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Logística e Transporte

BR-319 é estratégica para o agro e expõe gargalos logísticos no Norte, aponta expedição da CNA

Missão percorreu 889 quilômetros entre Rondônia e Amazonas, avaliou rodovia, hidrovias e terminais do Arco Norte e identificou obstáculos que elevam custos e dificultam o escoamento da produção


Publicado em: 19/08/2026 às 18:20hs

BR-319 é estratégica para o agro e expõe gargalos logísticos no Norte, aponta expedição da CNA

As condições da BR-319, a infraestrutura portuária e o aproveitamento das hidrovias estão entre os principais desafios para ampliar a integração econômica e melhorar a logística do agronegócio na Região Norte. O diagnóstico foi reforçado por uma expedição realizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e por federações estaduais entre os dias 9 e 13 de agosto.

A comitiva percorreu mais de 889 quilômetros entre Porto Velho (RO) e Manaus (AM), conheceu estruturas utilizadas no transporte de grãos, contêineres e insumos e ouviu produtores afetados pelas limitações da rodovia e dos portos regionais.

Participaram da missão representantes das Federações da Agricultura e Pecuária do Amazonas (Faea), Acre (Faeac), Roraima (Faerr) e Rondônia (Faperon).

BR-319 concentra desafios para integração da Região Norte

Construída na década de 1970, a BR-319 conecta Manaus a Porto Velho e representa uma das principais alternativas terrestres para integrar Amazonas e Roraima ao restante do país. Entretanto, as condições precárias em parte do percurso limitam o transporte regular de cargas e passageiros.

Segundo o presidente da Comissão de Infraestrutura e Logística da CNA, Mário Borba, a expedição permitiu verificar de perto a situação da rodovia e das estruturas fluviais existentes entre Porto Velho, o Rio Madeira e Manaus.

A missão deverá resultar na elaboração de um relatório técnico sobre os gargalos identificados. O documento será apresentado a autoridades responsáveis pela infraestrutura e logística, além de parlamentares que possam contribuir para a formulação de políticas públicas destinadas ao desenvolvimento regional.

Reasfaltamento pode ampliar mercado para Rondônia e Mato Grosso

A recuperação da BR-319 também pode favorecer o abastecimento de Manaus com produtos agropecuários provenientes de Rondônia e Mato Grosso. A capital amazonense representa um importante mercado consumidor, mas os problemas logísticos dificultam o avanço das relações comerciais.

Para o presidente da Faperon, Hélio Dias, a recuperação da estrada é necessária para fortalecer a integração entre Porto Velho e Manaus e aproximar a produção dessas regiões do mercado amazonense.

O presidente da Faea e vice-presidente da CNA, Muni Lourenço, destacou que o reasfaltamento do corredor pode contribuir para reduzir o isolamento de Amazonas e Roraima. Ele também ressaltou a relevância dos portos e terminais do Arco Norte para o escoamento da produção agropecuária brasileira.

Expedição avalia portos e terminais do Arco Norte

A agenda começou em Porto Velho, onde o grupo visitou a sede da Faperon e estruturas operadas pelas empresas Bertolini, Cargill e Mega Logística.

Na sequência, a comitiva seguiu para Humaitá, no Amazonas, e conheceu as Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte, conhecidas como IP4. O percurso continuou pela BR-319 até Careiro Castanho e Manaus, com visitas ao Estaleiro da Bertolini e ao Super Terminais, especializado na movimentação de cargas conteinerizadas.

As visitas permitiram observar como rodovias, portos e hidrovias se complementam no transporte regional. A avaliação é de que a expansão da produção agropecuária exige investimentos na infraestrutura terrestre, mas também maior aproveitamento dos rios e das estruturas portuárias existentes.

Hidrovias podem reduzir custos do transporte agropecuário

O vice-presidente da CNA, Gedeão Pereira, defendeu o desenvolvimento de uma logística integrada, capaz de aproveitar o potencial natural dos rios amazônicos. O Rio Madeira e outros corredores fluviais ligados ao Arco Norte têm papel relevante na movimentação de grãos e demais cargas do agronegócio.

