Publicidade
Aquicultura e Pesca

Falta de energia no campo ameaça piscicultura do Paraná e provoca morte de 450 mil peixes

Quedas prolongadas e oscilações na rede elétrica comprometem a oxigenação dos viveiros, elevam os custos de produção e colocam em risco contratos e a rentabilidade dos piscicultores; em São João do Ivaí, prejuízos já chegam a milhões de reais.


Publicado em: 16/10/2026 às 11:55hs

Falta de energia no campo ameaça piscicultura do Paraná e provoca morte de 450 mil peixes
Foto: FAEP

A falta de energia elétrica de qualidade no meio rural se tornou uma ameaça à piscicultura do Paraná, principal produtor de peixes cultivados do Brasil. Interrupções prolongadas e oscilações de tensão prejudicam o funcionamento dos aeradores responsáveis pela oxigenação dos viveiros, aumentam os custos operacionais e podem provocar a morte de milhares de peixes em poucas horas.

O problema preocupa produtores e entidades do setor, que cobram soluções da Companhia Paranaense de Energia (Copel) para garantir maior estabilidade no fornecimento elétrico às propriedades rurais. Além das perdas de animais, os piscicultores enfrentam gastos adicionais com diesel, manutenção de geradores e substituição de equipamentos danificados.

Segundo o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a precariedade do serviço ameaça os investimentos realizados pelos produtores e a continuidade de uma atividade relevante para a economia paranaense.

“O produtor rural investiu, se profissionalizou e produz com eficiência, mas nada disso se sustenta sem energia de qualidade”, afirma Meneguette. Ele ressalta que a interrupção do fornecimento compromete a oxigenação dos tanques e pode gerar prejuízos milionários em pouco tempo.

Para a entidade, é necessário que a Copel apresente medidas efetivas para solucionar os problemas de abastecimento de energia elétrica no campo.

Paraná lidera a produção de tilápia no Brasil

A instabilidade no fornecimento de energia preocupa especialmente no Paraná, estado que ocupa a liderança nacional na produção de peixes cultivados.

De acordo com o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, elaborado pela Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o estado respondeu por quase 70% da produção nacional de tilápia. Em 2025, foram produzidas mais de 273 mil toneladas de pescado no território paranaense.

O desempenho também se reflete no comércio exterior. Das aproximadamente 12 mil toneladas de tilápia exportadas pelo Brasil em 2025, metade teve origem no Paraná, gerando mais de US$ 28 milhões em receitas.

Dados do Departamento de Economia Rural (Deral) apontam Toledo, Palotina, Nova Aurora, São José dos Pinhais e Marechal Cândido Rondon entre os principais municípios produtores de peixes do estado.

Já entre as cidades com maior número de tanques de criação estão Itambaracá, Alvorada do Sul, Nova Prata do Iguaçu, Três Barras do Paraná e Boa Esperança do Iguaçu.

Nesse cenário, a deficiência da rede elétrica representa um risco não apenas para os produtores, mas também para a cadeia de processamento, a geração de empregos, o abastecimento alimentar e as exportações de pescado.

Oscilações de energia comprometem a oxigenação dos viveiros

Na piscicultura intensiva, a estabilidade do fornecimento elétrico é fundamental para manter os sistemas de aeração em funcionamento. Quando os equipamentos deixam de operar adequadamente, os níveis de oxigênio dissolvido na água podem cair, comprometendo a sobrevivência e o desenvolvimento dos peixes.

Segundo Edio Chapla, presidente da Comissão Técnica de Aquicultura do Sistema FAEP e do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, a deficiência no fornecimento também interfere diretamente no desempenho produtivo dos animais.

Com a redução da oxigenação, os peixes podem apresentar menor ganho de peso diário e permanecer por mais tempo nos viveiros até atingirem as condições necessárias para o abate. O resultado é um ciclo de produção mais longo, com aumento dos custos e redução da rentabilidade.

