Recuperações judiciais no agronegócio disparam 56% mesmo com safra recorde e acendem alerta sobre crise financeira no campo
Alta dos juros, crédito rural mais restrito, custos elevados e volatilidade das commodities pressionam o caixa dos produtores, impulsionando o maior número de recuperações judiciais da história do agronegócio brasileiro.
Publicado em: 04/08/2026 às 10:00hs
O agronegócio brasileiro vive um dos maiores paradoxos de sua história recente. Enquanto o país caminha para uma safra recorde de grãos em 2025/26, cresce de forma acelerada o número de produtores rurais e empresas incapazes de manter o equilíbrio financeiro.
Dados da Serasa Experian mostram que 1.990 pedidos de recuperação judicial foram registrados no agronegócio em 2025, o maior volume desde o início da série histórica, em 2021. O número representa um avanço de 56,4% sobre os 1.272 processos registrados em 2024 e é quase quatro vezes superior aos 534 pedidos contabilizados em 2023.
O crescimento evidencia que a elevada produtividade no campo não tem sido suficiente para garantir rentabilidade e geração de caixa, diante de um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais restrito, aumento dos custos de produção e oscilações nos preços das commodities.
Segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos 2025/26 deverá alcançar aproximadamente 360 milhões de toneladas, consolidando mais um recorde histórico de produção. Ainda assim, especialistas alertam que produzir mais já não significa, necessariamente, lucrar mais.
Produção continua forte, mas rentabilidade diminui
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a principal dificuldade enfrentada atualmente pelos produtores não está na capacidade produtiva, mas na estrutura financeira das propriedades e empresas.
Segundo ele, muitos agricultores continuam registrando elevados índices de produtividade, porém recebem menos pela comercialização da produção, enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente.
Na avaliação do especialista, o aumento dos preços dos insumos, defensivos, fertilizantes, fretes e do custo do crédito reduziu as margens do produtor, tornando mais difícil preservar liquidez e manter o fluxo de caixa.
Esse cenário faz com que propriedades tecnicamente eficientes enfrentem dificuldades financeiras mesmo após colher boas safras.
Juros elevados transformaram o financiamento rural
Outro fator que explica o avanço das recuperações judiciais é a mudança no ambiente de crédito.
Nos últimos anos, o aumento das taxas de juros elevou significativamente o custo dos financiamentos rurais. Paralelamente, bancos e instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rigorosos para concessão de crédito, exigindo garantias maiores e reduzindo a exposição ao risco.
De acordo com Denis Barroso, essa combinação alterou completamente a dinâmica financeira do setor.
Produtores que renegociaram dívidas em um cenário de crédito abundante passaram a enfrentar dificuldades para renovar operações, financiar novas safras e manter capital de giro suficiente para sustentar suas atividades.
O reflexo vai muito além das propriedades rurais.
Quando o crédito diminui, toda a cadeia do agronegócio sente os impactos, afetando cooperativas, distribuidores de insumos, fabricantes de máquinas agrícolas, tradings, transportadoras e instituições financeiras regionais.
Inadimplência rural permanece elevada
Os indicadores financeiros reforçam esse movimento.
Segundo levantamento da Serasa Experian, 8,2% dos produtores rurais apresentam atrasos superiores a 180 dias no pagamento de seus compromissos financeiros.
O dado demonstra que a pressão sobre o caixa permanece elevada mesmo em um ambiente de elevada produção agrícola.
Especialistas destacam que o desafio atual não é apenas produzir mais, mas transformar produtividade em geração de caixa suficiente para honrar financiamentos, realizar novos investimentos e preservar a sustentabilidade financeira das operações.
Por que as recuperações judiciais cresceram?
Especialistas apontam que o aumento das recuperações judiciais é consequência da atuação simultânea de diversos fatores econômicos que vêm pressionando o agronegócio brasileiro.
Entre os principais motivos estão:
- manutenção das taxas de juros em níveis elevados;
- aumento dos custos de produção, especialmente insumos e defensivos;
- maior volatilidade dos preços das commodities agrícolas;
- redução da liquidez no crédito rural;
- maior rigor das instituições financeiras na concessão de financiamentos;
- elevado nível de endividamento acumulado após anos de expansão do crédito.
O resultado é uma deterioração gradual do fluxo de caixa, mesmo em empresas e propriedades que continuam operando com eficiência produtiva.
Recuperações judiciais aumentam em toda a economia
O movimento não é exclusivo do agronegócio.
A Serasa Experian registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial envolvendo empresas de diversos setores da economia em 2025, também o maior número desde o início da série histórica.
Além disso, milhões de empresas brasileiras enfrentam elevados índices de inadimplência, reflexo do crédito caro, da desaceleração econômica e da maior seletividade na oferta de financiamentos.
Na avaliação de Denis Barroso, o ambiente macroeconômico tornou-se mais desafiador para praticamente todos os segmentos produtivos.
Segundo ele, embora o agronegócio chame atenção pelos números, a pressão financeira decorrente do alto custo do capital afeta toda a economia brasileira.
Recuperação judicial não deve ser a primeira alternativa
Os especialistas alertam que a recuperação judicial deve ser encarada como uma ferramenta de reorganização empresarial, e não como a primeira medida diante das dificuldades financeiras.
Antes de recorrer ao Judiciário, empresas e produtores devem avaliar alternativas como:
- renegociação estruturada de dívidas;
- revisão operacional;
- redução de custos;
- venda de ativos não estratégicos;
- reorganização financeira;
- entrada de novos investidores.
Segundo Denis Barroso, quanto mais cedo o diagnóstico financeiro for realizado, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial e evitar situações irreversíveis.
Conhecer detalhadamente o nível de endividamento, a capacidade de geração de caixa e os passivos críticos torna-se essencial para definir a melhor estratégia de recuperação.
Gestão financeira passa a ser fator decisivo
Para Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial e especialista em reestruturação de empresas, o atual cenário exige uma mudança na forma como empresários administram capital e endividamento.
Segundo ele, empresas que antes conseguiam renovar operações de crédito com relativa facilidade agora precisam adotar planejamento financeiro permanente, gestão rigorosa do caixa e monitoramento constante da estrutura de capital.
Na sua avaliação, acompanhar indicadores financeiros passou a ser tão importante quanto monitorar produtividade, vendas e desempenho operacional.
O desafio deixou de ser apenas crescer. Agora, tornou-se indispensável crescer preservando liquidez, capacidade de investimento e sustentabilidade financeira.
Perspectiva para 2026 permanece desafiadora
Mesmo com perspectivas positivas para a produção agrícola brasileira, especialistas acreditam que o ambiente financeiro continuará exigindo cautela ao longo de 2026.
A evolução das taxas de juros, a disponibilidade de crédito rural e o comportamento das commodities no mercado internacional deverão determinar o ritmo de recuperação financeira do setor.
Enquanto essas variáveis permanecerem pressionadas, ganha importância a adoção de estratégias preventivas, gestão de riscos e reestruturação financeira antes que dificuldades temporárias evoluam para situações de insolvência.
Para os especialistas, o agronegócio brasileiro mantém fundamentos sólidos e elevada competitividade mundial. No entanto, o fortalecimento da gestão financeira será decisivo para que produtores e empresas atravessem o atual ciclo de maior pressão econômica sem comprometer sua capacidade de crescimento e investimento.
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Fonte: Portal do Agronegócio
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