Durante a passagem pelo terminal da Cargill, o diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon), Edeon Vaz Ferreira, apresentou dados sobre o fluxo de grãos e a infraestrutura portuária e hidroviária da região.

Ele destacou a importância dos projetos de outorga dos rios Madeira e Tapajós. A medida pode contribuir para melhorar as condições de navegação, aumentar a confiabilidade dos corredores hidroviários e oferecer maior segurança e previsibilidade ao transporte de cargas.

Secas afetam capacidade dos navios em Manaus

Em Manaus, a expedição conheceu o Super Terminais, porto privado responsável por aproximadamente 50% das cargas que entram e saem da capital amazonense.

De acordo com o diretor-geral do empreendimento, Marcello di Gregório, o terminal movimentou 150 mil contêineres em 2025. Apesar da importância da estrutura, os períodos de seca reduzem a capacidade de ocupação dos navios.

Em situações mais severas, a baixa dos rios pode exigir o desvio das operações para outros portos, elevando custos, ampliando prazos e reduzindo a previsibilidade logística.

Infraestrutura precária aumenta dificuldades dos produtores

Os reflexos dos gargalos logísticos são sentidos diretamente nas propriedades rurais. Em Careiro Castanho, a produtora Maria Izabel Melo Nogueira cultiva abacaxi, mantém uma granja e comercializa ovos. Atendida pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar Amazonas, ela possui, junto com a família, cerca de 15 mil pés de abacaxi.

A produtora considera a BR-319 indispensável para o abastecimento e para a circulação de mercadorias. Sua família vive na região há mais de 30 anos e depende da ligação rodoviária para receber produtos vindos de outros estados.

O produtor Francisco Nogueira observa que os problemas não estão restritos à estrada. Segundo ele, a limitada capacidade do porto provoca filas e aumenta o tempo necessário para embarcar a produção.

Transporte de insumos encarece atividades agropecuárias

A logística também interfere no custo de produção das propriedades amazonenses. Como o estado depende de insumos trazidos de outras regiões, produtos como milho e soja utilizados na alimentação animal precisam percorrer longas distâncias até chegar aos criadores.

Na avaliação dos produtores ouvidos durante a missão, o transporte rodoviário pela BR-319 é fundamental porque, em determinadas situações, o frete por navio pode ser mais caro. As condições inadequadas da estrada, contudo, reduzem a eficiência desse abastecimento.

O problema afeta atividades como pecuária, avicultura, fruticultura e produção de ovos, além de comprometer a competitividade dos alimentos produzidos localmente.

Rodovia pode fortalecer integração com Acre, Peru e Pacífico

A recuperação da BR-319 também é considerada estratégica para a integração da Amazônia Ocidental. Para o vice-presidente da Faeac, Edivan de Azevedo, uma rodovia com fluxo contínuo poderia ampliar a conexão entre Amazonas, Acre e Roraima, além de facilitar o acesso aos mercados peruano e do Oceano Pacífico.

O corredor também abriria novas possibilidades para os produtores acreanos comercializarem alimentos em Manaus, um dos principais centros consumidores da região.

Na avaliação da assessora técnica da Comissão de Logística da CNA, Elisangela Pereira Lopes, a BR-319 continua sendo necessária para a movimentação de cargas e de pessoas, apesar das condições precárias observadas em diferentes pontos do trajeto.

Melhorias podem estimular produção e sucessão familiar

Para o pecuarista Jefferson Araújo, os investimentos na rodovia podem influenciar o futuro das propriedades rurais e favorecer a permanência das novas gerações no campo.

A melhoria da conexão com Manaus, Porto Velho e os terminais do Arco Norte tende a ampliar mercados, facilitar a entrada de insumos e criar condições mais favoráveis para novos investimentos.

O diagnóstico da expedição mostra que o potencial produtivo da Região Norte depende de uma logística mais eficiente e integrada. A recuperação da BR-319, associada à modernização dos portos e ao melhor aproveitamento das hidrovias, pode reduzir custos, aumentar a segurança do transporte e fortalecer a participação do Arco Norte no escoamento do agronegócio brasileiro.

Fonte: Portal do Agronegócio

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