Chapla, que também atua como piscicultor, relata que produtores de diferentes regiões do Paraná enfrentam dificuldades relacionadas às oscilações de tensão e às interrupções no fornecimento.

Na região de Marechal Cândido Rondon, um dos problemas mais preocupantes ocorre no fim da tarde e no início da noite. Nesses períodos, a tensão pode cair sem que haja uma interrupção completa da energia.

Essa condição dificulta o acionamento automático dos geradores, pois os sistemas podem não identificar a necessidade de entrada em operação. Ao mesmo tempo, dispositivos de proteção das instalações trifásicas podem impedir o funcionamento dos aeradores para evitar danos aos motores.

O resultado é uma situação de risco em que a propriedade aparentemente continua recebendo energia, mas os equipamentos essenciais para a manutenção dos viveiros não operam como deveriam.

Geradores elevam os custos da produção de peixes

Para reduzir os riscos de mortalidade, muitos piscicultores recorrem a geradores próprios. Embora esses equipamentos sejam fundamentais em situações de emergência, sua utilização frequente aumenta significativamente as despesas da atividade.

Entre os principais custos adicionais estão o consumo de diesel, as trocas de óleo, os reparos mecânicos e elétricos e a redução da vida útil de geradores, sistemas de monitoramento e chaves inversoras.

De acordo com Chapla, a energia elétrica já representa mais de 55% do custo de produção de um lote, tornando a atividade ainda mais vulnerável a falhas no fornecimento e a despesas imprevistas.

Além do impacto financeiro, a necessidade de monitorar continuamente a rede elétrica provoca insegurança entre os produtores, que precisam permanecer atentos ao funcionamento dos equipamentos, inclusive durante a noite.

“Isso causa transtornos que vão para além da parte econômica. Tem impactado na parte psicológica. O produtor vive com a intranquilidade de saber se o gerador vai entrar, se o equipamento vai ligar”, relata Chapla.

O dirigente também alerta que a pressão sobre as margens de lucro pode comprometer a continuidade dos empreendimentos e dificultar a sucessão familiar no campo.

Piscicultor perde 450 mil peixes após falhas no fornecimento

Um dos casos mais graves foi registrado em São João do Ivaí, no Norte do Paraná. O piscicultor Edilson Pini estima ter perdido cerca de 450 mil peixes, equivalentes a aproximadamente 230 toneladas de pescado, e informa que ainda contabilizava novas mortes após o episódio.

A produção perdida seria abatida ao longo de quatro meses para atender aos compromissos comerciais já assumidos. O prejuízo ameaça uma atividade familiar construída ao longo de quatro décadas.

A propriedade produz cerca de 800 toneladas de peixe por ano, distribuídas em 15 viveiros, e conta com frigorífico próprio. A estrutura abastece contratos com órgãos públicos e instituições, incluindo programas de alimentação escolar.

Antes das perdas, Pini fornecia semanalmente pescado para a merenda escolar de 22 municípios paranaenses, além de atender instituições como Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Sesc e Senac.

Com a redução do plantel, o cumprimento desses contratos passou a enfrentar incertezas, ampliando os impactos econômicos do episódio para além da propriedade rural.

Falha elétrica e pane no gerador agravaram o prejuízo

Segundo o produtor, a sequência de problemas começou em 29 de setembro, quando o fornecimento de energia caiu por volta das 14h. Às 15h16, ele registrou o primeiro chamado à Copel.

Diante das oscilações na rede, o gerador da propriedade foi acionado para manter os equipamentos de aeração em funcionamento. Por volta das 20h, porém, o sistema apresentou uma pane: dois motores de arranque queimaram e a placa de automação ficou inutilizada.

O conserto custou aproximadamente R$ 20 mil, mas a falha deixou a propriedade sem a estrutura necessária para manter a oxigenação dos viveiros em condições adequadas.

Pini afirma que os problemas de qualidade da energia na região são antigos e frequentes. Segundo ele, em dias considerados normais, ocorrem de dois a quatro picos de energia, com registros de até 14 oscilações em uma única noite.

