Safra de mandioca 2026/27 pode ter menor oferta, crédito restrito e demanda aquecida por derivados
Redução da área plantada, risco de queda na produtividade, efeitos do El Niño e avanço das exportações de fécula devem influenciar os preços e a rentabilidade da cadeia produtiva
Publicado em: 25/08/2026 às 10:30hs
O mercado brasileiro de mandioca deve atravessar um período de ajustes na safra 2026/27. A perspectiva de menor área cultivada e possível redução da produtividade ocorre em um cenário de crédito mais restrito, custos elevados e riscos climáticos e fitossanitários. Ao mesmo tempo, a demanda por fécula, farinha e amidos modificados tende a crescer no Brasil e no exterior.
De acordo com análise do pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Fábio Isaias Felipe, a oferta e a demanda exercem influência direta sobre os preços da mandioca. Isso ocorre porque a cadeia dispõe de poucos instrumentos de comercialização e proteção financeira, como contratos e operações de hedge, principalmente no segmento da produção rural.
Ciclos de preços limitam rentabilidade da mandiocultura
Os ciclos de valorização e queda das cotações são uma característica recorrente do mercado de mandioca. Nos últimos anos, essas oscilações tornaram-se mais frequentes e passaram a representar um obstáculo à eficiência econômica da atividade.
Para os produtores, períodos prolongados de baixa reduzem a rentabilidade dentro da porteira. Nas indústrias, a instabilidade também afeta as margens da fabricação de fécula e farinha, além de dificultar o planejamento de compras, estoques e investimentos.
Um dos movimentos mais expressivos de alta ocorreu em 2022, quando os preços nominais da raiz atingiram níveis recordes em determinados períodos. Naquele momento, outras atividades agropecuárias que disputavam as mesmas áreas enfrentavam cotações pressionadas e menor retorno econômico.
Essa combinação estimulou o avanço da mandioca sobre novas áreas. Paralelamente, os custos de produção aumentaram, especialmente com arrendamento de terras e contratação de mão de obra.
Expansão da produção pressiona preços desde 2023
O crescimento da oferta passou a pressionar os preços da mandioca destinada à indústria a partir de meados de 2023. Embora tenham ocorrido reações pontuais nas cotações, as altas foram insuficientes para recompor as margens em grande parte das propriedades.
Após temporadas de baixa rentabilidade, a tendência para a safra 2026/27 é de redução da área plantada. Também existe a possibilidade de queda no rendimento das lavouras, fator que pode limitar a disponibilidade de matéria-prima para as indústrias.
Esse possível recuo da oferta representa uma mudança relevante para o mercado, especialmente diante das perspectivas de ampliação do consumo de derivados.
Crédito para mandioca cai 64% e restringe investimentos
O endividamento acumulado nas últimas safras tornou-se mais um desafio para os mandiocultores. Com margens comprometidas, parte dos produtores enfrenta dificuldades para obter financiamento de custeio devido à exigência de garantias reais pelas instituições financeiras.
Os agricultores que trabalham em áreas arrendadas estão entre os mais afetados, pois possuem menor disponibilidade de patrimônio para oferecer como garantia.
Segundo dados do Banco Central, o volume de recursos destinado à cultura da mandioca no Brasil caiu 64% em 2026. A retração alcança 80% dos estados e pode comprometer investimentos em manejo, fertilidade do solo, mecanização e aquisição de material propagativo de qualidade.
A menor disponibilidade de crédito tende a exercer impacto direto sobre a produtividade da safra 2026/27, aumentando a vulnerabilidade financeira dos produtores.
Grãos, pecuária e reflorestamento ampliam disputa por áreas
A mandiocultura também enfrenta maior concorrência pelo uso da terra. A valorização ou a expectativa de recuperação das margens de atividades como pecuária, produção de grãos e reflorestamento pode reduzir a oferta de áreas destinadas à raiz.
Esse movimento já é observado em algumas regiões produtoras, inclusive no Paraná. Caso as culturas concorrentes ofereçam retorno mais atrativo, produtores e proprietários de terras poderão redirecionar áreas anteriormente ocupadas pela mandioca.
