agalactiae tipo III, paralelamente ao predomínio do sorotipo IB, reforça a necessidade de acompanhamento microbiológico.
“Antes de introduzir qualquer protocolo, o produtor precisa saber o que circula em sua propriedade. Identificar o agente exato e o momento da infecção é o que permite calibrar a resposta”, explica Talita.
Calendário vacinal precisa considerar cada propriedade
A vacinação deve ser tratada como parte de uma estratégia integrada de gestão sanitária, e não apenas como uma etapa operacional. O protocolo precisa considerar quais doenças apresentam maior risco, a idade dos animais, o calendário de manejo e os períodos de maior vulnerabilidade.
Entre as soluções disponíveis no mercado está a Aquavac Irido V, indicada para auxiliar na redução da mortalidade associada às infecções causadas por Iridovírus em tilápias.
Para propriedades com pressão bacteriana, a Aquavac Strep Sasi é direcionada à proteção contra estreptococose em períodos críticos de temperatura e manejo. Já a Aquavac Strep 4 é apresentada como alternativa para diferentes sorotipos associados à doença.
A definição dos produtos e do calendário vacinal deve ser feita com orientação profissional, considerando o diagnóstico sanitário e as recomendações técnicas de cada solução.
Vacinação não substitui biosseguridade e bom manejo
Mesmo um programa de imunização bem estruturado pode perder eficiência quando os peixes permanecem expostos ao estresse crônico. Problemas de qualidade da água, excesso de animais, nutrição inadequada e equipamentos contaminados aumentam a vulnerabilidade do plantel.
Entre as práticas consideradas essenciais estão o acompanhamento dos parâmetros da água, o controle da densidade, a limpeza e desinfecção de equipamentos, o manejo nutricional equilibrado e a vacinação apenas de animais sadios.
“A vacinação protege o peixe por dentro; a biosseguridade o protege por fora”, resume Talita.
A integração entre essas medidas reduz a pressão dos patógenos no ambiente e cria melhores condições para a resposta imunológica dos animais.
Prevenção transforma sanidade em ferramenta de gestão
A transição de um modelo reativo, baseado no controle dos surtos depois de seu aparecimento, para uma estratégia preventiva pode elevar a previsibilidade da produção.
Com diagnóstico, monitoramento e vacinação personalizada, o produtor consegue antecipar os períodos de maior risco, reduzir perdas e planejar melhor o uso de ração, mão de obra e infraestrutura.
Na avaliação de Talita, a prevenção estruturada permite que o piscicultor assuma uma posição mais ativa na gestão econômica da propriedade. Ao adaptar o protocolo sanitário à realidade de cada fazenda, a sanidade deixa de ser apenas uma resposta às doenças e passa a integrar a estratégia de rentabilidade da tilapicultura.
Fonte: Portal do Agronegócio
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