Durante a madrugada, o piscicultor, a esposa e dois funcionários tentaram preservar os animais por meio de procedimentos manuais, incluindo o uso de oxigênio granulado.

Entretanto, diante do volume de peixes nos viveiros e da falta de funcionamento dos aeradores, as medidas emergenciais não foram suficientes para evitar a mortalidade.

O fornecimento de energia só foi restabelecido às 13h do dia seguinte, 30 de setembro, após aproximadamente 23 horas de interrupção, conforme o relato do produtor.

Produtor relata dificuldades para obter atendimento da Copel

Mesmo enquadrado no grupo A de consumidores, classificação que, segundo Pini, implica tarifa mais elevada e um canal prioritário de atendimento, o piscicultor afirma ter enfrentado dificuldades para conseguir uma solução durante a ocorrência.

Ele relata ter realizado 28 contatos por WhatsApp e pelo telefone 0800, além de procurar a central de atendimento de Londrina, o gerente da unidade de Ivaiporã e técnicos responsáveis.

Na avaliação do produtor, uma mobilização mais rápida das equipes de manutenção poderia ter reduzido as consequências do problema.

“Se a empresa tivesse mobilizado a estrutura de manutenção no primeiro dia, em vez de três dias depois, quando houve nova queda, eu não teria tido esse prejuízo”, afirma.

O caso evidencia a vulnerabilidade de sistemas de produção que dependem de energia contínua e a importância de respostas rápidas diante de falhas que podem provocar perdas irreversíveis.

Prejuízo milionário ameaça a continuidade do negócio familiar

O impacto financeiro sobre a propriedade de Pini chega à casa dos milhões de reais. Segundo o piscicultor, somente a reposição do plantel exigiria cerca de R$ 2,5 milhões, sem considerar os demais efeitos econômicos da perda de produção, os custos operacionais e os compromissos comerciais.

O episódio também representa a perda de aproximadamente seis meses de trabalho, comprometendo o planejamento produtivo e o fluxo de receitas da empresa familiar.

Diante da situação, o produtor afirma que está reunindo documentos e negociando com clientes, fornecedores e cooperativas de crédito para reorganizar os compromissos financeiros. Ele também busca apoio, inclusive de agências de fomento, para tentar recuperar a capacidade produtiva.

“Eu quero da Copel a nossa matéria-prima de volta para nos reerguermos”, declara Pini.

Além das dificuldades financeiras, o piscicultor relata impactos emocionais provocados pela perda do plantel e pela incerteza sobre o futuro da atividade.

Energia de qualidade é essencial para a competitividade da piscicultura

Os problemas relatados por produtores paranaenses mostram como a infraestrutura elétrica se tornou um fator decisivo para a produtividade e a segurança da piscicultura.

Em sistemas intensivos de criação, a energia não é apenas um insumo operacional: ela mantém os equipamentos responsáveis pela oxigenação da água e pela sobrevivência dos animais. Interrupções prolongadas podem comprometer meses de investimento em poucas horas.

Para o Paraná, que lidera a produção nacional de tilápia e tem participação relevante nas exportações brasileiras de pescado, a estabilidade do fornecimento elétrico é estratégica para preservar a competitividade do setor.

A redução das oscilações, a melhoria da infraestrutura de distribuição rural e a resposta mais rápida às ocorrências são medidas apontadas como fundamentais para diminuir os riscos enfrentados pelos piscicultores.

Sem avanços na qualidade da energia no campo, produtores podem continuar expostos a custos crescentes, perdas de animais, dificuldades para cumprir contratos e incertezas sobre a continuidade dos negócios.

O desafio, portanto, vai além de evitar interrupções no fornecimento: trata-se de garantir condições de infraestrutura compatíveis com o nível de investimento, profissionalização e importância econômica alcançados pela piscicultura paranaense.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias