Preços agrícolas em 2026/27: milho tem potencial de alta, enquanto safra recorde pressiona soja
Estudo da Privatto projeta cenários para soja, milho, trigo, arroz e boi gordo, com atenção aos estoques globais, clima, câmbio, logística e avanço da oferta brasileira
Publicado em: 09/09/2026 às 10:40hs
O mercado de commodities agropecuárias deve apresentar movimentos distintos durante a safra 2026/27. Enquanto os preços do milho encontram sustentação na redução dos estoques mundiais, a soja poderá enfrentar maior pressão com a chegada de uma produção recorde ao mercado, especialmente no primeiro semestre de 2027.
As perspectivas fazem parte de um levantamento elaborado pela Privatto Multi Family Office. O estudo analisou diferentes cenários para as principais commodities e converteu as cotações para reais e para as unidades de comercialização utilizadas pelos produtores do Rio Grande do Sul.
Além de soja e milho, a análise aponta viés positivo para trigo, arroz e boi gordo. O comportamento dos preços dependerá, entretanto, de fatores como condições climáticas, câmbio, demanda internacional, estoques, logística e ritmo de comercialização.
Soja pode variar entre R$ 126 e R$ 146 por saca
No cenário-base da Privatto, a soja deve ser negociada entre R$ 126 e R$ 146 por saca de 60 quilos ao longo da safra 2026/27.
A referência utilizada pelo estudo para as praças de Cruz Alta, Santa Rosa e Passo Fundo era de R$ 146 por saca em 24 de agosto. Em relação a esse patamar, a faixa projetada indica uma variação que pode ir da estabilidade a uma queda aproximada de 13,7%.
A possível desvalorização está relacionada principalmente ao crescimento da oferta global. As projeções consideradas no levantamento apontam produção mundial recorde de 441,5 milhões de toneladas de soja, enquanto o Brasil poderá colher 186 milhões de toneladas na temporada 2026/27.
Entrada da safra brasileira deve ampliar pressão sobre as cotações
Embora os preços da soja ainda encontrem suporte no equilíbrio mais apertado da safra atual, esse cenário pode mudar com o avanço da colheita brasileira.
A pressão sobre as cotações tende a se intensificar entre fevereiro e maio de 2027, período em que um volume maior da nova produção deverá chegar ao mercado. O comportamento das exportações, da demanda chinesa, do dólar e das condições climáticas será decisivo para determinar a intensidade desse movimento.
Diante da expectativa de oferta recorde, estratégias de comercialização antecipada e proteção de preços podem ganhar importância para reduzir a exposição do produtor às oscilações durante a colheita.
Milho tem cenário mais favorável para os preços em 2026/27
Para o milho, a perspectiva apresentada no levantamento é mais positiva. No cenário-base, a saca deve variar entre R$ 58 e R$ 70. Em uma conjuntura otimista, os preços poderão alcançar a faixa de R$ 70 a R$ 84 por saca.
A referência adotada no relatório foi de R$ 68,20 por saca, com base no Indicador Cepea/Esalq. O índice foi utilizado porque o estudo não encontrou uma referência diária específica para o mercado do Rio Grande do Sul.
O principal fator de sustentação é a redução projetada dos estoques mundiais de milho. Para a safra 2026/27, o volume foi estimado em 274,7 milhões de toneladas, queda de 8,1% na comparação com o ciclo anterior.
Mesmo diante da possibilidade de uma produção recorde no Brasil, a menor disponibilidade global tende a deixar o balanço entre oferta e demanda mais ajustado.
Estoques menores elevam sensibilidade do mercado de milho
O cenário de estoques mundiais reduzidos pode ampliar a reação das cotações a mudanças no clima, no câmbio, nas exportações e no consumo. Qualquer frustração produtiva em grandes países fornecedores poderá provocar movimentos mais intensos no mercado.
“O mercado apresenta um equilíbrio mais apertado do que o habitual, fazendo com que clima, estoques, câmbio e demanda possam provocar movimentos relevantes de preço ao longo da safra”, afirma Eduardo Tellechea Cairoli, CEO da Privatto.
A valorização do milho pode favorecer os produtores que ainda possuem cereal para comercialização, mas também elevar os custos das cadeias que utilizam o grão como matéria-prima, especialmente avicultura, suinocultura, bovinocultura de corte e produção de rações.
Trigo encontra suporte na menor oferta mundial
O estudo também identifica uma perspectiva positiva para os preços do trigo. Entre os fundamentos estão a redução das projeções para a produção mundial e os riscos logísticos na região do Mar Negro.
Essa conjuntura pode oferecer sustentação ao mercado brasileiro, embora o comportamento das importações, do dólar e da qualidade da safra nacional continue exercendo influência sobre os preços pagos aos produtores.
Para o Rio Grande do Sul, um dos principais estados produtores do cereal, as condições climáticas e o desempenho das lavouras serão determinantes para definir o equilíbrio entre a oferta regional e a necessidade de importação.
Menor área e El Niño podem sustentar preços do arroz
No mercado de arroz, as projeções foram construídas a partir das cotações físicas praticadas no Rio Grande do Sul. O cenário considera a possibilidade de redução da área plantada no estado e os riscos climáticos associados ao El Niño.
Uma eventual diminuição da oferta poderá contribuir para a recuperação dos preços. Entretanto, o comportamento do consumo, dos estoques, das exportações e das importações continuará sendo decisivo para o mercado durante a safra.
Por concentrar grande parcela da produção brasileira, o Rio Grande do Sul exerce influência direta na formação dos preços nacionais do arroz. Alterações na área cultivada ou na produtividade gaúcha tendem a repercutir em toda a cadeia.
Boi gordo gaúcho registra prêmio sobre São Paulo
Para o boi gordo, o levantamento aponta uma diferença relevante entre as cotações observadas no Rio Grande do Sul e a referência nacional.
O preço utilizado para São Paulo correspondia a aproximadamente R$ 11,37 por quilo vivo. Nas praças do Oeste gaúcho e de Pelotas, os valores variavam entre R$ 12,45 e R$ 12,60 por quilo, evidenciando um prêmio regional.
Essa diferença pode refletir particularidades relacionadas à disponibilidade de animais, ao padrão dos lotes, à demanda dos frigoríficos e às características do mercado local.
Gestão de riscos será decisiva na safra 2026/27
A análise destaca que as projeções não devem ser interpretadas como garantia de preços. O objetivo dos diferentes cenários é mostrar como alterações nos fundamentos podem afetar cada commodity ao longo da temporada.
Entre as principais variáveis que deverão orientar o mercado agropecuário em 2026/27 estão:
- estoques globais de grãos;
- clima no Brasil e nos principais países produtores;
- comportamento do dólar;
- demanda internacional;
- ritmo das exportações;
- custos e gargalos logísticos;
- volume e velocidade de entrada das safras no mercado.
Nesse ambiente, acompanhar os fundamentos e estabelecer estratégias graduais de comercialização poderá ser mais eficiente do que concentrar as vendas na expectativa de um preço específico. Para o produtor, a combinação entre planejamento, proteção de margens e gestão do fluxo de caixa será essencial diante da volatilidade prevista para a nova safra.

Fonte: Portal do Agronegócio
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