A combinação entre menor disponibilidade de terras, crédito restrito e custos elevados reforça a possibilidade de diminuição da produção nacional.
El Niño aumenta riscos para a safra 2026/27
O clima deverá assumir papel decisivo no mercado de mandioca até meados de 2027. A influência do El Niño pode provocar efeitos distintos nas principais regiões produtoras do País.
No Norte e no Nordeste, o risco está relacionado à falta de umidade e à irregularidade das chuvas. Já no Centro-Sul, o excesso de precipitações pode dificultar o desenvolvimento das lavouras, os tratos culturais e a colheita.
Além de afetar a produtividade, as condições climáticas adversas podem favorecer problemas fitossanitários. Períodos de elevada umidade aumentam o risco de ocorrência e agravamento da bacteriose nas plantações.
Doença do couro de sapo preocupa produtores do Centro-Sul
Outro ponto de atenção é a doença do couro de sapo, conhecida internacionalmente como Cassava Frog Skin Disease. O problema já vem sendo relatado em diversas lavouras dos principais estados produtores do Centro-Sul, região responsável por mais de 35% da produção brasileira.
Conforme informações da Embrapa, a doença pode provocar perdas expressivas de produtividade e danos irreversíveis às raízes. Sua disseminação representa um risco adicional para a oferta de matéria-prima e exige reforço no monitoramento das áreas, na seleção de manivas e no manejo fitossanitário.
A presença de doenças em um ambiente de investimentos reduzidos pode intensificar as perdas e comprometer ainda mais o rendimento agrícola.
Demanda por fécula e amidos modificados segue em expansão
A possível restrição da oferta deve coincidir com um mercado consumidor mais aquecido. A procura por derivados de mandioca, principalmente fécula e amidos modificados, apresenta tendência de crescimento.
Nos últimos anos, novas unidades industriais entraram em operação, enquanto empresas já estabelecidas ampliaram sua capacidade de processamento e diversificaram o portfólio. O objetivo é atender consumidores que exigem padrões mais elevados de qualidade, rastreabilidade e segurança alimentar.
Além da indústria de alimentos, os derivados da mandioca vêm ganhando espaço em outras aplicações. O segmento de cuidados e alimentação para animais de estimação, por exemplo, passou a absorver volumes maiores de fécula e farinha, impulsionado pelo consumo nos grandes centros urbanos.
Esse mercado ainda apresenta potencial de crescimento e pode abrir novas oportunidades para produtores e indústrias nos próximos anos.
Exportações brasileiras de fécula avançam 78%
A oferta mais restrita de amidos no mercado internacional também favorece o Brasil. Parte da demanda mundial vem sendo direcionada ao produto brasileiro, criando condições para volumes recordes de exportação em 2026.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, entre janeiro e julho de 2026, a quantidade de fécula exportada pelo Brasil ficou 78% acima da registrada no mesmo período de 2025.
Nos embarques de amidos modificados, o crescimento alcançou 47% na mesma comparação. O avanço reforça a importância do mercado externo para a cadeia produtiva e pode ampliar a disputa pela matéria-prima caso a produção de mandioca recue.
Oferta e demanda podem sustentar preços da mandioca
Para a safra 2026/27, o mercado deverá acompanhar especialmente a evolução da área plantada, a disponibilidade de crédito, o comportamento do clima, a incidência de doenças e o ritmo da demanda industrial.
Se a redução da produção se confirmar enquanto o consumo doméstico e as exportações permanecem aquecidos, os preços da mandioca podem encontrar maior sustentação. Entretanto, a valorização da raiz também elevaria os custos das indústrias de fécula, farinha e amidos modificados.
Diante desse cenário, o pesquisador destaca a necessidade de estratégias de médio e longo prazos para reduzir a exposição da cadeia aos ciclos de preços. Maior previsibilidade comercial, planejamento da produção, investimentos em tecnologia e coordenação entre produtores e indústrias são fatores essenciais para fortalecer a competitividade dos derivados brasileiros e garantir a sustentabilidade da mandiocultura.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias