Super El Niño pode elevar riscos para o agronegócio na safra 2026/27
Cenário climático projetado para o fim de 2026 e o início de 2027 exige atenção a lavouras, crédito rural, seguros, fluxo de caixa e investimentos
Publicado em: 17/09/2026 às 11:55hs
A possibilidade de um El Niño de forte intensidade durante o ciclo 2026/27 amplia o alerta para o agronegócio brasileiro. Além dos potenciais efeitos sobre as lavouras, o fenômeno poderá afetar custos operacionais, crédito rural, seguros, investimentos, contratos e planejamento financeiro das empresas do setor.
Na avaliação do Grupo RZ3, especializado em planejamento tributário, estruturação financeira e estratégia empresarial, o risco climático precisa ser analisado de forma integrada. Eventuais perdas de produtividade podem repercutir no caixa das propriedades, na capacidade de pagamento, na demanda por renegociação de dívidas e na contratação de mão de obra.
“Experiências em mais de 50 setores da economia mostram que eventos que parecem restritos a uma área técnica, tributária, jurídica ou, neste caso, climática quase sempre se revelam transformações transversais, que atingem a operação inteira. Por isso, o El Niño deve ser tratado como um risco de gestão”, afirma Junior Rozante, CEO do Grupo RZ3.
El Niño pode provocar impactos diferentes entre as regiões
O agronegócio está entre os setores mais expostos às oscilações meteorológicas. Em episódios intensos de El Niño, os efeitos variam conforme a região, o período do ano e a cultura instalada.
No Centro-Sul e em áreas do Centro-Oeste, a irregularidade das chuvas pode representar riscos para culturas como café, cana-de-açúcar e milho segunda safra. No Sul, volumes elevados de precipitação podem aumentar a possibilidade de encharcamento do solo, enchentes, atraso nas operações agrícolas e dificuldades de colheita.
Esses efeitos, entretanto, não são uniformes nem automáticos. A intensidade dos impactos dependerá da evolução do fenômeno, da distribuição regional das chuvas, das temperaturas e da fase de desenvolvimento das lavouras.
Perdas agrícolas podem chegar aos balanços das empresas
Uma frustração de safra não fica restrita à produção. A redução do volume colhido ou a perda de qualidade dos produtos pode exigir revisão do valor de estoques e ativos biológicos, além do reconhecimento de provisões em operações sem cobertura adequada.
Na área tributária, situações de emergência climática também podem ampliar a procura por medidas estaduais relacionadas ao ICMS rural e por mecanismos de renegociação de dívidas junto ao sistema financeiro.
Segundo a consultoria, instrumentos oferecidos pelo Conselho Monetário Nacional, Banco do Brasil, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e cooperativas de crédito podem ganhar relevância a partir de 2027, caso os danos previstos se confirmem e passem a aparecer nos balanços das empresas.
Crédito rural e capacidade de pagamento entram no radar
O risco climático também tende a pressionar o fluxo de caixa do produtor. Uma safra abaixo do esperado pode reduzir receitas, elevar custos por unidade produzida e comprometer o pagamento de financiamentos contratados para custeio e investimento.
Nesse ambiente, o Plano Safra e as linhas de crédito rural podem registrar aumento dos pedidos de prorrogação ou renegociação. Empresas que dependem diretamente do desempenho da produção agrícola também ficam expostas, incluindo fornecedores de insumos, cooperativas, transportadoras, armazenadores e agroindústrias.
A recomendação é que produtores e companhias simulem previamente cenários de quebra de produção, aumento de custos e redução de receita. A análise deve considerar os compromissos financeiros assumidos, as garantias oferecidas e as cláusulas previstas nos contratos de crédito.
Seguro rural pode enfrentar maior sinistralidade
O mercado de seguros deverá funcionar como um dos principais indicadores dos impactos do El Niño na safra 2026/27. Caso ocorram perdas agrícolas disseminadas, a sinistralidade poderá aumentar e pressionar o valor das apólices nas contratações seguintes.
Nesse contexto, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural ganha importância para ampliar o acesso dos produtores à cobertura. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) também permanece como referência para a escolha das épocas de plantio com menor exposição às adversidades meteorológicas.
A consultoria recomenda que os produtores revisem as condições das apólices, os riscos cobertos, as franquias, os limites de indenização e as exigências para comunicação de perdas. A contratação do seguro, por si só, não elimina a necessidade de observar as regras agronômicas e documentais previstas no contrato.
Clima adverso pode afetar emprego e custos no campo
Os reflexos de uma possível frustração de safra também podem chegar ao mercado de trabalho rural. Colheitas menores tendem a reduzir o período de contratação, prolongar a entressafra e elevar a rotatividade em atividades dependentes de mão de obra temporária.
Para as empresas, esse cenário pode aumentar despesas com desligamentos e dificultar a retenção de trabalhadores qualificados. O planejamento deve considerar diferentes níveis de produção e a necessidade de ajustar equipes sem comprometer operações essenciais.
Irrigação, genética e monitoramento devem atrair investimentos
A perspectiva de maior variabilidade climática tende a reforçar os investimentos em tecnologias voltadas à resiliência da produção. Entre as alternativas estão irrigação, cultivares mais tolerantes ao déficit hídrico, biotecnologia, agricultura de precisão e monitoramento por satélite.
Esses aportes, porém, precisam ser avaliados de acordo com a realidade financeira e produtiva de cada propriedade. Disponibilidade de água, custo de energia, retorno esperado, tipo de solo, cultura e capacidade de endividamento estão entre os fatores que devem entrar na decisão.
Empresas devem preparar plano de contingência ainda em 2026
Projeções citadas pela consultoria indicam que o El Niño poderá atingir maior intensidade no Hemisfério Sul entre o fim de 2026 e o início de 2027. O período coincide com o fechamento de orçamentos empresariais, a renovação de seguros e a definição do planejamento financeiro e tributário do ano seguinte.
Diante desse cenário, Rozante recomenda que o planejamento seja iniciado antes da confirmação dos impactos. Entre as medidas estão o mapeamento da exposição climática de cada unidade de negócio, a revisão das coberturas de seguro, a avaliação de contratos financeiros em cenários de estresse e a integração das áreas operacional, jurídica, fiscal e financeira.
“O clima brasileiro está mudando de intensidade. E, com ele, também precisa mudar a forma como as empresas do país se preparam, se financiam, se protegem e planejam o ano que vem”, conclui o executivo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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